Espuma dos dias — Ucrânia: a guerra dos neoconservadores. Por Davide Malacaria

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

Ucrânia: a guerra dos neoconservadores

 Por Davide Malacaria

Publicado por  em 21 de Agosto de 2025 (original aqui)

 

 

A guerra ucraniana estava “a caminho da Terceira Guerra Mundial… você não precisa de se preocupar mais com isso”. Dizia então Donald Trump numa entrevista. Afinal como referimos em artigo anterior, o encontro de Anchorage com Putin servia essencialmente este propósito.

Na reconstrução de Trump há um erro, uma vez que a guerra ucraniana é ela própria “a Terceira Guerra Mundial”, dadas as nações que entraram em campo contra a Rússia; mas é legítimo que ele afirme tê-la impedido de se tornar termonuclear, uma perspectiva inerente à insana escalada controlada implantada pela administração Biden e interrompida pela nova (lembre-se, por exemplo, da loucura de atacar bombardeiros estratégicos russos encarregados da dissuasão atómica).

Dito isto, resta saber se o conflito terminará. Tanta pressão para mantê-lo aberto e sobre Trump para se retirar das suas posições. Ontem, soube-se da [o]posição firme da Rússia sobre a implantação de uma força de interposição europeia na Ucrânia após um possível acordo.

Uma opção que está a tornar-se cada vez mais popular, como evidenciado pela cimeira dos Chefes de Estado-Maior dos países DA NATO realizada ontem, que manifestaram o seu apoio à “coligação dos voluntários” relativamente às negociações em curso e disseram que estão unidos na busca de uma “paz justa“.

Tanta ambiguidade nestas declarações, já que a “coligação dos voluntários” tenta activamente sabotar as negociações inserindo variáveis que, de facto, servem para rebentar a mesa porque inaceitáveis pela outra parte e que a busca de uma “paz justa” é uma palavra de ordem usada para prolongar a guerra, uma vez que a aparente tensão para uma paz ideal – de facto de acordo com os seus desejos – serve para frustrar qualquer tentativa de encontrar compromissos mais ou menos aceitáveis para as partes (onde o espaço disso é mais ou menos bastante amplo).

Por outro lado, o conflito ucraniano, que no teatro de guerra é um confronto entre o Ocidente e a Rússia, a nível cultural, se assim podemos dizer, é também um confronto entre idealismo e realidade, com o Ocidente a ser vítima das charlatanices dos neoconservadores segundo os quais a realidade não tem consistência em si mesma, é apenas algo a moldar através do exercício do poder.

Quando a realidade com que estavam a lidar era o Iraque ou a Líbia, esta afirmação teve o seu peso, embora nem tudo tenha corrido de acordo com os seus planos, mas agora que essas charlatanices entraram em confronto com o muro russo, esta presunção mostra o seu esgotamento.

E, no entanto, obsessivamente ligados ao seu idealismo, que não lhes permite tomar nota da realidade, continuam inabaláveis no seu refrão, na certeza excruciante de que, mais cedo ou mais tarde, terão razão quanto à teimosa realidade.

Não mencionámos os neoconservadores americanos ao acaso, uma vez que a guerra ucraniana é a guerra deles. Preparada em 2014 graças ao golpe de Maidan, do qual o arquiteto público foi a neoconservadora Victoria Nuland, casada com Robert Kagan, farol indiscutível dos neoconservadores e redator do projeto Por Um Novo Século Americano.

O seu irmão, o analista militar Frederick Kagan, é casado com Kimberl K Kagan, por sua vez diretora do instituto Study of War, grupo de reflexão que moldou a narrativa Ocidental sobre o conflito ucraniano graças a uma análise precisa, tanto quanto tendenciosa, à qual aderiram dogmaticamente todos os principais meios de comunicação dos EUA e, em cascata, os das colónias europeias.

Até a expressão “coligação dos voluntários” de que se gabam os líderes europeus é criada pelos neoconservadores, tendo nascido na altura para identificar a aliança que deu origem à invasão do Iraque para eliminar a ameaça das inexistentes armas de destruição massiva de Saddam.

Até mesmo a recriação em chave ucraniana desta denominação não é farinha do lote de líderes da UE, sendo uma proposta apresentada pelo ex-chefe da CIA, o neoconservador David Petreaus. Assim, a escolha de aceitar esta definição por parte dos arrogantes voluntários não é apenas uma escolha de campo, mas também uma declaração pública de sujeição.

Mesmo a decisão de colocar obstáculos no caminho do impulso diplomático de Trump – indirecta, é claro, porque eles não têm força – não nasce deles, mas é feita pelos neoconservadores. Isso é evidenciado pelas ferozes acusações de Brett Stephens [1] contra Trump e o seu impulso diplomático publicado pelo New York Times, cujo título diz tudo: “Trump acabou de me lembrar por que eu ainda sou um neoconservador”.

No artigo, pode ver-se o mix de idealismo e de agressão irredutível própria dos adeptos do movimento neoconservador, irrevogavelmente entregue ao unilateralismo dos EUA. As conclusões são óbvias, nas quais se exorta “uma firme oposição a Putin através de sanções, ostracismo e apoio militar e económico à Ucrânia”, etc… receita usual das guerras sem fim.

Escolhemos Stephens para destacar a inflexível oposição neoconservadora ao ímpeto diplomático de Trump, obviamente ferozmente estigmatizado no artigo, não só porque ele é um respeitado expoente do movimento, mas porque há alguns dias ele havia publicado, também no New York Times um artigo sobre uma outra guerra, com o título: “Não, Israel não está a cometer um genocídio em Gaza“.

No artigo, Stephens não apenas exonera Israel de todas as críticas, mas explica que o que está a acontecer em Gaza é próprio de todas as guerras, nada mais. O único aspecto que Stephens considera “invulgar é a forma cínica e criminosa como o Hamas escolheu conduzir a guerra” (e dizer que mesmo os mais ardentes defensores de Israel tiveram de admitir algum excesso das forças armadas de Israel…).

Este segundo artigo explica mais do que muitas palavras o sentido de paz justa para o conflito ucraniano a que aludem os neoconservadores e a subordinada “coligação dos voluntários”. E ajuda a explicar a conivência dos voluntários em relação ao genocídio em Gaza.

 

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[1] N.T. Bret Stephens é um conhecido jornalista neoconservador estado-unidense, pertencendo à oposição de centro-direita a Trump.

 

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O autor: Davide Malacaria, jornalista italiano e blogger, escreveu no católico “30giorni” e dirige o sítio Piccole Note de que é fundador. “Trabalhava numa revista, mas já não trabalho. Mas a vontade de olhar para os jornais continuou a ser a de captar lampejos de inteligência e de conforto sobre os assuntos do mundo e da Igreja. E de as comunicar aos outros. Daí a ideia deste pequeno sítio. Uma coisa pobre, sem pretensões, que espero que seja de alguma utilidade para aqueles que partilharem estas páginas comigo. Com o passar do tempo, Piccole note enriqueceu-se com colaborações queridas. Não como resultado de uma procura laboriosa, mas através de uma feliz acumulação espontânea. Uma riqueza para o sítio, mas muito mais para os nossos pobres corações.”

 

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