A Europa tão ciosa da suas rotas e caminhos que marcaram e definiram tempos históricos, a que ajuntaram mitos, lendas, feitos, ligações entre gentes e povos dos continentes e ilhas que parecem tal, que mostraram e deram a conhecer, mas também subordinou, explorou e escravizou; parece ter chegado agora ao fim desses tempos, entre a assunção e a ignorância de tais actos, lamentáveis ou não; aconteceram em tempos de que ninguém já quer saber, pois obrigam à leitura de uns calhamaços escritos por uns ‘gajos’ que não tinham nada para fazer e, se calhar, a ganhar boas reformas, com outros a trabalhar para eles.
O que está a acontecer na Ucrânia, em Gaza, no Iémen e na Somália, para escrever apenas daqueles que nos estão mais próximos, é a demonstração horrorosa do fracasso europeu e do chamado Ocidente, que dá lições sobre os direitos, mas a seguir o que afirmou o líder da ‘França Insubmissa’ que dá pelo nome Jean-Luc Mélenchon, ‘O caso palestino é antes de tudo um crime, mas também é o fracasso de toda uma época’, afirmou ao ‘Diario.es’, na passada semana.
Quer também que Macron antecipe as eleições, enquanto rejeita uma qualquer primária para designar um candidato progressista. Está convencido de que se poderá opor à extrema direita, cuja ascensão atribui à inacção da social-democracia. Não parece haver dúvidas de que a subida dessa direita extrema, que cada vez mais se vai impondo nos governos desta Europa enfastiada; exige uma reflexão profunda sobre a suas causas e propósitos, que vão desde a existência de um machismo antiquado e de pés tortos, a uma indiferença trumpista às mudanças climáticas. Talvez Mélenchon seja ‘O cavaleiro andante’ que possa reacender e recuperar, aquela empatia social para agir mais como evangelizador que como inquisidor.
Uma perspectiva observadora daquela História, também mostra como o vaivém do pêndulo eleitoral também nos diz que aquela oscilação do pêndulo entre as políticas progressistas e as conservadoras, parece normal no decurso da vida. A médio prazo (aquele que sempre conta), a maioria social acaba por votar a favor do que é apresentado como benéfico para a qualidade de vida. Por outro lado, o enfraquecimento da democracia traz consequências ruins, que muitas vezes são difíceis de reparar.
E hoje estão nas montras de todas as lojas, os cabelos loiros ou as gravatas vermelhas ‘à americana’, que muito incomodam os pacíficos, pelo seu profundo espírito antidemocrático, pela violação diária e televisionada em directo, de direitos e liberdades pessoais que até acreditávamos serem irreversíveis. Na base está o uso dos mecanismos de manipulação de massa, criados pelas grandes plataformas tecnológicas, cuja polarização extrema coloca em risco a convivência, e os valores consagrados nas constituições democráticas, sobre o direito de todos os cidadãos a uma vida digna, bem como a prioridade do interesse geral sobre o dos indivíduos.
Hoje, tudo isso se está a alargar à política europeia. As gentes já não a creditam nas grandes narrativas que costumavam mobilizar – nem religião, nem nacionalismo, nem mesmo as ideologias fortes do século XX. Só que também não apareceu ainda um novo horizonte para compartilhar, utópico ou não. O resultado é a apatia, a tal gente enfastiada e desinteressada, com o lugar ocupado por elites e funcionários tecnocratas encarregados de gerir e administrar, mesmo sem apelar a qualquer interesse por parte das gentes.
Hoje também, esta Europa parece uma Administração territorial, instalada do outro lado da praça, onde está a sede de uma instituição bancária. Ali, na praça, acontecem por vezes, manifestações com cartazes e faixas, mas é notório que essa tal Europa (Bona? Paris? Madrid? Roma? Bruxelas?) já não arrasta entusiasmos, nem origina qualquer espécie de fé cívica, que Nietzsche teria descrito como o triunfo da moralidade e da decadência do rebanho, ‘a vida administrada em vez da vida afirmada’.
Tempos, tecnologias e gentes, que me fazem lembrar o que Saramago escreveu em Maio de 2009, ‘Estamos chegando ao fim de uma civilização, sem tempo para reflexão, na qual se impôs uma espécie de descaramento, que nos convenceu de que a privacidade não existe’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor