O MAR ENROLA N’AREIA
(porque todas as infâncias são pequenos rios
que um dia serão mar.)
e a mãe, numa fala de cuidado
– leva um casaco. não venhas tarde
e as sopas de leite qua a mãe leva à cama
adoçadas com um mimo tão doce que estraga
e a mãe preocupada com as fotos
– sorri, anda lá, sorri.
e as galinhas à solta, lá em cima, no quintal
entre couves, flores e borboletas.
e a avó, esse meu anjo, na cozinha, atarefada com o fogão.
e a mãe a cantar o mar enrola n’areia
enquanto limpa o pó e a manhã até ser sol.
e o avô, afectuoso e austero, jornal em punho,
resmungando injustiças
enquanto limpa as lentes dos óculos.
e o pai a tossir cigarros no tempo da manhã cedo.
e o pai, depois, solene e silencioso, a beber o café
chávena na mão, a olhar os gatos que passam altivos no muro.
e o pai a traduzir o céu
– estas nuvens são chuva.
e o irmão, companheiro fiel, mãos em riste,
rodeado de cowboys, índios e cavalos
a percorrerem, no galope da boca,
a pradaria da mesa da sala.
e a irmã, essa querida pulga eléctrica,
penteando, com afinco e serenidade,
a boneca Repuda.
e o Joli, pequeno vigilante, junto à cancela do pátio,
a ladrar, furioso, ao incauto marçano.
e o tio Zé Manuel, terno e culto, a explicar o clarinete
a política, as óperas no Coliseu e os erros do quotidiano.
e, juntos, a desenharmos quilómetros de perguntas nos pés.
e uma vez, e mil vezes
– és o menino dos porquês.
e, outra vez, junto à Arrábida
– olha, já vão colocar o arco da ponte.
e a Tatã, dedicada e carinhosa, a dar-me a sopa
e a ensinar-me a crescer.
e a tia Gija, religiosa leitora de livros e guardiã de oralidades,
olhando a estante
– já li aqueles livros todos. alguns, mais do que uma vez.
e eu a pedir-lhe
– contas-me a história do bom ladrão?
e ela, óculos na mão, com os olhos a medir
– olha que essa demora muito.
e o pai, no portão, fingindo não estar à minha espera
para recebermos a mãe, absolutamente linda,
a regressar, tão cansada, tão frágil e tão com frio,
dos dias longos de hospital.
e o pai, absolutamente lindo, com silêncios de tristeza
a deixar-se abraçar pelos meus olhos profundamente calados.
e o pai e eu, a escutarmos sem ouvir
– o mar enrola n’areia. o mar enrola n’areia.
e a não ser sol.
o pessegueiro está, lá em cima, como uma bandeira,
a usar o bibe do vento que passou e passa.
tudo esteve, tudo está. tudo foi e tudo é.
(porque todas as infâncias são pequenos rios
que um dia serão mar.)

