As sílabas marginais/O MAR ENROLA N’AREIA/Nelson Ferraz

 

O MAR ENROLA N’AREIA

 

 

 

   (porque todas as infâncias são pequenos rios

que um dia serão mar.)

 

e a mãe, numa fala de cuidado

   – leva um casaco. não venhas tarde

e as sopas de leite qua a mãe leva à cama

adoçadas com um mimo tão doce que estraga

e a mãe preocupada com as fotos

   – sorri, anda lá, sorri.

 

e as galinhas à solta, lá em cima, no quintal

entre couves, flores e borboletas.

e a avó, esse meu anjo, na cozinha, atarefada com o fogão.

 

e a mãe a cantar o mar enrola n’areia

enquanto limpa o pó e a manhã até ser sol.

 

 

e o avô, afectuoso e austero, jornal em punho,

resmungando injustiças

enquanto limpa as lentes dos óculos.

 

e o pai a tossir cigarros no tempo da manhã cedo.

e o pai, depois, solene e silencioso, a beber o café

chávena na mão, a olhar os gatos que passam altivos no muro.

e o pai a traduzir o céu

    – estas nuvens são chuva.

 

e o irmão, companheiro fiel, mãos em riste,

rodeado de cowboys, índios e cavalos

a percorrerem, no galope da boca,

a pradaria da mesa da sala.

 

e a irmã, essa querida pulga eléctrica,

penteando, com afinco e serenidade,

a boneca Repuda.

 

e o Joli, pequeno vigilante, junto à cancela do pátio,

a ladrar, furioso, ao incauto marçano.

 

e o tio Zé Manuel, terno e culto, a explicar o clarinete

a política, as óperas no Coliseu e os erros do quotidiano.

e, juntos, a desenharmos quilómetros de perguntas nos pés.

e uma vez, e mil vezes

és o menino dos porquês.

e, outra vez, junto à Arrábida

   – olha, já vão colocar o arco da ponte.

 

e a Tatã, dedicada e carinhosa, a dar-me a sopa

e a ensinar-me a crescer.

 

e a tia Gija, religiosa leitora de livros e guardiã de oralidades,

olhando a estante

– já li aqueles livros todos. alguns, mais do que uma vez.

e eu a pedir-lhe

   – contas-me a história do bom ladrão?

e ela, óculos na mão, com os olhos a medir

   – olha que essa demora muito.

 

e o pai, no portão, fingindo não estar à minha espera

para recebermos a mãe, absolutamente linda,

a regressar, tão cansada, tão frágil e tão com frio,

dos dias longos de hospital.

 

e o pai, absolutamente lindo, com silêncios de tristeza

a deixar-se abraçar pelos meus olhos profundamente calados.

e o pai e eu, a escutarmos sem ouvir

– o mar enrola n’areia. o mar enrola n’areia.

e a não ser sol.

 

o pessegueiro está, lá em cima, como uma bandeira,

a usar o bibe do vento que passou e passa.

 

tudo esteve, tudo está. tudo foi e tudo é.

 

   (porque todas as infâncias são pequenos rios

que um dia serão mar.)

 

 

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