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A palavra Obrigado pode valer por uma vida – A história de uma oral extensa feita na FEUC de outrora, agora a VELHA FEUC.
Coimbra, 1 de Março de 2025
Sublinho que não se trata de uma aula de economia internacional. Para perceber o que se quer não é preciso compreender o gráfico, é preciso compreender a situação.
Há um outro obrigado muitas vezes repetido que está relacionado com o meu empenho num aluno que já na FEUC se tornou invisual, de nome Hermínio.
Este exemplo por várias razões, por um lado pelo meu empenho em que se contornasse o mais possível as limitações de que o Hermínio passava a ser vítima por se ter tornado invisual e, por outro lado, o forte apoio institucional dos serviços da Reitoria na passagem dos múltiplos textos a Braille. Vejamos um exemplo: em economia marxista no terceiro ano, uma disciplina que ele frequentou, os textos eram de várias centenas de páginas. Passar a Braille, seria quase impossível. Os serviços da Reitoria pedem o meu apoio. Que fiz eu? Li os textos todos da disciplina e, se calhar, treinei para autor argumentista e adaptar para Hollywood. Até aqui, ter lido os textos era a minha obrigação, mas o meu trabalho não era esse: era garantir o núcleo central da disciplina reduzindo ao mínimo possível o número de páginas a passar para Braille. Foram dias e dias a fazer esse trabalho de corte e cola tendo de escrever eu as ligações entre as matérias que ficavam para serem colocadas em Braille. Foram dias e dias, hoje impossível porque o professor tem uma carreira a defender e nela, o menos relevante, é gastar tempo a ensinar.
No ano seguinte, o Hermínio teve Economia Internacional e a minha dedicação ao aluno foi a mesma que em Economia Marxista. O seu regime de avaliação incluía um trabalho a realizar por um grupo de três alunos: o próprio Hermínio e mais duas colegas. E assim foi. Chegou-se ao momento da discussão do trabalho e aqui situa-se a mais bela imagem que tenho de quase 40 anos de professor.
A discussão do trabalho decorria do seguinte modo: a pergunta era feita para a mesa e eles escolhiam quem respondia. Se a resposta estava adequada ao que se pretendia, passava-se à pergunta seguinte e assim sucessivamente. Se a resposta não era adequada era eu ou a minha colega de júri que questionávamos os membros do grupo de forma aleatória, um após outro. O exame corria de forma relativamente normal ou até de forma muito boa se atendermos às circunstâncias.
Até que… há uma pergunta que é feita a uma das colegas do Hermínio, que não respondeu, passando-se depois à outra colega. Ninguém soube responder. Ora a pergunta era explicar um gráfico e não se podia pedir a um cego que explicasse um gráfico de um texto normal, que não estava em Braille, O gráfico era do tipo seguinte:
Sem querermos fazer disto uma aula de Economia Internacional o aluno teria de explicar este gráfico identificando:
- Ponto de produção e de consumo de economia fechada, preço relativo de economia fechada, e curva de bem-estar em economia fechada. Dito de outra forma teria de explicar o que significaria o ponto E, o que representava a linha a tracejado tangente à fronteira de possibilidades de produção AB e à curva de indiferença u1.
- Ponto de produção em economia aberta, o ponto E’, o ponto de consumo em economia aberta, o ponto C’ em u3, a linha vermelha tangente em E’ e C’.
- Adicionalmente, teria que explicar o significado da passagem do ponto E para o ponto C, explicando a linha vermelha tangente em C e secante em E assim como o significado da passagem de C para C ’ através da linha vermelha tangente em C‘ e E‘.
Nada disto se poderia perguntar a alguém que não via. Fiquei gago, sem saber o que fazer, quando nenhuma das duas raparigas respondeu. Passar à frente e sem lhe perguntar a ele era estar a desvalorizá-lo como aluno e a colocá-lo como deficiente, o que me recusaria a fazer, mas perguntar-lhe era estar a massacrá-lo. Mas o Hermínio era um homem de uma outra estirpe, de uma estirpe hoje muito difícil de encontrar na nossa juventude e também nos nossos dirigentes que apenas se sabem vergar não a quem dirige, mas a quem manda, o que não é a mesma coisa.
O Hermínio pede que lhe peguem na mão e lhe façam percorrer com o indicador todas as curvas uma a uma e todas as linhas com pontos de tangência ou de interseção. Depois deu-se o milagre, o cego via! Explica o que era importante: explica o que era o ponto de produção, explica o que era o ponto de consumo em economia fechada em que não há, por definição, trocas internacionais. Explica o que é o preço relativo de economia fechada, explica o aumento de bem-estar com a passagem da curva de bem-estar inicial para uma curva de bem-estar mais afastada da origem do sistema de eixos, a que resulta da passagem de economia fechada a economia aberta. Não apenas diz, explica também.
Dada a forma como isto estava a decorrer, atrevo-me a questionar sobre o ponto 3, um ponto que hoje já só aparece explicado nos manuais de alta qualidade, ou dito de outra maneira, a questioná-lo sobre o efeito de preço e o efeito de quantidades representados no gráfico. De novo, o dedo indicador percorre as curvas, uma a uma, e as correspondentes linhas. E a resposta surge; a linha EC representa o efeito de preço sobre o bem-estar. Passa-se de uma curva de bem-estar para uma outra mais afastada da origem do sistema de eixos representativa de um nível mais elevado de bem estar e para as mesmas quantidades produzidas.
Dito de outra forma, diz-me que é assim porque esta passagem da curva de bem estar de economia fechada para a curva de bem estar superior, para as mesmas quantidades, dá-se com a variação exclusiva do preço relativo. Depois explica o efeito quantidade: ao preço relativo de equilíbrio que se está a considerar, deslizamos sobre a fronteira de possibilidades de produção para a direita. Estamos a considerar exclusivamente a variação de quantidades, ao preço relativo internacional anteriormente considerado, e o bem estar volta a subir, com a passagem para uma outra curva de indiferença, por efeito de ajustamento das quantidades produzidas. Passa-se do ponto C para o ponto C ’ Trata-se do resultado da reafectação dos fatores produtivos que deriva da passagem de economia fechada a economia aberta. Neste caso, a resposta dele foi interrompida com a informação da curva de bem estar a que ele se estava a referir, informação essa expressa por uma das colegas.
E, como última pergunta digo: estamos a falar de efeitos vistos do lado do produtor, mas como explica pelo lado do consumidor que ele suba nas curvas de indiferença. Aí, teve que haver uma pausa e dou uma sugestão: pense no ponto C e na linha CE, pense no ponto C’ e na linha C’E’, pense também no que é que justifica ou explica a passagem da linha CE para a linha C’E’. A mesma ternura, o indicador conduzido pela mão da colega percorre as linhas paralelas e ele sente que houve deslocação da linha CE para a linha C’E’.
A resposta volta a saltar para cima da mesa: a linha C’E’ representa a linha de isorrendimento dos agentes económicos para aquelas quantidades produzidas e para aqueles preços. Esta linha está mais afastada da origem do sistema de eixos que a linha EC, melhor afetação de recursos, logo maior rendimento e maior rendimento, significa mais bem-estar, significa curvas de indiferenças mais afastadas da origem do sistema de eixos. Acrescentou ainda que a distancia entre as duas linhas paralelas reflete exclusivamente o efeito da reafectação sobre o rendimento. Face a este tipo de respostas, atrevi-me ainda a uma outra pergunta: porque é que me diz que as linhas tangentes representam isorrendimento? De novo, uma pausa, e a seguir, vem a resposta: estamos em economia aberta e com balança comercial equilibrada, estamos em estática, todo o rendimento é consumido, expresso esse consumo por infinitas combinações possíveis dos dois bens. Essas tangentes são linhas de isorrendimento ou, o que é equivalente, são linhas de isoconsumo.
Hoje que escrevo estas linhas, confesso, fiquei impressionadíssimo com a capacidade da imaginação, com a sua capacidade mental de vencer as limitações físicas que eram inultrapassáveis, através da sua capacidade de imaginar as figuras no espaço, num espaço que só ela via. Suspirei de alívio e creio que a minha colega também.
Mas hoje poderei acrescentar mais: este tipo de oral era agora impossível, até com os mesmos professores e com o mesmo aluno, pela razão simples que a base de conhecimentos com que se chega hoje à disciplina de Economia Internacional é muito inferior à que tinham os alunos de então quando chegavam à mesma disciplina. A base de chegada a este tipo de disciplina é menor, a facilidade de aquisição de conhecimentos é muito menor tal como é muito menor a capacidade de absorção desses mesmos conhecimentos, o que obriga a que o professor tenha de ir muito mais devagar e, portanto, o produto final terá de ser de muito menor qualidade. Isto é o que teoricamente se pode prever que esteja a acontecer.
Estranho, algo parece estar errado nesta afirmação que, contudo, parece muito sólida: a faculdade tem cada vez mais doutorados, cada mais professores associados, cada vez mais professores catedráticos, jovens catedráticos, assinale-se, logo não se entende a afirmação de que o produto final de tantos doutorados de grau elevado em termos de ensino seja bem pior do que quando estes doutorados não existiam. A contradição desaparece quando percebemos que ter muitos catedráticos, muitos professores associados não é NEM condição necessária, e muito menos é suficiente. Uma das razões para o resultado que se está a obter tem a ver com a moral dos tempos, bem expressa pela maior atratividade que se quer alcançar, o que podemos exemplificar com as equivalências dadas sem nenhum critério científico válido, ou com a redução do ensino das matemáticas gerais para metade, a outra razão é Bolonha que as gentes do PS não tiveram pejo nenhum em aprovar e defender e, por fim, é a obra dos cavaleiros do Apocalipse: Pedro Godinho, Álvaro Garrido, Tiago Sequeira e Luís Lopes na sua construção da Nova FEUC, porque até se podem ter os doutorados mais qualificados do mundo mas se não tivermos estruturas e planos de curso à sua altura e alunos de qualidade, então nada feito.
Voltemos ao Hermínio e ao elevado nível de abstração alcançado naquela oral. Lembro-me agora de uma coisa que li algures sobre Arthur Miller, o autor da Morte de um Caixeiro Viajante que numa conferência proferida em Yale falou do Diabo. Alguém curioso perguntou-lhe o que é que ele entendia especificamente por Diabo e a sua resposta foi: ter o Diabo na vida é não ter imaginação. A conclusão desta prova oral e desta discussão de um trabalho é que o Diabo esteve bem longe daquela mesa, onde o Hermínio imaginava, imaginava, e via aquilo que a falta dos olhos lhe impedia de ver, via na escuridão da sua vida aquilo que a maioria dos estudantes sem problemas de visão eram incapazes de ver à luz do dia, enquanto os professores imaginavam, imaginavam como é que deviam fazer as perguntas face ao difícil contexto em que as mesmas eram apresentadas. Um esforço enorme para todas com o objetivo de garantir um elevado nível de autoestima para os alunos em análise.
Eu e a Margarida Antunes ficámos impressionados: três alunos em exame e o único que via era cego. Já não sei a nota dada, a dele não seria má, e escapatória terá sido a delas as duas. O que sei dizer é que a intensidade da nossa ansiedade sofrida foi tal que ainda hoje, quer eu, quer a colega Margarida Antunes, nos lembramos da sala e das posições de cada aluno na secretária: piso 2 e sala 1. Mais tarde falei ao pai dele nesta história, já o Hermínio tinha morrido de cancro no intestino e o pai ficou a chorar, e surge a palavra: Obrigado. Tinha um estabelecimento comercial na Rua da Sofia, Chama Gás, e os tempos disponíveis (e talvez os indisponíveis) eram gastos no apoio à família do filho depois deste ter casado com uma invisual que conheceu no Centro Helen Keller, ainda enquanto aluno da FEUC.
Nesta história há vários intervenientes, em primeiro lugar o Hermínio, em segundo a família, em particular o pai, em terceiro, a Reitoria com as suas linhas de apoio a invisuais, e em quarto aqueles que foram os seus professores e que nunca deixaram de o estimular. Já o conhecia de Economia Marxista do terceiro ano, onde o Hermínio e eu, com o meu trabalho de redução da dimensão dos textos e salvar o fundamental neles, fizemos um trabalho que eu saiba sem paralelo na própria FEUC. Ele passou com facilidade na disciplina e passou, não porque era cego, passou porque sabia a matéria e tratava-se da disciplina mais difícil que em economia já alguma vez se lecionou na FEUC de então.
Ele também já sabia que poderia contar com a minha ajuda se necessário e eu já conhecia a sua capacidade de abstração, notável, mas nunca imaginaria que se poderia chegar a este nível. A Margarida Antunes também ela nunca mais o esqueceu, não o conhecia enquanto aluno de Economia Internacional, conhecia-o apenas da altura em que ambos frequentavam a licenciatura. Ele era meu aluno das aulas teóricas e ia às aulas práticas que eu lecionava. Era um tempo em que muitas das coisas que se faziam no plano da FEUC se faziam por espírito de missão, não de classificação, não de ratings. Curiosamente, não houve ao nível do próprio Conselho Científico nenhum reconhecimento deste tipo de trabalho, houve fora dele e, publicamente, pelo José Reis e em carta pessoal pelo Carlos Fortuna dizendo-me que mais vale tarde que nunca reconhecer o que por mim foi feito a nível pedagógico naquela escola. E porquê, porque é que não havia nada em Conselho Científico? Porque isso não consta dos ratings que determinam, afinal, o comportamento de cada docente na sua vida profissional e em que quem assim não fizer arrisca-se a ser tratado com desrespeito total pela sua própria dignidade como pessoa, como docente. Os tempos das duas últimas décadas têm sido assim e tudo aponta que continue a ser assim.
Este Obrigado foi um dos Obrigado que mais me satisfez na vida, mas refere-se a um mundo que já desapareceu. Hoje os alunos da FEUC serão diferentes num mundo simplificado que lhes foi colocado pela frente através do novo plano de curso da licenciatura em Economia, mas, pior do que isso, alguns dos seus atuais dirigentes responsáveis pela nova licenciatura em Economia desceram intencionalmente bem mais baixo, ao nível do impensável, porque inadmissível, como sublinhei no texto Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias.
E esses dirigentes têm nome, chamam-se Pedro Godinho, Álvaro Garrido, (fiz a reforma possível, é o que Garrido me dizia) ambos da direção que em nome da atratividade quiseram novos planos de curso, chamam-se Tiago Sequeira e Luís Peres Lopes, estes dois a constituírem pedras basilares da organização do novo curso em Economia da Nova FEUC. Como docente, vivi num mundo de respeito de uns pelos outros, vivi num mundo que já acabou, recordá-lo aqui e agora é, em si-mesmo, um ato de resistência.
Curiosamente, um amigo meu de infância escreveu-me ontem a propósito do texto que escrevi sobre os meus 82 anos, a dizer-me o seguinte:
“Como vês houve e há gente em que aqueles tempos não sejam esquecidos, havendo sempre alguém que resistiu para os lembrar.”
Mas o meu protesto de então, em tempos de fascismo, teve um preço elevado paras as crianças daquela época: um ano perdido e 1500 escudos a pagar, o equivalente a quase 4 meses de salário de um trabalhador rural. Diz-me esse amigo:
“Como já te disse eu fui atingido pela tua “digna atitude”, paguei 1500 escudos e perdi um ano.”
E é tudo.
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Uma vez referi o exemplo do Hermínio à minha mulher e esta conta-me uma outra história. Em tempos há muito tempo passados, teve uma aluna no nono ano que era totalmente invisual. Sofria de uma grave doença de envelhecimento precoce e parecia já uma velhinha de cabelos brancos. Morreu no ano seguinte.
Naquela altura, estava no nono ano e tinha aulas de Físico-Químicas. Um dia, no laboratório de Química, a minha mulher realiza as reações químicas do lítio, sódio e potássio, em contacto com a água. À medida que cada uma das reações químicas decorriam, a minha mulher ia descrevendo o que se estava a passar. Tal como no meu caso com o Hermínio, esta aluna gravemente doente e completamente cega grita de alegria, bate palmas e diz: Estou a ver, estou a ver!
Ainda hoje, é uma cena que não lhe sai da memória, um outro milagre, certamente pontual, em que o ser humano ultrapassa as barreiras da sua incapacidade no espaço da sua vivência interior: estou a ver, estou a ver, expressão que a minha mulher não esquece, nem quer esquecer.



