Morreu hoje o meu amigo António Oliveira, jornalista, escritor, autor no blog de As crónicas de Braga.
Não é forçado dizer meu amigo quando afirmo que não o conheci. Comungámos de muitas ideias no interior do blog, do que eu lia dele e do que ele lia de mim. Depois também do que líamos sobre cada um de nós fora do que publicávamos no blog. O primeiro contacto que tive com ele foi por interposta pessoa, pelo João Machado a quem pediu que me desse um abraço e isso teve a ver com uma crónica minha que o terá emocionado muito.
No verão de 2024 estava eu em Faro e envia-me o livro A maldição do Templário, um livro difícil de ler por causa do português antigo em que estava escrito .Comentei com ele a estrutura da obra e questionei se ele não se tinha esquecido de uma personagem, uma mulher, o que terá também acontecido uma vez a Gabriel Garcia Márquez, o ter perdido uma personagem Era assim que concebia a história com uma despedida afetuosa dessa mulher face ao viajante que iria correr mundo, a presença dela no livro terminava com a despedida. A descrição daquela época era fabulosa e não dei por perdido o meu tempo, antes pelo contrário.
Por razões de diversa ordem, disse-lhe que ler um livro, um romance, numa esplanada em Faro me levou aos meus tempos de adolescente e mais, a falta de hábito de ler em cafés levou a ter de reaprender a movimentar os braços. Brincámos à volta disto e a frase que depois me escreveu teve a sua piada: enviou-me dois livros e um email em que mais ou menos me dizia o seguinte; para que continue a treinar esses movimentos de braços vou-lhe mandar três livros, e estes foram:
- Nove contos menos, mais um
- O que resta de Deus – uma estória de desencantos
- O último ritual da sacerdotisa ou a estátua, três velhos e um garoto
Falei muito com ele, por email sobre o livro O que resta de Deus. Foi-me muito dolorosa a leitura, era um livro em parte autobiográfico sobre a guerra, sobre os traumatismos da guerra, e foi-me dolorosa porque senti que era ele que estava ali naquelas páginas muito bem escritas. Falou-me dos seus traumas de guerra, foi oficial em Angola, falou-me dos seus pesadelos ainda persistentes em torno da guerra. Disse-me que tentou tudo para ter paz, médicos, conversas com padres, etc., mas nada terá resultado. Falei-lhe de histórias de conhecidos meus a quem aconteceu o mesmo.
Falou-se em que um dia haveríamos de nos encontrar e com um almoço bem regado. Talvez, se houvesse céu e se ambos tivéssemos esse destino, talvez aí pudéssemos almoçar um almoço bem regado e nesse caso Deus não se zangaria. São muitos ses que dão em nada como é evidente para um ateu como eu.
Talvez a última conversa sobre livros que teremos tido teve a ver com um conto em que relatava o comportamento da sua personagem com um pequeno bando de pombos com que diariamente ela se cruzava e disse-lhe que na esplanada onde li o livro que falava das pombas verifiquei um pequeno bando de pombas com o mesmo comportamento que ele descrevia naquele conto: o condutor ou condutora do bando e os seguidores que cumpriam as ordens.
Nesta hora de despedida direi aos seus familiares: morreu um homem, morreu um homem que amava as letras, morreu um homem que amava a Humanidade. As suas crónicas de Braga assim o dizem e assim o respeitaremos e o conservaremos na nossa memória.
Júlio Mota
Em 18 de Janeiro de 2026


Mais um de nós que partiu, ficamos mais pobres.
A minha solidariedade e sentidos pêsames a toda a família.
Honra ao António Oliveira.
“Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”. (Saint Exupéry)