Começo esta Carta, com um ‘à parte’, devido à guerra comercial sem limites que o tio trumpa começou quarta feira passada. No discurso feito nos jardins da casa onde tem quarto, cheio de atitudes a mostrar uma ignorância tremenda, ou mesmo cegueira, tanto dele como de quem o assessora, até por ele ter referido depreciativamente –a nação africana do Lesoto, da qual nunca ninguém ouviu falar, dizia o repórter– e, talvez por isso, foi atingida com tarifas de 50%.
A surpresa maior foi a lista de países incluídos no anexo das ‘tarifas recíprocas’, por incluir ilhas e pequenos territórios que nem fazem comércio com os states, como a Ilha Heard e as Ilhas McDonald, território externo e desabitado da Austrália, encostado à Antárctida. Ali só há vegetação rasteira e dispersa, insectos, aves marinhas, pinguins e focas. A partir de agora, serão talvez as focas (pelo ar sério e inteligente), as encarregadas de fazer o pagamento das tarifas de 10% aos produtos americanos, para ali exportados (?).
Será que esta frase de José Saramago, tirada da obra ‘Ensaio sobre a cegueira’, ajudará a explicar as atitudes deste ‘mandador trumpolineiro’?
‘Por que foi que cegámos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, queres que te diga o que penso, penso que não cegámos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem’.
Esta frase de Saramago naquele livro, é a explicação possível e necessária para um mundo em que a cegueira atingiu todos, e poupou apenas a mulher do médico, em volta da qual se tenta organizar a vida, pois ‘organizar-se também é, de algum modo, começar a ver’; de qualquer maneira é uma obra fabulosa sobre o amor, a solidariedade e a ética.
Agora, estes são termos que a sociedade parece ter esquecido, ou trocado por outros mais actuais como tarifas, aumentos, negócios, territórios para anexar ou conquistar, armamentos, zonas de influência militar e afins, cabeleiras penteadas e outras não, caras de mau e moto-serras, likes e ‘Inteligência Artificial’ para compra de votos ou eleições, com intervalos programados para não se perderem os jogos mais importantes dos campeonatos com maior audiência.
Também perderam importância as Agências para a Cultura, Ciência, Assistência e Desenvolvimento Internacional, os problemas da alteração climática, as crescidas dos mares, as secas e as enormes carreiras de refugiados e banidos por tudo isso, além das guerras mais caras ou mais baratas de que ninguém quer saber, intoxicados que estão pelo poder, e com este já atravancado pelo orgulho ou pela arrogância.
Todo um conjunto de problemas provocados pela importância das palavras, que normalmente forjam realidades que não passam de invenções, usadas pela capacidade de seduzir ingénuos ou incultos, apoiadas pelos lugares que ocupam os donos delas, mais os dos ‘servidores’ que sempre têm em volta, por sempre também, poderem abocanhar um pedaço do que cair da mesa.
É essa a natureza do populismo, que as técnicas e tecnologias contemporâneas, servem na perfeição, pois tais ‘servidores’ também são donos das plataformas, terrestres ou não, sem qualquer controlo ético e rigoroso que impeça o triunfo das notícias falsas ou da pós-verdade. Mas alguém disse um dia, já nem lembro quem, ‘O problema não está no comércio, o problema é o capital!’
Jesús Maestro é catedrático em Literatura e Filosofia, com canal próprio no Youtube, proporcionou-me, há uns dias, uma sentença de até poder juntar a esta última e àquela outra inicial de Saramago; referia a pandemia de cegueira ou entretenimento digital, que nos poderia arrastar para um período de obscurantismo, bem diferente da nova era das luzes, que Musk e afins nos querem vender; e disse mais Maestro, ‘Estamos é numa nova Idade Média! O século XXI apresenta umas características muito semelhante ao mundo medieval, sem dúvida alguma!’
Tecnofeudalismo? Leitura e cultura ou ecrãs e cegueira digital e real? Por onde andará a mulher do médico?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor