A OUTRA EQUAÇÃO – Por José Fernando Magalhães (7)

 

 

FRANCISCO DE PINA

1585/1586 Guarda – 1625 Cochinchina

 

Nos 400 anos da sua morte


O Egitanense

 

Đà Nẵng streets may be named after foreign missionaries

 

Na lonjura dos mares orientais, onde a luz nasce com um vagar antigo e o ar parece guardar memórias de outros séculos, caminhava um homem de olhar atento e alma paciente. Chamava-se Francisco de Pina; trazia no peito a frieza do granito da Guarda e, misturada com ela, uma inquietude que o empurrava para além de todos os horizontes conhecidos. Como tantos que desceram outrora ao cais da Ribeira do Porto, partiu não apenas para chegar a outro lugar, mas para se transformar na travessia, e nesse gesto deixou, sem o saber, uma marca que o tempo não conseguiu apagar.

Era, porém, diferente dos que levavam espada ou ambição de conquista. Nele havia uma quietude funda, quase silenciosa, como se o silêncio da serra o tivesse ensinado, antes de tudo, a ouvir. Não foi apenas missionário; foi, num sentido mais raro e mais humano, o alfabetizador de almas. Percebeu cedo que nenhum povo se alcança pela imposição da palavra, mas pelo respeito do seu som. E foi assim que começou a sua verdadeira viagem; não a das naus, mas a da linguagem.

Em Macau, provavelmente entre 1614 e 1617, onde o mundo se cruzava em murmúrios de línguas e mercados, estudou com rigor e curiosidade as vozes do Oriente. Ali encontrou mestres na arte de transpor sons distantes para letras latinas; ali aprendeu que cada idioma é um corpo vivo, com respiração própria. Mas foi na Cochinchina, a partir de 1617, que a sua obra ganhou raiz. Diante de uma língua escrita em caracteres que erguiam uma distância quase intransponível, decidiu ouvir antes de falar; e nesse gesto nasceu o homem que deu rédeas ao som.

Escutava o povo como quem recolhe água, devagar e com respeito. Entre o rumor dos rios e o cheiro a incenso, foi aprendendo a música tonal do anamita; seis variações de voz, seis modos de dizer o mundo. A sua sensibilidade de músico, rara luz na penumbra da sua vida privada, permitiu-lhe compreender o que outros apenas ouviam. E desse entendimento nasceu um labor paciente; transformar a vibração da fala em sinais e dar corpo visível ao invisível.

Assim começou a desenhar o que viria a ser o quốc ngữ. Não alfabetizou apenas uma língua, deu forma escrita a um encontro, não como quem impõe, mas como quem traduz. Letras latinas passaram a guardar o som de um povo; não o aprisionando, mas libertando-o. Foi uma ponte transoceânica, lançada não sobre águas, mas sobre silêncios. Uniu a Beira Alta às selvas da Indochina, não por domínio, mas por entrega.

Muito do que fez se perdeu; o tempo devorou papéis, calou manuscritos, dispersou vestígios. Admite-se hoje que, cerca de 1619 terá compilado um vocabulário e que, poucos anos depois, terá escrito um tratado de ortografia e fonética. Nada disso chegou até nós.

 Ficou, porém, o testemunho de quem o conheceu. Alexandre de Rhodes, que bebeu dessa fonte e levou mais longe o que ele iniciara, escreveu que Pina falava vietnamita melhor do que qualquer outro europeu que conhecera. Raro destino, o de quem desaparece no gesto e permanece na consequência.

Foi mestre de homens, mais do que autor de livros. Ensinou outros missionários a falar, mas sobretudo a ouvir. Criticava os que julgavam possível evangelizar sem compreender; defendia que a palavra só ganha verdade quando nasce do respeito. Era homem de método e de paciência; um espírito adaptável, atento, profundamente humano. E, no entanto, a sua vida íntima permanece envolta numa névoa espessa; não há cartas, não há retractos seguros, não há relatos do quotidiano. Apenas fragmentos; e nesses fragmentos adivinha-se um carácter firme, uma inteligência sensível, uma solidão talvez aceite como parte da missão.

Enfrentou perigos e recusas. Num tempo de conflitos locais, teve de procurar refúgio num bairro japonês, sinal de que o seu caminho não era feito apenas de encontros, mas também de resistências. Ainda assim, permaneceu fiel ao seu propósito; compreender para ensinar, escutar para transformar.

E depois, como tantas vidas que se dão inteiras, chegou o instante final. Em Dezembro de 1625, o mar chamou-o. Um naufrágio ao largo de Cửa Đại; vozes em perigo, corpos à deriva, o frio da água e o peso das vestes. Não hesitou. Lançou-se às águas como quem cumpre o último gesto de uma existência inteira. Não por heroísmo, mas por incapacidade de se guardar. As ondas levaram-no. E nesse acto revelou-se, talvez, a essência do que fora sempre; um homem que não se guardava.

Morreu jovem, com cerca de quarenta anos. Mas a sua obra não coube nesse tempo breve. Ficou na fala viva de milhões, inscrita no quotidiano de um povo que, sem o saber, transporta no seu alfabeto o eco distante de um português. Um homem que não deixou livros, mas deixou uma língua escrita; que não deixou memória pessoal, mas deixou identidade colectiva.

Em Portugal, o seu nome permaneceu numa sombra quase injusta. Outros nomes ocuparam o espaço da lembrança; não por ingratidão deliberada, mas por distracção dos povos que têm demasiada história para guardar toda a memória. Mas no Vietname, onde a escrita que ajudou a criar se tornou caminho comum, nunca desapareceu por completo. E hoje, lentamente, regressa também à sua origem. Na Guarda, onde o granito resiste ao tempo, ergue-se agora a memória de quem partiu para nunca mais voltar, e ainda assim nunca deixou de estar.

Francisco de Pina foi, afinal, um tecelão de verbos e marés; alguém que, entre a bruma da serra e o calor dos trópicos, construiu uma ponte feita de linguagem, de paciência e de humanidade.

E assim permanece; não como figura distante, mas como presença discreta. Não nos livros que se perderam, mas nas palavras que ficaram, na memória que respira, silenciosa, em cada sílaba de um povo inteiro.

 

 

5 Comments

  1. Obrigado, muito obrigado. Este foi um dos textos que mais me emocionou ao longo de uma já extensa vida. Somos o que somos, mas também somos isso. E a esses, que afinal foram muitos mais do que conhecemos, devemos o que somos ainda – simplesmente humanos.
    obrigado, muitíssimo obrigado

  2. Olá Jorge Fernando: quer o destino que não nos temos encontrado. Porém, pelo seu texto que acaba de me chegar sobre este ilustre Francisco de Pina posso ver que continua com grande pujança literária. Um texto cheio de beleza enaltecendo um grande Homem das Letras Lusas em terras distantes. Muito obrigado por dar a conhecer este ilustre homem das letras. Abraço Mário Fleming

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