Se bem me lembro, a senhora faria, talvez, sessenta anos.
Em casa era a patroa, andava tudo num virote se ela se zangava, até o marido, um banal chefe daquela organização que já então metia medo –sempre se ouvia falar das ‘finanças’ bem baixinho– mas nunca a mim, que ainda não tinha entrado nesse mundo ávido e avaro dos pagamentos ‘por conta’, e de outros ‘sem conta’.
Também havia por lá um filho do casal, tipo morgado, dos que deram origem a muitas páginas da literatura nacional, baixote, entroncado e vaidoso, mas que não passava nem um pouco além dos livros que os professores mandavam (só os encornava!), por ter a ambição de sair dali o mais depressa possível.
Isto tudo para dizer que a senhora era a única pessoa daquela casa que gostava de livros e de autores, com particular pendor para os contemporâneos, cujas obras a afastavam dos dramas ‘minorcas’, que se viviam e conheciam então por lá.
Um dia houve necessidade de lhe oferecer um livro, devido a uma data qualquer que a senhora iria celebrar –seria o aniversário– e fui encarregado de o comprar, por ter um bom amigo numa das livrarias da cidade.
Depois de uma conversa aturada sobre o assunto, decidi-me pela ‘Morte de um caixeiro viajante’, uma peça de teatro do norte americano Arthur Miller, mas com um texto na versão portuguesa, da autoria de José Cardoso Pires.
Até comprei um para mim, mas também levou alguns a torcer o nariz por ser um ‘livrito muito estreito’, exemplo perfeito da mentalidade usual da época –livros apenas para ornamentar e encher as prateleiras da sala. Já não me lembro de como os convenci da valia da obra, também por ter, na versão portuguesa, um texto de um autor português, um tal José Cardoso Pires, que veio depois a erguer-se como um dos marcos da escrita na nossa língua, ainda sem o tal Acordo Ortográfico.
Devo e tenho de aproveitar bem este ‘paraíso’, o dos livros, por estarem a perder importância por cá e nestes dias, bem como por não saber, se os haverá do lado de lá, pois já o ‘velhinho’ Cícero, não se cansava de afirmar ‘se tens uma biblioteca com jardim, tens tudo!’, mas no lado de lá, um jardim terá mesmo de haver!
E hoje, neste mundo ‘atrapalhado’ por autocratas desmiolados e outras questões bem mais graves, parece que só o livro nos conduz àquela outra alternativa, a da cultura –a quem é que isso serve nos tempos dos algoritmos e da IA?– onde podemos desfrutar da literatura, da música e outros bens culturais que ‘escolhem’ para e por nós, para não lembrarmos da falta dos abraços amigos, e termos até respirado ‘ar já usadodas máscaras!’, um dos ferretes que ficarão a marcar estes tempos, por muitos anos de vida que venhamos a ter.
Talvez esta atrapalhação, venha a ter os mesmos efeitos que a pandemia do século XIV, que ao acabar com o obscurantismo medieval, se transformou no sinal de partida para o Renascimento e para o Humanismo e que, agora também, nos poderá voltar a salvar como Humanidade.
Esta é apenas a modesta estória de uma senhora que então faria algumas dezenas de anos, que gostava de livros, de um com o ‘caixeiro viajante’ do Arthur Miller, e a contar ainda com um texto de José Cardoso Pires.
Recordei também, ao escrever esta Carta, aquilo que deixou escrito um dia Gustave Flaubert, ‘A recordação é a esperança do avesso. Olha-se para o fundo do poço como se olhou para o alto da torre’.
Ámen!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor