ROSTOS ANIMADOS – por Eva Cruz

ROSTOS ANIMADOS

por Eva Cruz

Bertolt Brecht é um dramaturgo e poeta alemão do século XX da ex-RDA. É conhecido como revolucionário das técnicas de encenação. O teatro Brechtiano teve uma enorme influência na concepção do conhecido “teatro épico”, sobretudo, como disse atrás, na importância da encenação. Foi, além disso, revolucionário, porque pôs o texto ao serviço da consciencialização e politização no sentido da transformação do Homem. Brecht foi também poeta, o conhecido poeta do socialismo e da simplicidade. A sua poesia é de altíssima qualidade literária, desafia convenções poéticas e explora magistralmente  temas sociais e políticos. A sua linguagem é muito simples, directa e objectiva, e a sua poesia revela um espírito pacifista e antimilitarista, denunciando abertamente a inumanidade das guerras. Dentro da sua obra dramática destaco duas peças: “Mãe Coragem e Seus Filhos” (Mutter Courage und ihre Kinder) e o “Círculo de Giz Caucasiano” (Der Kaukasische Kreidekreis) que tive a sorte de ver representadas, e muito bem, há largos anos, no Teatro Aberto, em Lisboa. Quanto aos seus poemas, refiro dois muito conhecidos: “Perguntas de um Operário Letrado”(Fragen eines lesenden Arbeiters) mais conhecido por “Quem construiu Tebas, a das sete portas?” e “Prazeres” ( Vergnügungen). Tudo isto para chegar a este último poema, onde Brecht, entre prazeres como “O velho livro encontrado, O jornal, A dialéctica, Música nova, Sapatos cómodos, refere também “Ser amável” e “Rostos animados”.

Ontem logo pela manhã, tive essa sensação de prazer no encontro com rostos animados e gestos amáveis. Fui a uma loja de chocolate aqui na cidade comprar uns chocolatinhos de leite, que sempre tenho em casa para mimar quem me visita. Além da sempre sorridente e delicada garçonete da loja de chocolate, encontrei lá seu filho mais novo, a quem a vida pregou uma peça do ponto de vista da saúde, mas que a sorte, a coragem e a força derrotaram completamente. No lindo rosto trigueiro do jovem rapaz rasgou-se um sorriso branco e límpido, de plena saudação e alegria ao me ver. Quando me vinha embora com os meus chocolates, reparei que havia sobre o balcão umas latinhas muito pequeninas em forma de coração, pintadas com motivos florais e outros, e que dentro continham um só bombom. Achei lindas e comentei, dizendo que seriam uma bela oferta para presentear uma amiga, mas que no momento não tinha para quem. Fui espontaneamente interpelada pelo rapazinho: “Se não tem a quem, ofereço-lhe eu uma a si”. E depositou na minha mão uma latinha rosa com um coraçãozinho vermelho. Comovida, dei-lhe um beijo de agradecimento e saí da loja com o coração cheio. Então me lembrei de Brecht e das palavras de seu poema. É realmente um prazer para o dia inteiro encontrar gestos gentis e rostos animados logo pela manhã.

 

 

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