Há dias, não muitos, passou-me pelas mãos um texto que se debruçava sobre o dilema conservadores/reacionários, numa perspectiva política, com a qual me identificava. É tal a abundância de textos com que hoje somos brindados, escritos, audiovisuais, redes digitais, correio eletrónico que, lamento, lhe perdi o rasto. Ao(s) seu(s) autor(es) ou remetente(s), cujas identidades não retive, as minhas desculpas. É o tema que inspira o GDH de hoje.
É comum, na simplificação da abordagem político-ideológica, considerar a esquerda como progressista, apologista da mudança, em oposição à direita, conservadora, empenhada na manutenção do status quo (situacionista). Por vezes confunde-se, erradamente, direita e esquerda com moderação e radicalismo, quando são polos antagónicos mas em distintos eixos de coordenadas. Há esquerda radical e esquerda moderada, como há direita radical e direita moderada. É um equívoco perfilhado preferentemente na direita, desejosa de se apresentar numa postura “respeitável”, logo “moderada”, até mesmo a “direita caceteira”.
Mas nem toda a direita é conservadora. Há a que não se preocupa em manter o que está, antes pretende regressar ao passado, recuperar o que perdeu e foi ultrapassado na marcha do processo histórico. Obviamente com outros contornos, outras roupagens, outros instrumentos, mas repondo o essencial que são os interesses das minorias privilegiadas. É a opção reacionária. Reacionária porque retrógrada, contranatura e anti-histórica. Como muito bem assinala Juan Clemente Zamora no seu clássico O processo histórico (Renascença, Lisboa), «Toda a mudança é um progresso […] o relógio da história nunca marcha para trás» (91 e 314).
É, exatamente isto, uma dinâmica radical reacionária, que vem crescendo no “ocidente alargado” e ganhando força com a chegada ao poder, na hiperpotência hegemónica, de uma figura primariamente grotesca, ególatra, narcisista e exibicionista, arrogante na sua ignorância e, por isso mesmo, perigosa. Aí está o regresso ao l’État c’est moi, à impunidade de um poder prepotente, ao desprezo pelas instituições, ao executivo sobrepondo-se ao legislativo e ao judicial, ao nepotismo, ao uso da força em proveito de interesses privados e pessoais. A culminar, o regresso ao colonialismo, à imposição das suas marcas mais perversas, racismo, chauvinismo, xenofobia, exploração, apropriação de matérias-primas, diplomacia coerciva baseada na ameaça e não na negociação.
Genocídio dos palestinianos pela mão armada de Israel com o aval de Washington e a conivência europeia, ameaça de subjugação de Cuba pela fome perante a indiferença do ocidente, violações armadas do direito internacional com pretextos forjados no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão, na Venezuela, no Irão, contando com a participação cúmplice de aliados da OTAN. Eis a reposição, atualizada, dos genocídios do colonialismo cristão-europeu nas Américas e na Índia, da traição ao reino do Congo com a decapitação do seu soberano, o convertido D. António, na batalha de Ambuíla, da conquista do reino de Monomotapa e consequente captura do soberano Gungunhana seguida de deportação para os Açores, dos ultimatos à China e até a “aliados” (Portugal) quando ousavam desafiar o poder absoluto da potência hegemónica, expressão da diplomacia da canhoneira.
O discurso de 23 de fevereiro em Munique, de Marco Rubio, ressabiado descendente de emigrados cubanos e agora secretário de estado dos EUA, é a consagração deste revivalismo: o renascimento da Doutrina Monroe, “a América para os Americanos” (para os norte-americanos, entenda-se, segundo o corolário de Trump); o revivalismo laudatório da “cruzada expansionista e civilizadora” do cristianismo branco, benfeitor, paternalista, por todo o planeta; a xenofobia arrogante dos predestinados e exclusão do outro. Contou com os aplausos servis dos “pajens” aliados, confiantes de, através da bajulação de que é mestre o patético sujeito que responde pelas funções de secretário-geral da OTAN, poderem salvaguardar a Groenelândia e o Canadá da cobiça imperial. O discurso de Rubio, alto responsável de um país que foi colonizado pelos europeus, prova que a descolonização das Américas, conduzida por colonos e crioulos e não pelos naturais colonizados, se traduziu num neocolonialismo que nada teve a ver com a descolonização mais autêntica na Ásia e na África da segunda metade do século XX. São estas as que incomodam os novos pretensos colonizadores.
Em Portugal, os saudosistas do império sentem que chegou a hora de poderem gritar a sua indignação por o presidente da República Popular de Angola ter tido o atrevimento de, em discurso perante o presidente da República Portuguesa, afirmar o óbvio, isto é, que Portugal colonial tinha, durante séculos, explorado e escravizado os angolanos. E já alimentam as suas esperanças de regressarem, dominadores, às margens do Rovuma e do Cunene, ao palácio do Hidalcão, às montanhas de Timor. Distraídos, nem se apercebem que, mais uma vez, a Portugal estaria reservado o papel periférico de colonizador-colonizado.
Perante tudo isto, quando o “imperador” de Washington se enfeita com as “trumpolinices” de um Conselho da Paz para impor soluções para conflitos que ele próprio fomenta, a troco de chorudos negócios, que é feito da humilhada ONU? Da sua Assembleia Geral? Do seu Conselho de Segurança? Dos seus Tribunais especiais? Presumo que António Guterres andará muito preocupado…
O Estado Português, encerrado que está o ciclo do 25 de Abril, convive com este revivalismo reacionário, incapaz, ou desinteressado, de fazer ouvir a sua voz em defesa dos valores de Abril inscritos na Constituição: da paz no seu sentido humanista, que não se remeta à ausência de guerra; da liberdade na perspectiva inclusiva, que entenda que a liberdade do “outro” é tão importante como a “minha” liberdade; da justiça social com dimensão altruísta, que envolva a solidariedade num mundo de iguais.
Por isso insisto no apelo a que nós, os que, passados 52 anos, teimamos em nos revermos no 25 de Abril, nos mentalizemos para um novo ciclo que vai ser muito duro – RESISTIR.
23 de fevereiro de 2026


Contra o revivalismo reacionário – RESISTIR.