João Pedro Marques in Observador, 2026.03.27, critica duramente a abstenção de Portugal numa votação da ONU que classificou otráfico transatlântico de escravos como o mais grave crime contra a humanidade. Considera essa decisão absurda, por entender que não é possível hierarquizar crimes históricos dessa forma.
Defende que esta posição da ONU responde a objectivos políticos de países africanos e das Caraíbas, visando preparar o caminho para futuras exigências de reparações financeiras. Critica também o facto de muitos países, sobretudo europeus, se terem abstido, atribuindo isso a um crescente sentimento de culpa histórica, influenciado por correntes ideológicas contemporâneas.
No caso de Portugal, o autor considera a abstenção vergonhosa e politicamente evasiva, acusando o governo de falta de transparência e de evitar assumir uma posição clara. Sugere que essa atitude pode indicar uma futura disponibilidade para aceitar pedidos de reparações.
Conclui manifestando frustração e desilusão com o governo português, considerando que esta decisão é negativa e preocupante para o futuro.
……………..
Uma mão amiga fez-me chegar o texto de João Pedro Marques, de que acima apresento um breve resumo.
Confesso que me revejo, em larga medida, na análise do autor, e diria até que a sua crítica peca por alguma contenção. O que está em causa não é apenas uma votação isolada ou uma nuance diplomática, mas antes mais um passo num processo mais vasto de reinterpretação da História à luz de categorias ideológicas contemporâneas, muitas vezes simplificadoras e moralmente hierarquizantes. Esta tendência, frequentemente associada ao que hoje se designa por correntes de pensamento que privilegiam a culpabilização histórica e a reparação simbólica em detrimento da análise contextualizada, tem vindo a ganhar terreno em várias instâncias internacionais, nem sempre com o necessário rigor histórico ou equilíbrio crítico.
Não é, aliás, um fenómeno recente. Há já algum tempo que este tipo de posicionamentos vem sendo preparado e normalizado no espaço público. Recorde-se as declarações do anterior Presidente da República sobre a necessidade de “pagar os custos” do colonialismo, posição que gerou controvérsia.
É por isso que a posição agora assumida pelo Governo português me causa particular apreensão. Mais do que a decisão em si, preocupa-me o padrão que ela revela: uma tendência para evitar o confronto, para diluir posições e para acompanhar, sem verdadeiro escrutínio, orientações externas que mereceriam discussão séria e transparente no plano interno. Essa atitude gera, inevitavelmente, um sentimento de desconforto e desconfiança.
Acresce que decisões desta natureza não são politicamente neutras. Têm consequências. Alimentam percepções de fragilidade, de falta de convicção e de afastamento face a uma parte significativa da sociedade. E é precisamente nesses espaços de desilusão que se abrem caminhos para reconfigurações políticas mais profundas. Decisões como esta podem contribuir para alimentar um sentimento de desconexão entre elites políticas e sectores do eleitorado, fenómeno que historicamente tem favorecido movimentos de contestação.
Importa dizê-lo com clareza: estas dinâmicas não surgem no vazio. São, muitas vezes, a resposta a um conjunto de sinais que vão sendo dados ao longo do tempo. E quando esses sinais são ignorados ou desvalorizados, o resultado tende a ser um agravamento das tensões e uma maior polarização.
Por isso, não poderá haver surpresa futura. Os sinais estão à vista, os alertas têm sido feitos, de forma reiterada. O que vier a acontecer será, em grande medida, consequência de opções que hoje se tomam, ou se evitam tomar.