Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Na cidade de Anchorage (Alasca): começou o degelo EUA-Rússia
Publicado por
em 16 de Agosto de 2025 (original aqui)
Em Anchorage, não foi apenas um encontro entre Trump e Putin, que certamente foi o momento mais simbólico, mas entre a Rússia e a América. De facto, juntamente com Putin desembarcaram o Ministro dos Negócios Estrangeios Sergej Lavrov, o CEO do fundo soberano russo Kirill Dmitriev, o conselheiro de Putin Jurij Usakov, o Ministro da Defesa Andrei Belousov e Ministro das Finanças Anton Siluanov.
Para recebê-los estavam, além de Trump, o Secretário de Estado Marco Rubio, o enviado de Trump Steve Witkoff, o Secretário do Comércio Howard Lutnick, o Secretário do Tesouro Scott Bessent, o Secretário de Defesa Pete Hegseth, director da CIA John Ratcliffe.
Se tivermos isso em mente, compreende-se que a Cimeira tinha um âmbito muito mais amplo do que o conflito ucraniano, um tema que, no entanto, era necessário, e estava dirigida, mais do que a encerrar imediatamente o que parece impossível sem um milagre, a restaurar as relações entre as duas potências, que haviam colapsado definitivamente a partir de 2022.
Usámos o advérbio definitivamente porque as relações entre Moscovo e Washington não se romperam no início da guerra na Ucrânia, mas sim antes da invasão russa. Quebradas pelo golpe de Maidan, que despoletou a primeira e a segunda guerras ucranianas, essas relações afundaram-se em resultado de duas esmagadoras campanhas de política mediática: o russiagate [1] e o ucraniagate [2].
Escândalos criados artisticamente pelo establishment dos EUA [nota de editor: leia-se, principalmente pelo partido Democrata] para impedir que Trump tentasse reconstruir as relações danificadas pela criticidade da situação na Ucrânia, e que cortaram as pontes entre as duas potências, e depois incineradas definitivamente em 2022.
É importante esta cronologia histórica para entender como a conflitualidade EUA-Rússia não decorre do conflito em curso [na Ucrânia], que apenas o exacerbou, e que, consequentemente, a restauração das relações entre os dois países, está para além deste conflito.
Um processo longo e não linear, devido aos fortes ventos de contraste, que pode ser amaciado pelas trocas comerciais, daí a importância da presença em Anchorage dos Ministros a quem as duas potências confiaram essas responsabilidades.
Daí também a importância da menção de Putin, na conferência de imprensa, aos vários contactos telefónicos com o seu homólogo americano e para as repetidas visitas de Witkoff a Moscovo, bem como a conclusão da intervenção de Trump, na qual anunciou que os contactos continuariam e que os dois presidentes voltariam a encontrar-se e “em breve”.
Menção deu vida a um pequeno teatro – presumivelmente preparado – com Putin convidando-o publicamente a Moscovo e Trump para responder “interessante”, acrescentando que “ele teria pensado nisso” (fala-se desde há dias de uma visita de Trump a Moscovo, mas continua difícil).
É provável que, se os dois conseguirem reunir-se em breve, seja também para anunciar algum acordo sobre o controlo das ogivas nucleares, considerando que o New START, o único acordo que resta em vigor dos vários tratados sobre o assunto, expirará no início de fevereiro.
Estamos certos de que a questão crítica foi abordada em Anchorage, uma vez que Putin, antes da reunião, havia sugerido a necessidade de chegar a “acordos no domínio do controlo de armas ofensivas estratégicas”.
Mas estamos ainda nos primeiros passos de um processo complexo, que deve necessariamente incluir a China e, provavelmente, também outros países equipados com ogivas atómicas (por exemplo, a França e a Grã-Bretanha).
Conseguir restabelecer esse controlo teria também um elevado significado simbólico, o de afastar para além do horizonte de acontecimentos a perspectiva de uma guerra termonuclear global, que nos últimos anos os proponentes de guerras intermináveis alimentaram com uma clara loucura, em particular com a estratégia de escalada controlada implantada na Ucrânia.
Quanto ao conflito ucraniano, Trump disse ter chegado a acordos com os russos, sem especificar quais, acrescentando que as distâncias permanecem, embora superáveis, em dois pontos. Nenhum anúncio de cessar-fogo, por outro lado, não era possível sem um acordo com a Ucrânia.
Mas se a grande imprensa bate nesta ausência [de cessar-fogo] é apenas para enfraquecer o âmbito da cimeira, para sancionar o seu fracasso e acusar Trump de ter sucumbido a Putin. Uma tentativa banal, tão previsível, de apagar a cimeira do calendário da história.
Imediatamente após a Cimeira, Trump iniciou o árduo diálogo com Zelensky e os líderes europeus, e estranhamente também com a NATO (agora um sujeito político e não mais um órgão de defesa: uma distorção perversa), numa tentativa de iniciar o processo de paz.
Vai ser difícil, também porque agora os países europeus estão ligados à belicosa carruagem neoconservadora, da qual também Putin teme uma provável sabotagem, mas era necessário começar esse trabalho de tentativa.
As dificuldades são agravadas pelo facto de a guerra ucraniana ser mundial, dada a participação global. Além disso, neste sentido, foram explícitas as repetidas referências de Putin à colaboração entre a Rússia e os Estados Unidos na época da Segunda Guerra Mundial.
Resta saber que os desenvolvimentos no teatro de guerra são inevitáveis e devem ajudar os defensores do conflito a todo o custo a compreender que é melhor uma paz que possa ser revendida como uma derrota de Putin – a quem teria sido impedido tomar Kiev – do que uma derrota estratégica, cada vez mais iminente.
À margem, um momento muito significativo da reunião foi quando, ao saudar o seu homólogo que o esperava ao pé do avião, Putin disse estar satisfeito por vê-lo “vivo”. Uma menção que destaca o contraste que Trump enfrenta na sua tentativa, com um sopro de época, de reorientar a geopolítica americana, que tem, de facto, uma perspectiva global.
Não é por acaso que, logo após Anchorage, Trump declarou que Xi lhe havia “prometido que não invadirá Taiwan”. Para a paz mundial é necessário um novo acordo Yalta e, portanto, a China também.
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Notas
[1] N.T. O “russiagate” é uma famigerada alegação dos principais meios de comunicação dos EUA, que durou todo o primeiro mandato de Trump, segundo a qual “os russos” haviam interferido nas eleições presidenciais de 2016 que resultaram na eleição de Trump e na derrota de Hillary Clinton., Em Janeiro de 2023 o jornalista Jeff Gerth apresentou um trabalho de investigação onde expôs toda a cumplicidade totalmente cobarde dos meios de comunicação social americanos na fabricação a partir do nada de todo o tipo de coisas absurdas sobre o conluio de Donald Trump com a Rússia quando concorria contra Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2016. Sobre este famigerado caso publicámos na Viagem dos Argonautas três esclarecedores artigos: em 10 de Janeiro de 2023, em 10 de Fevereiro de 2023 e em 3 de Março de 2023.
[2] N.T. Sobre o “ucraniagate” ver Trump fue absuelto por el Ucraniagate publicado por Página 12 em 6 de Fevereiro de 2020.
O autor: Davide Malacaria, jornalista italiano e blogger, escreveu no católico “30giorni” e dirige o sítio Piccole Note de que é fundador. “Trabalhava numa revista, mas já não trabalho. Mas a vontade de olhar para os jornais continuou a ser a de captar lampejos de inteligência e de conforto sobre os assuntos do mundo e da Igreja. E de as comunicar aos outros. Daí a ideia deste pequeno sítio. Uma coisa pobre, sem pretensões, que espero que seja de alguma utilidade para aqueles que partilharem estas páginas comigo. Com o passar do tempo, Piccole note enriqueceu-se com colaborações queridas. Não como resultado de uma procura laboriosa, mas através de uma feliz acumulação espontânea. Uma riqueza para o sítio, mas muito mais para os nossos pobres corações.”



