As Desventuras do Pilinhas – por Carlos Pereira Martins

As Desventuras do Pilinhas

por Carlos Pereira Martins

Era uma vez um homem de riso fácil e passo apressado, conhecido em toda a aldeia pelo nome de guerra: O Pilinhas. Ninguém sabia ao certo se a alcunha lhe vinha de nascença, de alguma traquinice de infância ou de um infortúnio mais íntimo. Mas uma coisa era certa: Pilinhas nunca desmentia, mas também nunca confirmava. Limitava-se a sorrir e a dizer, piscando o olho:

— Cada um carrega o seu fado, meus amigos!

Pilinhas era um homem de muitos ofícios e nenhum patrão fixo. Se havia vindima, lá ia ele com um balde e um saco de histórias. Se havia matança do porco, era o primeiro a segurar na aguardente para “desinfetar”. Mas a especialidade do homem eram as festas. Bastava haver um bailarico, uma romaria ou uma inauguração de rotunda que ele surgia, qual espírito festeiro, pronto para a função.

A fama do Pilinhas atingiu o auge no verão em que resolveu montar um negócio: aluguer de burros para passeios turísticos. O problema é que o único burro que tinha era o “Tobias”, um animal já na reforma, que só se mexia quando lhe apetecia. Num dia de grande afluência, Pilinhas decidiu modernizar a coisa e, em vez de andar a pé a puxar o Tobias, amarrou-lhe um motor de corta-relvas na anca, para dar mais andamento. O resultado? A primeira e última corrida de burros motorizados da aldeia, que terminou com o Tobias em fuga e Pilinhas pendurado numa figueira, a gritar promessas de nunca mais misturar mecânica com asininos.

Mas nada disto o deteve. Na festa de Santo Antão, inscreveu-se no concurso de cantorias ao desafio, convencido de que era poeta. Subiu ao palco, encheu o peito e largou uma quadra que ficou para a história:

“Ó minha rica Rosinha,
Que me encantas com teu olhar,
Se eu fosse um galo jeitoso,
Ia-te  já galar!”

O problema é que a Rosinha era casada. Com o presidente da junta. E, mal acabou de cantar, já Pilinhas ia em fuga, com o marido ofendido e meia dúzia de primos à sua procura.

Por essas e por outras, a alcunha nunca mais o largou, mas ele também nunca largou a vida. Entre tropelias, gargalhadas e desgraças transformadas em anedotas, O Pilinhas seguiu sempre adiante, pronto para a próxima festa… e a próxima fuga.

E ainda hoje, se forem à aldeia e perguntarem por ele, alguém há de dizer, entre dois tragos de tinto:

— Ah, o Pilinhas? Esse nunca morre! Vai ter que se  reformar primeiro!

Depois da fuga da figueira e do episódio do burro-motor, Pilinhas jurou que ia assentar. Prometeu à madrinha, à prima Marília e até ao abade da freguesia que ia ser um homem sério. Mas como se diz na aldeia, “promessa de Pilinhas vale tanto como um guarda-chuva sem pano: só atrapalha e não serve para nada.”

Logo na semana seguinte, decidiu entrar na feira de gado com um plano infalível: comprar uma cabra para fazer negócio de leite e queijo. Só que Pilinhas, que nunca foi homem de ir pelos caminhos normais, quis inovar. Em vez de comprar uma cabra qualquer, meteu na cabeça que ia arranjar uma cabra “exótica”. E foi assim que apareceu na feira com um bicho que mais parecia uma fusão entre um cão e um extraterrestre.

— Ó Pilinhas, que diabo de animal é esse? — perguntou o Zé da Eira, já de copo na mão.

— Isto, meus senhores, é uma cabra angolana importada!  Dá leite tão bom que o queijo é de comer e chorar por mais! Mas dá muito trabalho a ordenhar, porque o cabrão dela é muito ciumento!— respondeu Pilinhas, cheio de confiança.

Só depois de muito debater e já com meia feira a rir, é que alguém lhe explicou que o bicho era um veado pequeno que tinha fugido do parque natural ali perto. E, não foi surpresa para ninguém, Pilinhas saiu da feira em grande correria.  Lá foi Pilinhas, mais uma vez, a bater com os calcanhares nos fundilhos, desta vez com dois guardas-florestais no seu encalço.

 

O Negócio das Bifanas

Depois desse desaire animal, Pilinhas virou-se para a gastronomia. Pegou num grelhador ferrugento, ainda pensou num moderno “air fryer” mas a carteira não dava para tanto, instalou-se no arraial de Nossa Senhora das Dores e anunciou, com pompa e circunstância:

— Hoje temos as melhores bifanas da região! Baratas e com sabor inesquecível!

E de facto, eram inesquecíveis. Sobretudo porque, a meio da noite, descobriram que a carne das bifanas era… frango desfiado misturado com vinho tinto. Nem um chefe Michelin se atreveria a tamanha inovação “gourmet”!

— Ó Pilinhas, mas isto sabe a quê? — perguntavam os clientes desconfiados.

— Segredo de família! Receita especial!  O segredo está no cofre ao lado do dos Pasteis de Belém, bem guardado. — respondia ele, empurrando copos de três para acalmar os protestos.

O problema é que a D. Ermelinda, a cozinheira oficial da festa, decidiu provar uma bifana. E quando percebeu a fraude, agarrou numa colher de pau na mão esquerda e um rolo da massa na mão direita e desatou a correr atrás dele. Pilinhas, que já tinha experiência em fugas, saltou para dentro do carro de choque do primo Manel e dali só saiu quando a Ermelinda se cansou e pediu um copo de água para acalmar. Copos de água não havia. Teve que emborcar três cominhos de aguardente!

 

O Pilinhas e as Tropelias da Vida

O dia em que Pilinhas virou médico

Toda a aldeia sabia que o Pilinhas era homem de recursos, mas até ele tinha os seus limites. O problema é que, certa vez, numa noite de farra, meteu na cabeça que sabia curar pessoas, qual Messias, qual memória bíblica! 

Foi assim que, ao ver o velho Ti Zé queixar-se de dor na perna, decidiu aplicar os seus dotes médicos:

— Isso resolve-se já, compadre! É só aplicar um método infalível: choque térmico!

Dito e feito, enfiou a perna do homem num balde de água a ferver e depois meteu gelo. O grito ouviu-se até à freguesia vizinha e, no dia seguinte, Pilinhas era procurado… mas não por doentes, e sim pelo genro do Ti Zé, que prometeu dar-lhe um choque térmico na cara, de mão aberta e  outro nas partes baixas de punho fechado.

— Eu só quis ajudar!, desculpava-se o Pilinhas, enquanto fugia pelo quintal da Ti Laurinda, saltando por cima das galinhas que esvoaçavam e largavam penas por todo o lado.

 

O Pilinhas e a Feira do Gado

Numa tentativa de fazer dinheiro fácil, Pilinhas decidiu armar-se em negociante e foi à feira do gado tentar vender um burro que nem sequer era dele. Apresentou o animal como um puro-sangue, animal criado na cutelaria nacional, vejam só!

 “Lusitano rural de montanha”. Quando um forasteiro lhe perguntou quantos anos tinha o bicho, Pilinhas, sem saber, respondeu:

— Isto não é um burro, meu caro… é um jovem cavalo disfarçado de burro. Este animal, onde o vê, é um anti-vedeta!

Uma raridade!

O negócio ia correndo bem, até que o verdadeiro dono do burro apareceu e o Pilinhas, mais uma vez, teve de recorrer à sua especialidade: a fuga sempre em frente, a antecipar a arte mais tarde revelada e utilizada por muitos políticos. 

Conta-se que só parou quando chegou a casa da Ti Arminda, onde se escondeu uma vez mais num galinheiro até o perigo passar.

O dia em que tentou caçar um javali

Animado com a ideia de se tornar caçador, Pilinhas decidiu juntar-se a um grupo de veteranos da caça. Equipou-se com tudo o que achava necessário: botas de borracha, um chapéu de palha e um saco cheio de rojões para o almoço.

Quando chegou a hora de enfrentar um javali, Pilinhas, sem arma e sem plano, resolveu que a melhor defesa seria o “ataque surpresa”. Armado de coragem (e parvoíce), saltou de trás de uma árvore e atirou-se ao bicho de braços abertos, convencido de que conseguia agarrá-lo e imobiliza-lo.

O que se seguiu foi uma cena digna de um filme de rodeios do “Far West”: o javali, indignado, virou-se e deu-lhe um “chega para lá” que o mandou a rebolar por uma encosta abaixo. Só parou quando bateu contra uma vaca, que, coitada, também não estava à espera daquilo e o aterrorizou com muitos “Muuus”, sucessivos. Pilinhas sobreviveu, mas ganhou o direito à patente de um novo ditado popular:

— Mais tonto que o Pilinhas em dia de caça!

 

O Pilinhas e a procissão do Senhor dos Aflitos

Mas nenhuma história supera o dia em que Pilinhas foi escolhido para carregar o andor na procissão do Senhor dos Aflitos. O problema é que, antes da procissão, tinha passado pela taberna para “hidratar a garganta”.

O resultado? A meio do percurso, num momento solene, desequilibrou-se, tropeçou num degrau e largou o andor. O santo foi parar no colo da Dona Ermelinda, que, com o susto, desmaiou e foi levada ao hospital.

A aldeia nunca mais viu uma procissão igual, e até hoje há quem diga que, naquele dia, foi mesmo o Senhor dos Aflitos quem mais sofreu.

Por fim, convirá deixar escrito: as histórias e aventuras do Pilinhas são estas e muitas mais.

Mas, quanto à pilinha do Pilinhas, que se saiba, nunca se contaram histórias, nem grandes nem pequenas, é de crer que se algo houvesse, seria tudo muito normal!

Que viva o bom humor!

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