Imagens de um país sofrido e parado no tempo, Portugal, das suas aldeias, das suas crianças, nos tempos negros do fascismo dos anos 50-60 —- Histórias em primeira mão (4/5). Por Júlio Marques Mota, com a colaboração de Eugénio Ferreira e Manuel Ramalhete

Nota de editor: 

Em virtude da sua extensão, este texto é publicado em 5 partes, hoje a quarta.

 

Histórias em primeira mão (4/5)  (*) (**)

Por Júlio Marques Mota, com a colaboração de Eugénio Ferreira e Manuel Ramalhete (***)

 

(*) Este texto é uma versão alargada de um texto meu, escrito e divulgado em Maio de 2024 e intitulado Carta aberta aos jovens de agora sobre a vida difícil dos jovens de outrora. Conta agora com uma maior presença de Eugénio Ferreira e com um texto adicional de Manuel Ramalhete.

(**) Os meus agradecimentos a António Amaro, José Eduardo, Eugénio Ferreira e Manuel Ramalhete pela colaboração havida e ao António Gomes Marques pela sua revisão cuidada do texto, tanto na versão de 2024 como na versão de agora. As gralhas que ainda se possam encontrar, são da minha inteira responsabilidade.

(***) Júlio Marques Mota, professor auxiliar da FEUC na situação de aposentado, Eugénio Ferreira, Investigador Principal no INRB, (agora INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária), na situação de aposentado, Manuel Ramalhete, professor associado no ISEG e alto quadro da GALP, agora na situação de aposentado. 

 

18 min de leitura

4ª parte – Imagens sobre a dificuldade de se fazer de uma criança um jovem adulto na longa noite do fascismo em Portugal (um texto de Manuel Ramalhete)

 

A – Introdução

“Este resumo procura descrever a minha juventude no ensino primário e secundário, enquadrado no contexto da época, e com as circunstâncias então existentes, pois qualquer ser humano é também fruto das suas circunstâncias ou, como perguntava Ortega Y Gasset: que seria eu sem as minhas circunstâncias? Foi a partir delas que encontrámos as restrições e oportunidades que condicionaram a minha evolução e passagem pelo sistema de ensino da época.

Neste contexto tinha a particularidade de ser oriundo de famílias da classe “baixa” da altura, de pessoas que viviam do seu trabalho, ou por conta própria ou por conta de outrem, e sem qualquer habilitação. A minha mãe não sabia ler e só escrevia o nome dela copiando-o quando escrito por outrem, ou seja, digamos que desenhava, à vista, o seu nome. O meu pai tirou apenas a segunda classe do sistema antigo, mas como era muito curioso conseguiu aprender a ler, praticamente sozinho, através do autoaperfeiçoamento, partindo dos poucos conhecimentos obtidos até à segunda classe. Sabia ler, embora com alguma dificuldade, fazer o seu nome e tinha uma habilidade natural para fazer “contas de cabeça”, isto é, cálculo mental, o que me leva a pensar que se tem estudado teria sido bom aluno a matemática – é pelo menos o que penso.

A minha mãe era o que vulgarmente se designa por doméstica, isto é, tratava da casa, que incluía cozinhar e arrumar a casa, fazer pequena costura, remendar roupa. Também tratava das hortas, sozinha ou com a ajuda do meu pai, que forneciam os géneros alimentares de origem vegetal, e dos animais, galinhas, coelhos, porco, e por vezes alguma cabra, para fornecer leite e carne, géneros que satisfaziam as restantes necessidades, nomeadamente proteínas, ou pelo menos parte delas. A partir de certa altura também colaborava, em tempo parcial, numa padaria local, a padaria do “Ti” Manuel da Graça, no fabrico de pão, uma forma adicional de compor o orçamento.

O meu pai era um trabalhador como muitos outros da aldeia, era pescador no rio Tejo durante a maior parte do ano. Na altura da colha e apanha da azeitona, chamada localmente fega [19], que ocorria a partir de um de Novembro, era assalariado de algum detentor de grandes propriedades e de grandes olivais tradicionais, como era a D. Joaquina, residente em Vila Velha de Ródão, proprietária de alguns dos principais olivais e terrenos agroflorestais da região. Na altura da tosquia das ovelhas, que ocorria na parte final da Primavera e início do Verão, era também tosquiador, ausentando-se por várias semanas por outras regiões do país, em grupos de tosquiadores da terra, chegando a viajar por grande parte dos distritos de Castelo Branco, de Portalegre e Évora. Viviam e trabalhavam em grupos, dormindo em palheiros que os patrões disponibilizavam, e levavam em geral farnel (sacos com comida, em geral com validade mais longa, como chouriços, presunto, farinheiras, morcelas, arroz, etc.). Em geral os patrões forneciam de vez em quando carne fresca, queijos e outros alimentos (estava incluído nos acordos, pois raramente havia contratos, apenas acordos verbais, que eram respeitados). Este era também um trabalho sazonal, por conta própria (do grupo de tosquiadores), sem contratos, claro, embora a remuneração fosse em função dos resultados, isto é, do número de animais tosquiados, e quanto mais depressa o conseguissem, mais depressa recebiam e acabavam o trabalho. Chamavam a isto trabalhos de empreitada. Ou seja, era também um trabalho sazonal e, claro, precário (o patrão podia optar livremente por outro grupo de tosquiadores, da região ou doutra).

A actividade piscatória, no rio Tejo, ocupava a restante parte do ano, e era digamos uma actividade de retaguarda, embora fosse a principal. A venda do peixe (barbo, carpa, boga, achigã, principalmente) era feita ou por um agente, chamado sacador, ou pelos próprios ou familiares. O meu pai utilizou os dois sistemas, mais o primeiro no início e quase exclusivamente o segundo a partir de certa altura. O que significa que ele, ou a minha mãe, ou ambos, iam, a pé, pelas povoações da redondeza, vender o peixe pescado, em geral no dia e noite anterior. Mais tarde, resultado da introdução de espécies não autóctones, como lagostim, siluro (peixe gato), lúcio-perca, principalmente, surgem outras espécies, que substituíram parcialmente as anteriores. Também pescavam enguias, embora os stocks fossem gradualmente diminuindo depois da introdução de barragens que impediam a deslocação de espécies migratórias. Também pescavam sável, lampreia e tainha (que chamavam muge), mas a jusante da barragem de Belver, já que esta constituía uma barreira à sua migração.

Nasci em 1950 numa aldeia chamada Arneiro, que na altura do meu nascimento pertencia à freguesia de S. Simão, a que pertenciam também outras povoações, como o Duque, o Pardo, o Pé da Serra, a Vinagra, e mais outros pequenos povoados, todos no concelho de Nisa [20], Alto Alentejo, mas já próximos do Rio Tejo, que separava o Alentejo da Beira Baixa. Com a reorganização administrativa de 1959, foi criada a freguesia de Santana, incluindo o Arneiro, sede de freguesia, Duque e Pardo, situação que se mantém ainda hoje.

Agora surge a pergunta: porquê esta descrição? Porque era este o local da minha infância e era esta a atividade, a do meu pai, que me estava, à partida, destinada, se os meus pais, eu próprio a partir de certa altura, o meu professor primário, o professor Carrilho, e alguma sorte não o contrariássemos. Eram estas as circunstâncias mais relevantes que à partida condicionavam o meu destino, e o primeiro passo para contrariar esse destino começa na escola primária, seguida da escola secundária, fontes de aquisição dos primeiros conhecimentos estruturados, e ainda hoje o primeiro trampolim para uma vida melhor.

 

B – Escola primária no Arneiro

Entrei para a escola primária em 1957, com 6 anos, embora fizesse 7 anos ainda nesse ano (no último mês do ano), como era normal na altura. No caso, a escola primária masculina era uma espécie de pavilhão (quatro paredes e um telhado, tipo armazém) com muito poucas condições, bastante desconfortável, onde estavam todas as classes de rapazes, pois as raparigas estavam noutro edifício, bastante mais confortável, digamos que num edifício normal para o padrão da época.

Entretanto foi criada uma escola nova, inaugurada em 1960, entre o Arneiro e o Duque, escola ao estilo arquitectónico do Estado Novo, com a mesma arquitectura que existia em muitos outros diferentes locais do país. Digamos que o novo edifício tinha boas condições, bastante acima dos padrões de construção na aldeia, com três salas de aulas independentes, satisfazendo rapazes e raparigas (em salas separadas tanto quanto era possível) e em cada sala até existia uma salamandra para aquecimento no inverno, o que era um “luxo” para a época, embora as salamandras raramente fossem utilizadas. Fosse como fosse, estas instalações eram óptimas, até para os padrões actuais, e foi aí que frequentei a quarta classe, já que as três primeiras classes foram no anterior espaço.

Hoje esta escola está desactivada, já que as poucas crianças existentes frequentam a escola em Nisa, tendo sido transformada num centro cultural sobre a região, com registos e relatos da vida económica e social no passado, muito centrada na actividade piscatória no rio Tejo, e um centro interpretativo do Conhal, uma escombreira imediatamente a jusante das Portas de Rodão [21], na margem esquerda do rio.

O professor das minhas terceira e quarta classe foi o professor Carrilho, natural da freguesia, mais concretamente do Pardo.

Embora eu seja suspeito, pois muito lhe devo para contrariar o destino que me estava, à partida, reservado, considero que foi um excelente professor, que exercia a sua profissão com muita dedicação e profissionalismo. Referido por outros, tinha o pequeno senão de ser demasiado exigente (o que em si é uma qualidade), mas demasiado punitivo para quem se portava menos bem e para quem (e penso que a crítica se refere a este aspecto) obtinha maus resultados, ou seja, para quem era o chamado “mau aluno”, e pouco dedicado ao estudo. Como eu era em geral o que se considera um bom aluno, refiro-o sem presunção, raramente, ou nunca, era afectado pelos seus excessos disciplinares, que se traduziam em reguadas [22]. Fosse como fosse, era na minha opinião um bom professor, que procurava que os seus alunos saíssem bem preparados para o grau de ensino em causa.

Como na altura havia muitas crianças a frequentar a escola, em geral as classes tinham muita gente, e como havia só um professor para todas as classes de rapazes (para as raparigas havia outro professor, no caso uma senhora, professora Esmeralda) os melhores alunos acabavam por ajudar o professor, sobretudo nas classes inferiores (ver cópias, ditados, redacções, conferir contas, etc.). Foi o meu caso.

Chegado à quarta classe, era altura de decidir quem se vai candidatar aos exames de admissão aos liceus e escola técnicas (comerciais e industriais). O professor entra em contacto com os pais dos respectivos alunos, dando inclusive a sua opinião sobre as possibilidades de cada um. Na minha classe apenas 2 ou 3 (não tenho preciso o número) optaram e nenhum deles era eu. Estes alunos iriam ser sujeitos a um programa mais intenso de preparação, habitualmente feito depois de findo o horário de cada dia. Os candidatos ficavam mais tempo, obtendo a tal preparação especial. Não estou certo qual o montante pago, mas creio haver um custo adicional. Apesar do professor ter referido aos meus pais que gostava que eu fizesse parte dos candidatos, e que era uma pena ficar de fora, os meus pais diziam (estou a citar de memória o que ouvia e me diziam): senhor professor, não temos posses para o mandar estudar, não temos meios e precisamos dele para ajudar o pai na pesca; além disso, um exame de admissão não vai alterar nada! Como se diria hoje com os anglicanismos da moda, na mente dos meus pais seria apenas uma quarta classe premium. Mais coisa menos coisa, os argumentos para não entrar no programa de admissão, foram estes ou semelhantes. Estava, portanto, difícil escapar ao destino.

Apesar do desapontamento do professor, a vida continuou. Como o professor gostava de mim (será que tinha uma ténue esperança de convencer os meus pais?) eu ia acompanhando, embora não oficialmente, e na medida do possível, a preparação dos meus colegas, por indicação do professor, e nada pagando por isso.

Alguns tempos depois, já o programa ia avançado (creio, se a memória não me falha, que faltariam cerca de 3 meses para os exames), houve uma desistência (o aluno em causa estaria com dificuldades e os pais acharam que não valeria a pena), e o professor Carrilho aproveitou para uma nova abordagem junto dos meus pais, já que podia aproveitar o lugar do desistente, que eu estava preparado, etc. Segundo ouvi da minha mãe, teria dito que ia, nem que fosse ele a assumir os custos; só queria autorização, não precisava de mais nada. Foi pelo menos o que a minha mãe me transmitiu posteriormente. A minha mãe, mais do que o meu pai, pois era ela que mantinha os contactos (o meu pai andava no trabalho dele), talvez por vergonha e sentido de responsabilidade acabou por aceder e dizer que assumia todos os custos [23].

Foi assim que entrei oficialmente no programa para fazer o exame de admissão ao liceu e à escola técnica, o que aconteceu depois em Castelo Branco. Penso que um papel decisivo coube também ao professor Carrilho, e por isso digo que foi ele um dos que começou a alterar o meu destino. Fiquei-lhe sempre eternamente grato, ficámos grandes amigos e em contacto até à sua morte (súbita, de sincope cardíaca), e que me deixou profundamente consternado.

No fim do terceiro período viria então fazer o exame da quarta classe e o exame de admissão ao liceu e à escola técnica. O exame da quarta classe foi feito em Nisa, sede do Concelho, por professores diferentes.

Os meios de transporte na época eram muito limitados. As idas das pessoas da minha aldeia a Nisa, a cerca de 15 kms de distância, em geral, ou eram feitas a pé, ou por veículos de tração animal. Havia uma carreira que fazia por autocarro a ligação entre Castelo Branco e Portalegre, passando por Nisa, mas passava na estrada nacional EN18, que distava, no ponto mais próximo, cerca de 4 kms, através de um ramal (estrada local), e que além disso, se a memória não me falha, só passava duas vezes por dia. A solução encontrada para os jovens a exame da quarta classe foi alugar dois carros (não estou certo se foram 2 ou 3, mas penso que foram 2) puxados cada um por uma mula (híbrido resultante do cruzamento de jumento com égua) [24]. Lá íamos nós nas carroçarias, a descoberto, dos carros puxados por mulas. Eu e mais uns quantos colegas, fomos no carro do “Ti” Manuel da Graça, dono de uma padaria e que tinha um moinho no rio Tejo, para moer o grão cuja farinha utilizava no fabrico de pão (parte também era comprada), acompanhados de alguns adultos, normalmente mães.

Este meio foi utilizado na prova escrita (o exame da quarta classe daquele tempo tinha prova escrita e prova oral, separadas por uns dias) e repetido quando das orais, mas não no meu caso por uma razão simples. Como era dos últimos, penso que era mesmo o último, a fazer oral (era por ordem alfabética) tive de fazer no dia seguinte. Não se justificava alugar um carro só para mim. Foi uma tia minha e madrinha comigo num burro de um tio dela (irmão da minha avó paterna) a Nisa para fazer a prova oral. Note-se que eram 15 kms, muitas vezes feitos a pé quando os aldeões iam ao mercado, ou satisfazer qualquer outra necessidade ou obrigação, mas demasiado para uma criança, como era o meu caso. O meu pai estava ausente na tosquia e a minha mãe tinha de cuidar do meu irmão pequeno que tinha nascido a 22 de Abril (teria no máximo 2 meses), por isso foi a minha tia e madrinha comigo.

Terminada, com sucesso [25] à escola primária seguiram-se os exames de admissão ao liceu e à escola técnica, em Castelo Branco. Aí fomos de comboio, tomado na estação de Fratel, e ficámos na casa da prima da minha mãe que vivia junto da estação de caminhos de ferro, e que nos acompanhou enquanto estivemos na cidade.

Terminados os exames de admissão, punha-se a questão: qual seria a próxima etapa? Matricular no ensino secundário? Terminar os estudos e ficar, como a maioria dos jovens do meu tempo, com a quarta classe e entrar oportunamente no mercado de trabalho?

Quando se pôs a hipótese de escolher uma das alternativas referidas atrás, os argumentos que foram apresentados para não iniciar a candidatura aos exames de admissão voltaram a estar presentes. Não temos posses para pôr um filho a estudar fora de casa, numa cidade longe. Isso é para quem tem posses, não para um pescador. Eram estes os argumentos que me iam chegando, e que ia ouvindo, apesar da insistência do professor Carrilho.

O resultado foi ficar um ano sem estudar, e ajudando no que podia, pois era muito jovem e ninguém me queria a trabalhar na aldeia. Talvez como criado ou marçano, mas na aldeia esses empregos não existiam e para os procurar fora levava tempo, que os meus pais não tinham, e exigia algum trabalho, senão mesmo “cunhas”. Para além disso, normalmente um barco de pesca tinha habitualmente duas pessoas, e o destino natural seria ajudar o meu pai na pesca, o que viria a acontecer. Digamos que o destino voltava a retomar a sua trajectória anterior.

Como referi, a actividade principal do meu pai era a pesca, mas complementada com a actividade de assalariado na época da azeitona e de tosquiador na época da tosquia. Por vezes complementava com outras actividades de assalariado, quando havia, e quando a “pesca dava pouco”, ou era período de defeso para as espécies principais do rio.

Neste sentido, depois de acabar os exames de admissão ao liceu e escola técnica, comecei a acompanhar o meu pai na pesca, o que ocorreu desde o fim dos exames (Junho/Julho) até ao fim de Outubro, de 1961. A partir do início de Novembro começava a colha da azeitona (a tal fega) e o meu pai e a aminha mãe aproveitavam essa oferta sazonal de emprego, pois sempre era mais segura do que a incerteza da pesca. Só ia à pesca esporadicamente nos fins de semana.  A partir de Novembro, fiquei esse tempo sem nenhuma obrigação específica, pois não tinha idade nem ninguém me queria como assalariado na colha e apanha da azeitona.

Como muita gente da aldeia, também nós tínhamos dificuldades, e nesse tempo mais um filho era prioritariamente encarado como mais uns braços para trabalhar, e não tanto, como hoje, como mais uma boca para alimentar e educar. Por isso era fundamental ajudar e contribuir para o orçamento familiar. Instruído pelos meus pais, em particular pela minha mãe, ajudava no que podia. Enquanto eles andavam na colha e apanha da azeitona para D. Joaquina, eu passei esse período no chamado “rebusco” [26]. O rebusco consistia em ir apanhar azeitona deixada como sobras nos olivais já colhidos e apanhados. Como normalmente esta actividade era feita por assalariados, a recolha deixava muitos restos. A explicação é simples e racional. Sendo os trabalhadores homens (que colhiam principalmente) e mulheres (que fundamentalmente faziam a apanha) que eram pagos ao dia (jorna) [27], era pouco racional ir aos locais mais recônditos apanhar pequenas quantidades de azeitona que caía dos panais (panos onde caía a azeitona que depois era recolhida em sacas) ou se escapava nas irregularidades do terreno. Digamos que não compensava. No jargão económico, a produtividade (marginal) era baixa. Eram estes restos, que se chamavam rebusco, e que eu e outras pessoas íamos procurar. O meu companheiro de rebusco era o Octávio da “Ti Riqueta” (dizia-se assim, mas o nome era Henriqueta), um bom amigo de juventude, bastante pobre, infelizmente já falecido. Com este trabalho ainda contribuí para uns quilos adicionais de azeitona, que se transformaram, num dos três lagares existentes, em azeite. Não foi muito, mas foi uma ajuda.

Entretanto, sozinho em casa, ia-me desenrascando com a comida e outros afazeres, umas vezes só, outras como o apoio dos avós e às vezes até de vizinhas [28].

Terminada a época da azeitona, volto à faina da pesca, acompanhando o meu pai. Era uma actividade dura, com pouco retorno, pois o peixe apanhado era pouco, havia muitos pescadores, portanto muita concorrência, e os preços eram baixos, para além de fortemente incerta, incluindo muitas vezes devido à inclemência da natureza. Era uma economia típica de subsistência. Eu detestava aquela vida, por ser muito dura e muito pouco compensadora, e fazia chegar esse descontentamento aos meus pais, sobretudo à minha mãe que era o principal amparo, e as mães, mesmo não gostando mais do que os pais dos filhos, são mais sensíveis. Percebi o significado do ditado que ouvi várias vezes: mãe é mãe! Muitas vezes a minha mãe, para amenizar o meu desconforto, aparecia no rio com o meu irmão pequeno. Era uma forma de anestesiar um pouco a ”dor” que sentia.

Entretanto na parte final da Primavera e início do Verão começava a época da tosquia das ovelhas. Este era em geral o período que propiciava melhores rendimentos por unidade de tempo, e como funcionava em regime de empreitada, em que o pagamento era em função da dimensão do rebanho e do trabalho, os tosquiadores trabalhavam mais tempo, para obter melhores resultados. Em geral trabalhavam, como eles diziam, de sol a sol, ou seja, desde o início da manhã, logo que houvesse luz natural, até ao fim do dia enquanto fosse possível. Assim terminavam mais rápido cada empreitada, e passavam a outra.

Coube-me então a missão de participar nesta actividade como aprendiz. Ganhava pouco, muito pouco mesmo, mas ia aprender para um dia poder ser tosquiador completo. Isto passa-se na Primavera de 1962, tinha então 11 anos (faria 12 no fim do ano). Como era um miúdo, não havia tesouras mais pequenas adaptadas à minha situação, pelo que utilizava tesouras de adulto, as do meu pai para o efeito.

Dado ser uma criança a entrar ainda muito jovem no mundo do trabalho, e ainda por cima numa actividade bastante dura para uma criança, ao fim de alguns dias de uso das tesouras abriu-se-me o pulso (direito, pois sou destro) e já não conseguia cumprir o processo de aprendizagem que me estava destinado. Regressei á aldeia, por manifesta incapacidade de cumprir as funções que me estavam destinadas.

Na aldeia pouco fazia, para além de ajudar a minha mãe na sua actividade doméstica, tomando conta do meu (único) irmão, Rogério, que era uma criança que tinha nascido no ano anterior, em Abril. Para além disso convivia com os jovens do meu tempo e procurava junto do professor Carrilho ler livros que constavam da biblioteca ou que ele me emprestava.

Apercebendo-se da minha infelicidade e constatando que de pouco servia, digo eu, pois nem tosquiador consegui ser por enquanto, a minha mãe, depois de falar com o meu pai, decidiu que valeria a pena ir tirar o segundo ano, sempre era melhor do que a quarta classe. A opção foi Castelo Branco, como veremos de seguida.

 

C – O ensino secundário em Castelo Branco

Tinha feito os exames de admissão em Castelo Branco, o que não sendo impeditivo de ida para outra cidade, digamos que estava mais “a jeito”. Por outro lado, por sorte a minha mãe tinha uma prima direita, “Mari Pinta” (o nome correcto era Maria Pinto) da mesma idade, vizinhas e muita amigas, a viver em Castelo Branco, onde vivia com o marido, um ferroviário, o que trabalhava na CP [29].

A prima da minha mãe, que viria a ser para mim uma segunda mãe, prontificou-se imediatamente a alojar-me na sua casa. Ela já lá tinha mais dois outros estudantes, para além dos filhos, a quem tinha alugado quartos, e disse que não havia problema. Para estas pessoas, em geral modestas, era uma forma de conseguir alguns rendimentos adicionais. Mais, por ser familiar, até levaria um preço mais baixo pelo alojamento (não posso precisar, mas creio que cada um pagava 100 escudos por mês e eu iria pagar 80 escudos, isto em 1962). O resto era igual. Ou seja, semanalmente era enviado um cabaz com alimentos com maior validade, em geral pouco perecíveis (chouriços, morcelas, presunto, arroz, batatas, etc.). Algum outro produto que fosse necessário comprar, como por exemplo peixe fresco ou carne fresca, era pago à parte. Normalmente era dividido por todos e ela tinha um livro de assentos, onde estas despesas extra eram registadas, que depois eram pagas pelos pais dos estudantes. Eu várias vezes, a seu pedido, fiz o registo.

Porquê Castelo Branco e não Portalegre, o distrito da minha naturalidade e sensivelmente à mesma distância?

A primeira razão está na existência dessa prima, quase como irmã da minha mãe, e da sua disponibilidade e até generosidade.

Em segundo lugar, o acesso a Castelo Branco, a partir da minha aldeia, era muito mais fácil. Havia o comboio, através do acesso a partir da estação de Fratel, bastante próxima da minha aldeia, apenas do outro lado do rio Tejo, mas havia um barqueiro permanente que assegurava, a qualquer hora, a travessia do rio [30]. Havia ainda uma empresa de camionagem, chamada Setubalense, que fazia diariamente o transporte entre algumas cidades do Alentejo e Castelo Branco. A camioneta que assegurava o transporte passava na estrada nacional, que ficava a cerca de 4 quilómetros da minha aldeia. Era uma alternativa, embora o comboio fosse mais perto, mais barato e mais frequente, e por isso era o meio mais utilizado.

Finalmente, Castelo Branco era uma cidade mais utilizada pelas pessoas da minha aldeia, embora esta se localizasse no Alentejo; tinha semanalmente um mercado (de rua) todas as segundas-feiras, e havia muita gente que semanalmente se deslocava a Castelo Branco ao mercado, o que facilitava as ligações. Note-se que na altura os meios de contacto eram muito diferentes, para pior, do que os actuais.

Como o cabaz era mandado semanalmente, havia muitas alternativas, em geral por comboio. Uma delas era o marido da “Ti Mari Pinta”, o “Ti” Laurentino, que ia passar o fim de semana a casa e recebia o cabaz na estação do Fratel e o levava para casa, sendo que algumas vezes eu ia buscá-lo á estação. A casa da prima era junto da estação de caminho de ferro de Castelo Branco, o que era mais uma facilidade. Outra alternativa era algum familiar ou vizinho o levar. Na estação da CP os empregados, sem qualquer encargo, guardavam, e sem qualquer problema, até que fosse levantado. Outros tempos, de maior solidariedade e segurança. Finalmente, havia a alternativa de despachar na CP.

Por isso Castelo Branco parecia ser a melhor opção, e assim foi.

A minha vida de estudante em Castelo Branco foi como a de muitos jovens do mesmo extracto social, mas existem algumas particularidades que procurarei descrever.

Em primeiro lugar, a opção foi pela Escola Industrial e Comercial de Castelo Branco, e não o Liceu. O argumento acaba por ser um corolário do sentimento da altura: para o liceu ia quem queria ir longe nos estudos, para quem tivesse mais posses. Quem tem menos posses vai para a escola técnica, para adquirir rapidamente uma profissão, serralheiro, electricista ou mecânico, no caso dos cursos industriais, e guarda-livros, empregado de escritório ou empregado administrativo, no caso dos cursos comerciais. Era o que se dizia. Seria mais fácil arranjar um emprego com um curso técnico, sobretudo para quem não tem “padrinhos”, era o sentimento reinante nas aldeias pobres do país. Como as expectativas eram baixas, a opção foi pela escola técnica e assim adquirir formação para uma profissão um pouco melhor.

A minha actividade no primeiro ano não se pode dizer que tenha começado bem, até começou mal. Tendo estado um ano sem estudar, perdi ritmo, e estaria um pouco “perro”, o que no jargão desportivo se diria “fora de forma”. Isto traduziu-se que no primeiro ponto que fiz, de ciências naturais, tive negativa (abaixo de 10 valores numa escala de 0 a 20), medíocre, embora um medíocre não muito baixo, mas um medíocre para o efeito. Viria a ser um marco, pois foi a única negativa que tive numa prova em todo o meu percurso até ao fim, incluindo a Universidade.

Na altura os pontos, depois de classificados pelo professor eram entregues aos alunos que tinham a obrigação de os mostrar ao encarregado de educação, que os assinava e devolvia ao educando que o mostrava ao professor devidamente assinado. Este, depois de verificar, devolvia o ponto ao aluno. Era assim em Castelo Branco, mas penso ser a regra geral no país. Assim fiz, o meu encarregado de educação era a prima da minha mãe, que assinou o ponto e mo devolveu. Ela obviamente informou a minha mãe do resultado obtido [31].

Curiosamente, e para espanto meu, nem a prima nem a minha mãe deram grande importância ao caso, quem deu mais importância e ficou mais abalado fui eu. A prima da minha mãe dizia: muita gente tem negativas e passa, são poucos os que nunca têm negativas, esta é a primeira, ainda há mais, e expressões do mesmo género.

A minha mãe, talvez por aqueles conceitos lhe serem estranhos, e talvez tenha sido a primeira vez que ouviu falar em medíocre, embora lhe tenham dito que era uma negativa, também não mostrou grande desagravo e nem me repreendeu, pelo menos que me lembre, o que se tivesse sido o caso não me escaparia. Só me lembro de ter dito algo do tipo (estou a citar de memória): deixa lá, para a próxima corre melhor! O meu pai penso que nunca soube deste pormenor, pois nunca me disse nada. Penso que a minha mãe, que mais me acompanhava nestes aspectos, nunca lhe disse, ou por que não quis ou por esquecimento. O Manel da “Ti” Adelaide, infelizmente já desaparecido, companheiro na Escola Técnica, amigo, e vizinho na aldeia, disse algo do género: tu sabias mais do que eu e como pudeste ter pior nota? É só desta vez, na próxima recuperas, dizia ele, talvez para me animar. Fosse como fosse, tive medíocre, mesmo que isso tivesse provocado espanto nalguns. Eu penso que, talvez por ser a primeira prova, tendo estado um ano sem estudar, me enervei, provavelmente por não entender uma pergunta e bloqueei, e deixei muitas perguntas por responder. Ou seja, uma estratégia errada na abordagem. Já não tenho presente, mas é o que penso ter acontecido, pelo menos é o que retenho.

Talvez devido a esta lição, aprendida com o próprio erro, ao longo da vida de estudante segui sempre a estratégia de responder primeiro ao que sabia e deixar para o fim o que tinha dúvidas, ou não sabia a resposta. Inclusive, já depois como professor universitário, recomendava isso aos meus alunos, pois o argumento tantas vezes ouvido a estudantes, “sabia, mas não tive tempo, a prova era muito longa”, podia ser verdadeiro, mas era inaceitável.

Sem mais sobressaltos fiz facilmente o segundo ano (com dispensa da oral) [32]. Na altura já os meus pais estavam mentalizados para tirar o quinto ano, pois com o quinto ano já se arranjavam empregos razoáveis, pensava-se, e ainda por cima tinha passado sempre com boas notas depois daquele sobressalto inicial. Sendo assim, optei pelo curso comercial, já que a escolha era feita a partir do terceiro ano. Dado algum jeito para contas, via-me mais como guarda livros, ajudante de contabilidade, entre outros, do que como serralheiro ou mecânico. Optei pelo curso Comercial. O Manel da “Ti” Adelaide, meu conterrâneo, companheiro e amigo, optou pelo curso industrial, tinha mais jeito para artes manuais do que para contas, dizia ele. Assim nos separámos nos estudos, embora na mesma escola e, claro, passávamos férias na aldeia comum, corríamos as festas e romarias no Verão, continuando amigos até à sua morte, ocorrida já adulto e homem de família.

O terceiro e o quarto anos decorreram sem nada de especial a registar, tudo nos conformes. Chegado ao fim do quarto ano os professores e a escola informavam quem eventualmente quisesse fazer o quinto ano e a secção preparatória no mesmo ano tinha de optar no início do quinto ano. Informaram também que quem quisesse ir para o Instituto Comercial de Lisboa ou do Porto [33] (penso que eram as duas únicas cidades com Institutos Comerciais na altura) tinha de fazer a secção preparatória, em conjunto com o quinto ano ou em ano separado, e que se não tivesse meios económicos podia candidatar-se a uma bolsa de estudo, nomeadamente da Fundação Gulbenkian (FG), que apoiava estudantes pobres, mas era preciso ter bom aproveitamento escolar. Este bom aproveitamento escolar significava que só era contemplado com essa possibilidade quem tivesse pelo menos média de 14 valores (bom), para além, obviamente, de dificuldades económicas que o justificassem.

Tinha consciência que sem bolsa de estudo, o ensino secundário era para mim o fim da linha. Os meus pais, que com dificuldade e com algumas circunstâncias favoráveis, nomeadamente em termos logísticos, tinham acedido a completar o curso secundário, ser-lhes-ia difícil, ou até mesmo impossível, continuar para além disso sem algum apoio adicional. Ir para Lisboa, apesar de tudo mais acessível, a partir da minha aldeia, do que o Porto, era um objectivo difícil: tudo era mais caro, embora houvesse pessoas da terra em Lisboa, mas que não tinham o grau de relação e intimidade que havia em Castelo Branco, sendo além disso preciso averiguar se tinham disponibilidade ou se queriam e, adicionalmente, não era viável a técnica do cabaz semanal.

Percebi que só uma bolsa de estudo tornaria a opção de continuar os estudos viável. E foi a essa alternativa que me agarrei. Com algum receio de não conseguir a média mínima de 14 valores, optei por fazer o quinto ano separado da secção preparatória, e depois tentar esta. Seria mais seguro fazer os anos separadamente. Foi o que fiz [34]. Com o quinto ano comercial, o primeiro objectivo estava atingido, ainda que nesta altura já ambicionasse mais, no caso vertente conseguir a passagem pelo Instituto Comercial, e deste para a Universidade, para o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF) [35].

Entretanto no sexto ano escrevi à Fundação Calouste Gulbenkian, obtendo os contactos na Escola Técnica de Castelo Branco, e com ajuda de professores na altura, e de outros colegas, como o António Farinha e o Adriano Minhós. Depois de preencher todos os elementos que eram solicitados, por correio, obtive uma resposta positiva da FG, sujeita ao aproveitamento exigido, autenticado pela Escola (penso que através do envio de um certificado de habilitações), que teria de enviar no fim do ano. Terminado a secção preparatória com a classificação exigida, assim fiz, recebendo uma resposta positiva, apenas sujeita à certificação de matrícula no Instituto Comercial.

Entretanto os meus pais não levantaram qualquer problema, uma vez que tinha garantida uma bolsa de estudo (não tenho a certeza, mas penso que a bolsa mensal da FG no Instituto Comercial era de 850 escudos, durante 10 meses no ano. Na Universidade era um valor mais elevado, penso que inicialmente 1200 escudos mensais, no caso da bolsa da FG, mas havia também bolsa dos Serviços Sociais), que era renovada se mantivesse o aproveitamento mínimo de bom.

Entretanto a minha mãe, através de uma nossa conterrânea, que vivia na Damaia, conseguiu um acordo para alugar um quarto na sua casa (arrendada). Garantido o alojamento, fiz a matrícula no Instituto Comercial de Lisboa, e assim termina a minha etapa em Castelo Branco, iniciando-se uma nova etapa, agora no ensino médio, em Lisboa, a que se seguiria a etapa na Universidade. O destino inicial tem então de forma irreversível a sua trajectória inicial alterada. A partir daqui o que viria a acontecer dependeria fundamentalmente de mim e da minha vontade e capacidade.”

 

Fim do texto de Manuel Ramalhete

 

(continua)

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Notas

[19] Julgo ser uma expressão de uso apenas local, já que não consta do dicionário.

[20] Segundo fontes históricas, até 1959, a freguesia de São Simão abrangia várias localidades e montes na região, incluindo: Pé da Serra, sede da freguesia e principal povoação, Vinagra, Arneiro, Duque, Monte Cimeiro, Pardo e outras povoações e montes menores, historicamente identificados como parte do território paroquial. Muitos destes montes estão hoje desabitados, o que é comum em muitas zonas interiores do Alentejo devido à emigração e ao declínio demográfico ao longo do século XX.

[21] Esta escombreira é um testemunho de antiga exploração aurífera levada a cabo pelos romanos e que terá continuado em épocas posteriores. Trata-se, essencialmente, de seixos rolados de quartzito formando colossais aglomerados com configuração cónica arredondada ou formando extensas fiadas com várias dezenas de metros de extensão, designados por conhos, daí o nome de Conhal. As Portas de Ródão é uma garganta estreita cavada na rocha dura (quartzito) pelo rio, através da erosão ao longo de milhões de anos. É uma das belezas naturais do país.

[22] Reguada é uma acção punitiva como forma de castigar crianças com um instrumento de madeira, também chamado palmatória, ou régua, que consistia em bater na palma da mão com este instrumento. Era um tipo de castigo muito frequente nas escolas primárias do Estado Novo.

[23] Apesar de aparentemente o meu pai ser mais inteligente e menos analfabeto, a minha mãe era muito mais decidida, mais ousada e um espírito de maior capacidade de liderança do que o meu pai e o que ela decidia era em geral o que vigorava. Apesar de pouco habilitada, era uma pessoa “esperta”, e até autoritária, ao contrário do meu pai que não era nada autoritário. Segundo percebi, foi ela que decidiu e o meu pai aceitou sem reservas.

[24] Estes carros puxados por mulas, que alguns conterrâneos, com negócios, tinham, também eram utilizados pelos jovens que iam à inspecção (chamada tirar as sortes), a Nisa, para saber se ficavam apurados ou livres do serviço militar. Nesta época o serviço militar era obrigatório, e com o início da guerra em África poucos ficavam livres do serviço militar, só em casos de deficiência grave, real ou simulada com cobertura da tradicional “cunha”. Era um meio de transporte muito utilizado, sobretudo quando envolvia várias pessoas.

[25] Naquela altura era frequente haver chumbos, por falta de aproveitamento, mesmo na escola primária, situação que actualmente é rara, salvo por desistência, tanto quanto sei.

[26] Havia outra actividade relacionada com a apanha da azeitona chamada galateio (penso que é também expressão de uso local, específica da minha aldeia e eventualmente de outras na proximidade), que consistia na apanha de azeitona caída, mas antes de começar a fega da azeitona (colha e apanha), que geralmente começava no dia 1 de Novembro. Só se podia apanhar, não colher. Quando nalgumas oliveiras daquele olival estava um pano pendurado era sinal de que já não era permitido o galateio. Também cheguei a ir ao galateio, embora esporadicamente, por exemplo quando não havia escola (fins de semana ou feriados) e ia com a minha mãe a alguma horta, ainda antes de começar a “fega oficial”. O galateio na minha aldeia corresponde ao landeio, referido pelo Júlio, no Fratel. Era uma prática da região, embora com designações ligeiramente diferentes.

[27] Como acontecia em quase todas as actividades, a jorna das mulheres era bem inferior à dos homens.

[28] Nestas aldeias, e nesta altura, as comunidades familiares eram mais coesas e muito solidárias, e em geral os filhos pequenos eram cuidados pelos avós e às vezes até pelos vizinhos enquanto os pais estavam ausentes no trabalho, ou no cuidar das hortas e pequenas propriedades.

[29] Nesta altura a CP era um dos grandes empregadores da região e até do país, e oferecia empregos que eram bastante apetecidos por esta gente modesta. Era um emprego seguro, numa empresa estatal, e disponibilizava reduções nos custos de transporte aos familiares dos trabalhadores, através do chamado passe familiar, e até algumas viagens gratuitas no ano dentro do território nacional. Isso dava a possibilidade de visitar ouros locais, alguns que constavam do imaginário das pessoas (como ir a Fátima, visitar o Bom Jesus, em Braga, ou o Mosteiro dos Jerónimos, por exemplo), sendo que a maioria das vezes esses passes eram utilizados para visitar familiares noutros locais, nomeadamente Lisboa ou Porto, polos de atração de muita gente que abandonava a agricultura. Muitos destes trabalhadores da CP, sobretudo do sector operário, viviam em camaratas próximas dos principais locais ou sede do trabalho, como Lisboa, Entroncamento, etc. e deslocavam-se semanalmente para os locais de residência para passar o fim de semana com a família e levar o farnel. Era o caso do marido da prima da minha mãe, “Ti” Laurentino, que vivia em Castelo Branco, mas que trabalhava e vivia durante a semana noutros locais onde a CP tinha actividades.

[30] Quando já estudava em Castelo Branco, no terceiro ou quarto ano, o meu pai viria a ser barqueiro na chamada barca do Fratel, aquela de que estamos a falar. O barqueiro era escolhido através de um sistema de leilão, ou arrematação, anualmente na Câmara de Vila Velha de Ródão. Nessa altura, estudante em Castelo Branco, cheguei a passar férias, junto do meu pai na barca do Fratel (e cheguei a transportar passageiros) e conhecendo muitas das pinturas rupestres na zona no vale do Tejo, guiei alguns dos investigadores, penso que da Faculdade de Letras de Lisboa, que andavam a fazer o levantamento e registo fotográficos destas pinturas rupestres. Estas gravuras ficaram submersas com o enchimento da albufeira da barragem de Fratel, ou pouco mais a sul, situação em que se encontram actualmente.

[31] Havia estudantes que para escaparem à “ira” do encarregado de educação e, consequentemente, dos pais, falsificavam a assinatura. Não foi o meu caso, mas mesmo que a tentação existisse nunca mais seria necessário.

[32] Na altura havia exames no segundo ano, e outros posteriores. No caso do curso comercial havia exame ás diversas disciplinas, incluindo um exame no sexto ano, chamado secção preparatória para os Institutos Comerciais. No caso do curso industrial havia também uma secção preparatória aos Institutos industriais, com exame no fim. No caso do Liceu havia exames no segundo ano, no quinto e finalmente no sétimo antes da entrada nas universidades. Tudo isto depois de 4 anos na escola primária.

[33] O sistema era semelhante nos cursos industriais e na sua relação com os Institutos Industriais.

[34] Dos colegas da altura, colegas de turma ao longo daqueles 5 anos, por exemplo, o António Farinha Morais, actual presidente não executivo da Caixa Geral de Depósitos, um grande amigo desde esses tempos, optou, e com sucesso, por fazer os dois anos juntos. Eu e o Adriano Minhós, optámos, também com sucesso, por fazer separadamente. Houve outros colegas, a maioria dos que prosseguiram, que também optaram por fazer em anos separados. Cito estes dois, pois prosseguimos juntos no Instituto Comercial de Lisboa e a seguir no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), o António Morais um ano à nossa frente, devido a esta opção de fazer os dois anos num, e eu e o Adriano Minhós no mesmo ano, mas mantivemos sempre as relações de amizade, que ainda hoje mantemos, iniciadas em Castelo Branco.

[35] Na altura o professor de Cálculo/Matemática referia frequentemente que quem ambicionasse um curso universitário, tinha um curso de acesso directo, que, na opinião dele, era muito bom, o curso de Ciências Económicas e Financeiras (Economia ou Finanças), em Lisboa, ou curso de Economia na Universidade do Porto. Dizia ele que eram cursos com muito boas saídas profissionais.

 

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