Comentadores da Ordem: Direita, Direitinha e Direitóide na Televisão do Regime
por Carlos Pereira Martins
Ligamos a televisão e lá estão eles, como um relógio maldito: tic-tac de opiniões previsíveis. São os senhores e senhoras da sabedoria instantânea — do IRS à guerra na Ucrânia, do preço da cebola à vida dos outros, sabem e comentam tudo e mais qualquer coisinha, se preciso for. São os comentadores da nossa triste praça. E atenção: não é numa estação, é em todas! Onde o comentário imparcial foi de férias… e perdeu o voo de regresso.
Vamos por partes, como dizia o carniceiro de Whitechapel.
Não desrespeito as pessoas de quem falo, apenas dou a minha opinião que é legítima e livre, com todos os defeitos e contradições que possam justificar o desacordo de outros. Como pessoas, respeito-os. Em relação ao que dizem, onde pretendem chegar e ao que se prestam para alcançar esses objectivos, no geral, repudio muito.
António Costa — o comentador, não o outro, evidentemente. O da CNN, claro.
Tem aquele ar sereno, sábio, talvez até eclesiástico, mas o sermão é sempre o mesmo: se a coisa é de esquerda, ai que horror, que escândalo, que irresponsabilidade! Com a sua sabedoria económica muito abrangente e sempre com evidência científica, o diagnóstico é claro e rápido: vai tudo falir, se não é mesmo que já tudo faliu antes, com o governo “das esquerdas”! Se é da direita? Nesse caso, recomenda : “Temos de compreender o contexto…”. Joga com a velha táctica do “não sou de direita, mas também não sou estúpido”, e lá vai empurrando o país para o lado onde se sente mais em casa: o da cartilha liberal. Mas, para quem o ouve e vê com olhos de ver, pode ser um gato muito bem escondido, mas tem um enorme rabo de fora!
Depois temos o trio maravilha das opiniões em regime brunch: Mafalda Anjos, Margarida Davim e a Maria, não a João Avillez. Um verdadeiro “centrão gourmet”. Opinam como quem serve “finger tips food” em recepção diplomática: bem apresentadas, delicadas, mas sempre insípidas. A objectividade? Sim, mas só se não estragar a maquilhagem ideológica. São a direita que se diz centro — porque, claro, é mais chique. Justiça, no entanto se faça, procuram ser objectivas e rejeitam qualquer tentação ou ensaio populista, merecem por isso, palmas!
Anabela Neves, essa relíquia do Parlamento com microfone. Está sempre lá. Desde que há televisão a cores. Não se impressiona com nada, nem com escândalos em directo. Encolhe os ombros e diz: “A política é mesmo assim.” E nós, tolinhos, achamos que ela viu o futuro. Viu foi demasiado passado.
A cereja no topo deste bolo rançoso é João Marcelino. O artista do “não acuso, mas deixo no ar”.
Basta uma pergunta feita com ar de capelão desconfiado: “De onde vem o dinheiro?” E zás: reputações rasgadas sem uma prova, sem um recibo. É o mestre do “eu não disse que sim, mas também não digo que não”. Um perigo com gravata e muito convencido do seu papel. De embrulho, será.
António Costa Pinto vem logo depois. O politólogo com pose de eurocrata de segunda classe. Consegue transformar o óbvio em tratado académico, desde que não belisque o sistema. Revoluções? Só se forem silenciosas, inofensivas e aprovadas por Bruxelas com selo dourado.
E depois, claro, Vítor Gonçalves. Aquele que quer muito ser o gentleman do comentário, mas tropeça sempre na pronúncia de ruralidade, como diz quem mais manda, com pretensões a furão erudito e importante. A pronuncia e o vocabulário desajeitado como “Enfrantar”, “Prencípio”, “Conteção”, “Encêndio”, … um desfile de barbaridades fonéticas ditas com o ar sério de quem está a citar Churchill. E, ademais, um verdadeiro florista do comentário político — só que as flores cheiram a mofo e o arranjo é sempre para oferecer de mão beijada à direita.
José Rodrigues dos Santos, esse… ah, o profeta do Telejornal. Fala como se estivesse sempre a anunciar o Apocalipse, com um ar de quem tem acesso ao código secreto da verdade absoluta. A imparcialidade é só para quando lhe dá jeito, e se a realidade não encaixa nas suas convicções, muda o plano de câmara e repete a pergunta, vezes sem conta, até o entrevistado se render. Um verdadeiro cavaleiro do Apocalipse mediático. Se o erro, a notícia escandalosa, a estatística menos favorável vem ou dizem que pode ser colada à esquerda, o personagem aponta de dedo em riste como quem diz e acentua que é muito grave. O “eu não disse?!”, ou o “Vêem? Não se esqueçam disto na hora de escolher!”.
Ana Lourenço tenta ser a última bastião da dignidade. Mas por mais calma que tenha, por mais “equilíbrio” que exiba, lá lhe foge o pé para o paternalismo. Aquela voz serena que nos diz: “Calma, que os adultos estão a falar”. O problema é que já ninguém acredita nos adultos.
Tem o tom de serenidade, o ar de imparcialidade bem tentado procurando a objectividade e o rigor jornalístico, mas como quem nos diz: “tenham calma, deixem lá ver no que isto vai dar!”. E o telespectador abana a cabeça, hipnotizado, como se estivesse a ver uma missa laica. Falta padre naquela missa, mas pode ser Realidade Virtual.
Patrícia Machado é a jovem promessa rígida e ácida que a RTP ou, mais precisamente, alguém de lá, decidiu pôr a reluzir. A pronuncia rural é tal qual a do seu mestre Vítor Gonçalves a ponto de nos ficar a dúvida se terão crescido juntos. Mas a acidez e rigidez do rosto dela não engana: o guião é o mesmo. Procura aparecer bem-penteada, bem-postinha, sem que o consiga na maioria das aparições, mas com o pensamento político alinhado como um briefing de manhã de segunda-feira nos corredores mais à direita do mundo jornalístico. Dá gosto ver, se se gostar de televisão com cheiro a gabinete, a confusão e bafio.
Parece saída de um colégio interno onde se ensina “como dizer que a esquerda é o caos com palavras difíceis”.
João Adelino Faria é aquele âncora que parece sempre estar num velório de ideias. O tom é cerimonioso, a moderação metódica, mas o jogo está viciado: as perguntas difíceis vão sempre para os suspeitos do costume. Já os outros, os do lado certo do hemiciclo, esses são tratados com luvas de pelica. O pluralismo, ali, é uma palavra em latim.
Rodrigues Guedes de Carvalho é o caso do jornalista com boa escrita, mas com uma bússola ideológica que aponta quase sempre para a direita soft, educada e moderada. Valha-nos isso! Com ele, o comentário social é uma arte, desde que não se vá muito ao fundo das desigualdades. Tudo muito “humanista”, mas sempre dentro dos limites daquilo que não incomoda.
Nuno Rogeiro é o nosso general de sofá. Especialista em geopolítica, fala do Médio Oriente como quem comenta o campeonato nacional de futebol. Está tão à direita que às vezes parece que vai invocar Reagan em latim. Se a NATO disser “saltem”, ele já está no ar. Se disserem “pensem”, Rogeiro revê os apontamentos da Guerra Fria.
Clara de Sousa, senhora de si, é a personificação da televisão bem penteada. Mas a contenção do tom não disfarça a previsibilidade das escolhas editoriais. Ela até faz perguntas incisivas — mas só quando não beliscam os poderes instalados. A neutralidade é uma pose de estúdio.
Hernâni Carvalho é o justiceiro das tardes. Fala de tudo com a autoridade de quem já viu demais e não acredita em ninguém — excepto nos seus próprios instintos, que por acaso coincidem muitas vezes com os preconceitos da direita popular. É o tipo de comentador que confunde indignação com análise e consegue transformar cada tema numa espécie de “crime de lesa-pátria”.
E claro, Francisco Penim. Aquele que deu cor à programação e hoje comenta como se a televisão fosse um pátio onde se faz política ao ritmo do zapping. Gosta de parecer independente, mas no fim da linha, o discurso dança ao som do mesmo fado liberal. A sua crítica ao sistema é, quase sempre, uma crítica a quem tenta mudá-lo.
Por fim, Patrícia Carvalho, da televisão do sangue, que fala com uma assertividade que faz tremer cafés inteiros. Parece saída de uma redacção de combate, pronta para denunciar tudo — excepto as estruturas que realmente mandam. Na dúvida, bate-se na esquerda e no sistema judicial. E ficamos todos a saber menos do que sabíamos.
Resumindo: a televisão em Portugal é um verdadeiro parque temático da direita bem vestida. Com ou sem gravata, com ou sem diploma de “centrismo”. O pluralismo é só um adereço de estúdio — como aqueles livros nas estantes atrás dos entrevistados: bonitos, mas nunca lidos porque apenas lhes imprimiram as lombadas.
E o povo, coitado, ainda acredita que está a ser informado.
Bem-aventurados os tontos, que deles será, um dia, o reino televisivo.
Conteúdos de TV Portuguesa é estrume copiado Fox.
Os protagonistas social perfumados cheiram abertamente mal, Espanta-me ouvir persistentemente alguns dos que dizem “obrigado pelo convite” não vomitarem naquelas personagens a quem lhes concedeu o diploma de obstipação cerebral
Para manter a minha sanidade psicológica em bom estado já deixei de ouvir esses e mais alguns que não são mencionados, desde que apareceu a Pandemia que deixei de ouvir os sabetudologos até parece que estudaram todos a mesma cartilha.
Conteúdos de TV Portuguesa é estrume copiado Fox.
Os protagonistas social perfumados cheiram abertamente mal, Espanta-me ouvir persistentemente alguns dos que dizem “obrigado pelo convite” não vomitarem naquelas personagens a quem lhes concedeu o diploma de obstipação cerebral
Para manter a minha sanidade psicológica em bom estado já deixei de ouvir esses e mais alguns que não são mencionados, desde que apareceu a Pandemia que deixei de ouvir os sabetudologos até parece que estudaram todos a mesma cartilha.