Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
8 min de leitura
Uma aquisição hostil de Elon Musk
Por dentro da mente do bilionário que está no coração do poder americano.
Publicado por
em 15 de Janeiro de 2025 (original aqui)

Elon Musk é um mutante. Em dado momento, ele fala em termos gentis e de uma forma quase que desarmante e ingénua sobre a necessidade de viver com curiosidade e compaixão, e perde-se nos detalhes das órbitas e dos propulsores. No momento imediatamente seguinte, ele alimenta a raiva racista através de textos inflamados, recentemente marcando um membro do governo do Reino Unido como um “apologista do genocídio por estupro”. Ele é atraído pela estética gótica (veja o tipo de letra Élfico Fraktur do seu chapeú Maga), mas não exibe nenhuma capacidade de introspeção necessária para realmente contemplar o vazio. Demasiado hiperativo para desanima, a atenção de Musk dispersa-se longo do seu fluxo solto sobre os media sociais. No outono, ele ziguezagueou em direção a Maga e Mar-a-Lago. No inverno, ele mergulhou nas zonas escuras da política britânica e alemã. O que acontece quando o homem mais rico do mundo se torna o provocador de maior visibilidade do mundo?
“Só o partido da extrema-direita alemã, o AfD, pode salvar a Alemanha”, escreveu Musk no X três dias antes do Natal, pondo em destaque o texto de outro utilizador de X sobre alemães “a serem mortos e estuprados por migrantes”. Desde a véspera de Ano Novo, ele arrasou os seus mais de 200 milhões de seguidores com dezenas de imagens, clipes e exortações sobre o escândalo dos gangues de assédio sexual no norte da Inglaterra. Uma tragédia pública e objeto de investigações de anos, o tema tem sido um foco especial para a extrema-direita por causa da proeminência de homens não brancos entre os culpados. Em 2019, o atirador de Christchurch mencionou o local central do abuso quando pintou as palavras “para Rotherham” num dos cartuchos que usou para matar 51 pessoas numa mesquita da Nova Zelândia.
Apesar do envolvimento pessoal de Keir Starmer na acusação de crimes relacionados, Musk tem um objetivo especial contra o primeiro-ministro britânico. “Starmer tem de ir”, escreveu em 5 de janeiro. Poucos dias depois, o Financial Times revelou que Musk está a estudar ativamente maneiras de Starmer ser substituído antes que o seu mandato termine. Um conselheiro próximo do novo presidente dos EUA, que pretende remover o chefe de Estado de um dos Aliados mais próximos da América, assemelha-se a um território inexplorado. Quando Donald Trump assumir o cargo, a 20 de Janeiro, Musk e os seus impulsos noturnos online aproximar-se-ão ainda mais das alavancas do poder. Tentar entender as regras caleidoscópicas do jogo que Musk está a jogar, tornou-se, portanto, algo como um dever cívico. Se olharmos para a porcaria e o caos dos textos que publica, ele parece impulsionado pelo que poderíamos ver como cinco proposições centrais.
A primeira é que o Estado sirva os fabricantes. Musk não tem escrúpulos em trabalhar com o governo, nunca tendo sido um libertário doutrinário. Ele vê o governo como um parceiro positivo na medida em que coordena os seus esforços para as soluções dos engenheiros.
A segunda proposição é que todos os problemas perversos têm uma solução tecnológica. Nada, desde as alterações climáticas à desigualdade social, exige mediação através de processos consultivos públicos. Tudo tem um remédio de design. Nestas duas primeiras proposições, Musk está no mundo dos seus companheiros do Sillicon Valley e a defender o que o crítico de tecnologia Evgeny Morozov apelidou de “solucionismo”.
Ele seguiu os passos de Peter Thiel, um membro da “máfia do PayPal” que, juntos, estabeleceram grande parte do atual cenário tecnológico nos anos 2000, depois de trabalhar na empresa de pagamentos. Foi Thiel quem primeiro mostrou o valor do “Comércio Trump”, apoiando-o em 2016 e aconselhando sobre a criação de uma equipa de transição. Thiel então contratou JD Vance para a sua empresa de capital de risco Mithril em 2017 e gastou 15 milhões de dólares na bem-sucedida corrida ao Senado que acabou por abrir o caminho a Vance para a vice-presidência.
A aversão retórica dos muitos libertários autoproclamados nesta coorte à dependência de contratos estatais foi superada ou revelada como hipocrisia frágil. O Palantir de Thiel tem um contrato de 500 milhões de dólares com os militares dos EUA. A Anduril, fundada pelo protegido de Thiel, Palmer Luckey, assinou um contrato de 250 milhões de dólares com o Departamento de defesa há poucos meses. O capitalista de risco Marc Andreessen, que uma vez teve apenas palavras duras para o governo como um obstáculo ao seu “manifesto tecno-otimista”, passou o tempo da administração Biden a apoiar empresas a disputar contratos federais no âmbito da sua iniciativa “American Dynamism”. No entanto, os magnatas do Sillicon Valley estão a desempenhar agora um papel muito mais ativo do que durante a Primeira Presidência de Trump. Trump escolheu David Sacks, outro mafioso do PayPal, como sendo ” czar da IA e das moedas Crypto”, indicando a importância de criptomoedas como o Bitcoin, cujo valor era de 700 dólares no dia das eleições em 2016 e desde então subiu para mais de 100.000 dólares.
Antes das eleições de 2024, Trump comparou o setor das criptomedas à “indústria do aço de há 100 anos” e prometeu construir “a capital cripto do planeta e a superpotência da bitcoin no mundo”. A centralidade de Silicon Valley na coligação de Trump não só confere a legitimidade de um mercado bolsista em contínua ascensão – assente desproporcionalmente num punhado de grandes empresas tecnológicas – mas também uma visão do mundo que aponta para um futuro inovador em vez de um passado idealizado.
A terceira convicção de Musk é que a política online matou a velha política. X é mais valioso que o New York Times; A Tesla vale todas as outras construtoras juntas. Em 2016, Trump encenou uma tomada hostil do Partido Republicano. A sua candidatura foi contestada por todo o establishment republicano. No entanto, mostrou o poder de quebrar tabus e alavancar a indignação, principalmente através da nova imediatez das plataformas de redes sociais. Musk não se orientou imediatamente para o novo paradigma, opondo-se a Trump em 2016. A sua conversão política à direita foi acelerada por acontecimentos gémeos em 2020: primeiro, as medidas para conter a disseminação da Covid-19 que abrandaram a produção das suas fábricas de automóveis e, em segundo lugar, a transição de género do seu filho, Vivian. Desde 2020 que Musk se tornou cada vez mais obcecado pelo “vírus da mentalidade woke ”, alegando que a dada altura “matou” a sua criança (agora filha e que está viva ).
No início de 2022, Musk apresentou uma oferta para gastar 44 mil milhões de dólares para comprar aquele que via como o principal canal de transmissão do vírus: o Twitter. Depois daquilo que começou como algo próximo de uma manobra online ter sido imposto pelos tribunais do Delaware, Musk assumiu um papel cada vez mais ativo em publicações provocatórias e mergulhou com novo vigor nas guerras culturais. Desprezado pelo governo de Biden no seu apoio a outras empresas de veículos elétricos, apoiou publicamente candidatos republicanos pela primeira vez nas eleições intercalares de 2022. E começou a manifestar interesse internacional por candidatos rebeldes de direita em 2023, publicando memes de claro apoio ao presidente argentino, Javier Milei, e elogiando as suas iniciativas de austeridade. Em julho de 2024, manifestou-se em apoio de Trump e do movimento Maga e não olhou para trás.
É sabido que Musk não fundou a Tesla nem teve qualquer participação no desenvolvimento da sua tecnologia principal. O que fez, foi descobrir uma promissora empresa em arranque e liderar um processo de angariação de capital e de marketing de grande sucesso. Da mesma forma, Trump assumiu o controlo do Partido Republicano e reformulou-o, tornando-o seu. Os acontecimentos uniram estes dois disruptores. E Musk está agora numa busca global por outros concorrentes emergentes para substituir as marcas tradicionais. Daí a sua atração por La Libertad Avanza, de Milei, na Argentina, Nuevas Ideas, de Nayib Bukele, em El Salvador, e, mais recentemente, Reform UK, Alternative for Germany [Afd] e Fratelli d’Italia. Estes são os possíveis Teslas da política. O recente anúncio de Giorgia Meloni sobre o interesse na Starlink de Musk em vez do projeto emergente da UE Iris para satisfazer as necessidades de satélite de Itália sugere o retorno material que estas alianças podem render.
Um dos primeiros conselheiros de Trump, Steve Bannon, liderou um esforço semelhante para unir partidos díspares numa direita populista global em 2017. No entanto, Bannon não só não tinha os recursos de que Musk goza, como o seu foco era predominantemente cultural, focado em restaurar os valores civilizacionais do Ocidente e debruçando-se sobre temas sombrios da era sombria hindu da modernidade, do Kali Yuga e do declínio. A sua imaginação económica foi definida (pelo menos retoricamente) contra a lógica dominante do neoliberalismo e os imperativos de austeridade, eficiência e divisão internacional do trabalho.
O problema aqui era simples: os partidos insurgentes mais bem-sucedidos da direita global não são inimigos do neoliberalismo. São os filhos bastardos do próprio neoliberalismo. Os partidos adorados por Musk partilham o seu interesse no corte de custos e na eficiência que desenvolveu nas suas empresas, onde a inovação de processos e a redução de pessoal eram essenciais. Milei usou uma motosserra para cortar nos orçamentos educacionais e culturais. Bukele fez o mesmo enquanto suportava os custos de ter na prisão cerca de 2 por cento da população adulta de El Salvador.
A AfD, alvo do mais recente bombardeamento amoroso de Musk, conta com neonazis nas suas fileiras. Mas não é incorretamente descrito pela sua atual colíder, Alice Weidel, como um partido “libertário conservador”, que combina promessas nativistas de fronteiras rígidas com impostos baixos, regulamentação reduzida e crescimento impulsionado pelo carbono. Quando Musk falou com Weidel para uma audiência de centenas de milhares no Twitter, a 9 de janeiro, ela disse que a AfD estava a tentar “libertar as pessoas do Estado”. “Queremos liberdade de expressão”, disse ela, e “liberdade de riqueza”. Os alvos eram conhecidos dos anos Thatcher e Reagan: os burocratas, os beneficiários da assistência social e os reguladores.
A quinta proposta de Musk é talvez a mais estranha: a ideia de que o futuro profundo orienta a ação presente. Por mais fantasioso que possa parecer, a sua discussão sobre a necessidade de os humanos serem “uma civilização multiplanetária” oferece alguma explicação para o motivo pelo qual ele está disposto a colocar-se no centro da história.
Estamos num reino diferente do modelo tradicional de multimilionários que se enriquecem através de alianças com políticos apenas para garantir contratos federais ou lutar por isenções fiscais, operando na sombra através de PACs (comités de acção política) e financiando ecossistemas de criação de opinião ao estilo do ultralibertário barão do carbono, Charles Koch. Admitindo alguma verdade à contínua difamação de Musk a George Soros e Bill Gates, é também assim que têm operado: financiando a sociedade civil sob a forma de investigação, advocacia e jornalismo.
A disposição de Musk para se tornar o personagem principal sugere que ele percebe o poder de si mesmo como marca. Da mesma forma que Trump se tornou sinónimo do Partido Republicano, o culto da personalidade de Musk é indissociável da avaliação das suas empresas. Qualquer necessidade de validação seria confirmada pela análise do aumento vertical dos preços das ações das empresas que ajudou a fundar ou a dirigir nos últimos anos.
O objetivo de Musk não é operar nos bastidores. Mesmo depois do inevitável desentendimento entre ele e Trump, ele será um provocador com 500 mil milhões de razões para manter o seu nome nas páginas dos media. Também não pretende (apesar do requisito de cidadania) vir a ser presidente um dia. Porquê tolerar um papel tão secundário? Desde a compra do Twitter até ser pai de uma dúzia de filhos e fazer com que Trump fosse eleito, explica rotineiramente que as suas decisões foram tomadas para o “futuro da civilização”.
Em vez de um novo Koch ou Soros, a sua aspiração é ser mais parecido com a personagem Hari Seldon da série Fundação de Isaac Asimov, que está entre os “melhores romances de sempre” na opinião de Musk. Na história de Asimov, o matemático Seldon prevê o futuro da humanidade e intervém como um avatar iluminado. É o salvador não só do partido ou da sociedade, mas da própria civilização. Este nível de validação é talvez a única coisa que satisfará o ego de Musk depois de ter alcançado todos os outros objetivos criados pelo homem.
Temos de considerar a ideia de que, para Musk, a captura do Estado não é um fim em si mesmo, mas apenas um prelúdio para a saída do Estado – iniciando uma nova política na Terra (testada pela incorporação de uma nova cidade empresarial em Starbase, Texas) ou em Marte. Mas até que ponto devemos levar a sério esta visão de longo prazo? Não seria mais correto ver Musk como um consumado visionário de curto prazo? Um bom historiador encontra a personalidade do seu tema não na motivação de um único ego, por mais poderoso que seja, mas no contexto do qual ele surgiu. E se perguntássemos não que mundos Musk está a querer criar, mas que mundos criaram Musk ?
Tanto ele como a sua riqueza foram feitos na espuma do mercado de ações, primeiro na bolha das dot.com, quando foi cofundador do PayPal e, desde a crise financeira global, na era da flexibilização quantitativa infinita, quando a liquidez inundou os ativos especulativos, o capital irrigado – investigação e desenvolvimento intensivos e levaram as avaliações a níveis nunca antes vistos. Dominar o ciclo de variação de um título financeiro é uma parte essencial para impulsionar a sua cotação no mercado, sabendo quando comprá-lo e quando vendê-lo. O esquema “pump-and-dump” (comprar, inflacionar e vender) em que Musk foi acusado de se envolver através da sua “moeda meme”: as criptomoedas são apenas o exemplo mais óbvio disso. O facto de o novo departamento de eficiência governamental ter adotado a sigla (Doge) de Dogecoin, uma criptomoeda promovida por Musk, levanta mais questões sobre a relação entre os princípios de responsabilidade e o investimento especulativo.
A disposição para se envolver em manobras de alto risco e manobras de curto prazo pode ser ainda mais bem captada na fixação de Musk por videojogos, especialmente aqueles do tipo “dungeon-crawling” [rastejar em masmorras], que envolvem navegar por labirintos e matar inimigos para completar tarefas em tempo recorde. Musk publica repetidamente sobre o seu progresso na classificação dos seus videojogos favoritos atuais, Diablo IV: Vessel of Hatred e Path of Exile 2. No primeiro, usa uma armadura que o deixa com um aspeto não muito diferente do xamã QAnon da insurreição de 6 de janeiro de 2021. O objetivo de Path of Exile é derrotar um vilão que criou uma Besta a partir de uma “semente de corrupção” e a alimentou com cadáveres escavados.
Musk elogia as “lições de vida” aprendidas nos jogos de execução rápida [speedrunning] como uma forma de “ver a matriz, em vez de simplesmente existir na matriz”. Talvez ele esteja a dizer que dominá-los pode não o fazer viver para sempre – a morte é uma constante nos jogos – mas pode ser o melhor jogador. Encontra o adversário mais poderoso, é o que aconselha Musk numa transmissão online sobre o seu gameplay de Diablo IV, e corre diretamente para ele. Conheceu alguém próximo de um seu par em Trump, que até agora conseguiu obter o que precisava do seu apoiante multibilionário sem ser acusado de abdicar do controlo. Até uma discussão sobre vistos temporários que colocou a revista Silicon Valley Maga contra os nativistas da linha dura deixou Trump sem uma mancha na sua gabardine.
Com as suas garras bem assentes na nova administração, Musk está a visar alguns dos outros líderes mundiais, de Justin Trudeau a Olaf Scholz. É niilista, imprudente e — perfeito para um jogador habituado a satisfazer impulsos de curto prazo — liberta endorfinas sem ter em conta os efeitos no mundo real. Até agora, os países mais próximos dos seus interesses estão a salvo das suas provocações, principalmente a China, onde ainda pode exercer uma influência moderadora sobre a administração Trump. O resto do mundo continua a ser o que os programadores chamam de jogo sandbox, jogo aberto e de exploração livre.
Talvez isto esteja mais próximo de quem Musk é na realidade: não Hari Seldon, o “psico-historiador” capaz de ler o futuro na sua biblioteca, mas o adolescente no dormitório a falar sobre alienígenas e The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, a levantar o punho quando mata outro demónio pixelizado. O mundo continua a recompensá-lo. Por que razão haveria ele de parar ?
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O autor: Quinn Slobodian [1978-] é um historiador canadiano especializado na Alemanha moderna e em História internacional. Atualmente é Professor de História Internacional na Universidade de Boston. Anteriormente, foi professor Marion Butler McLean de História das ideias no Wellesley College e Bolsista residencial no Weatherhead Center for International Affairs da Universidade de Harvard. É autor dos livros Foreign Front: Third World Politics in Sixties West Germany (2012), Globalists: the End of Empire and the Birth of Neoliberalism (2018) e Crack-Up Capitalism: Market Radicals and The Dream of a World Without Democracy (2023). É co-editor em Contemporary European History. Licenciado em História por Lewis e Clark College, é doutorado pela universidade de Nova Iorque.


