Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (3/8): “Literacia e Taxas de Suicídio” . Por Kim Hyesoon

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico

“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”

Hermen Hesse


Nota de editor:

Este décimo quinto texto da parte I – Morte da Cultura e o Regresso à Barbárie e ao Pensamento Mágico é composto por oito textos sujeitos ao tema Degradação Mental sem Fronteiras, do sítio The Bafler. Hoje publicamos o terceiro texto da autoria de Kim Hyesoon.

FT


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4 min de leitura

Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (3/8): Literacia e Taxas de Suicídio 

Por Kim Hyesoon

Traduzido do coreano para inglês por Jack Saebyok Jung

Publicado por  Baffler Symposium no. 81, em Novembro de 2025 (original aqui)

 

Fotografias de Kaya LeGrand e Max Brandstadt

 

No meu país, a Coreia do Sul, a literatura deve ser fácil, sem exceções. O leitor deve apreender o significado de imediato. Caso contrário, o livro não vende. Não será lido. A poesia, também, deve ser simples. O leitor deve captar a intenção do poeta num único olhar, ou então fica irritado. Os leitores tomam-se a si próprios como a medida de todas as coisas, o padrão de toda a interpretação. Um jornalista literário, que afirma ter lido livros todos os dias da sua vida, declarou que qualquer poema produzido hoje na Coreia que ele não consiga compreender não é poesia de forma alguma.

Os poetas contemporâneos, diz ele, escrevem versos difíceis de propósito, por arrogância ou para provocar o seu público. Assim, a excelência — ou mediocridade — de cada obra é determinada pelo seu grau de dificuldade. Os números de vendas obedecem à mesma lógica. Como se respondessem ao pedido de um cirurgião para classificar a dor de um a dez, os leitores decidem que qualquer pontuação acima de cinco transforma o texto de literatura num instrumento de tortura. Os leitores coreanos preferem algo entre um e três.

Entre essas obras fáceis, se a peça contém os traumas históricos da Coreia, ela conquista pontos favoráveis dos leitores. Quanto mais nu for o trauma exposto — não apenas mencionado, mas encenado à vista plena —, melhor, especialmente quando um escritor brande um “álibi histórico” para tais eventos, que pode rapidamente tornar-se também o do próprio leitor. Se o leitor sentir que também cumpriu a sua quota de virtude cívica, isso é a cereja no topo do bolo. Ao mesmo tempo, até mesmo a chamada crítica literária profissional continua a deteriorar-se. Um crítico masculino de grande autoridade declarou que a fraseologia da minha coletânea Phantom Pain Wings era grotesca, acusando-me de, de alguma forma, exibir implicitamente a minha sexualidade. Segundo ele, cada pássaro que levanta voo nos meus poemas é o meu orgasmo. Penso: a última geração na Coreia capaz de ler, escrever e verdadeiramente saborear a poesia está a desaparecer. E em tempos assim: O que estou eu, um poeta, agora a fazer?

Recentemente, o meu país assistiu à destituição legal (impeachment) de um presidente. Eu desejara fervorosamente a destituição desse presidente, que declarara a lei marcial; cheguei até a publicar um vídeo online, petição na mão, implorando aos juízes do Tribunal Constitucional que o destituíssem do cargo. Um dos maiores motivos pelos quais rezei pela destituição do presidente foi a linguagem usada por aqueles que estão no poder: frases que só se aplicam a inimigos, usadas por soldados em guerra ou por malfeitores de baixa estirpe, frases que exprimiam os seus desejos mais vis. Era com essas palavras que pretendiam governar o povo. Além disso, eu já tinha vivido a lei marcial quando tinha cerca de vinte e poucos anos. A censura à imprensa e às publicações naquela época expunha a fraca literacia das autoridades. Proibiam canções, suspendiam exibições de filmes e retalhavam artigos e poemas — não tanto por discordância política, mas simplesmente porque não os conseguiam compreender. Tudo o que estava além da sua compreensão era proibido pelos motivos mais fúteis. Quando quem governa carece de literacia, o dano causado à população é imenso. Apenas obras superficiais, unidimensionais e sentimentais sobrevivem. Imagine, então, uma poetisa a trabalhar como editora numa cidade do interior, carregando livros recém-impressos até ao gabinete dos censores. Que sensação horrível deve ser essa.

No fim, o veredicto foi proferido, a destituição foi anunciada, e logo em seguida ergueu-se um coro de elogios à decisão escrita do tribunal. As pessoas consideraram-na uma obra-prima, apesar do vocabulário simples e corriqueiro — escolhido, diziam, levando em conta os diferentes níveis de literacia da população. Era resoluta, atrativa e com um articulado perfeito. É claro foi isso mesmo que senti. Correu o rumor de que os magistrados haviam atrasado a sentença porque passaram muito tempo a apurar a linguagem, tornando-a acessível a cidadãos com capacidades de leitura mais limitadas. Surgiu então uma moda: copiar a decisão à mão. Uma livraria online chegou a vender cadernos especiais para transcrevê-la. Eu ouço frequentemente dizer que alguns leitores copiaram à mão toda a minha coleção de poemas. Exibem orgulhosos esses cadernos nas redes sociais. Sempre que os vejo, preciso dizê-lo, sinto um arrepio. No que se tornaram os meus poemas nas mãos deles?

Copiar à mão para “melhorar a literacia” é hoje uma febre por aqui. Depois de um romancista premiado afirmar que transcrever textos aprimorava tanto a compreensão de leitura como a caligrafia, todos correram a fazer o mesmo. Enquanto isso, novos censores circulam pelas ruas. Não destroem livros fisicamente; deixam-nos murchar como árvores em tempo de seca. Esses censores identificam-se com outro nome: o mercado. Impondo-se como o único padrão, aguardam que qualquer frase que não consigam compreender morra por si própria. Que desapareça. Talvez, no seio de uma comunidade em que todos se tornem censores, sonhem em exercer um grosseiro “bem comum do conhecimento” e mergulhem em conjunto num contentamento despido de imaginação.

Du Fu escreveu uma vez que um homem “deve ler o conteúdo de cinco carroças de livros” (男儿须读五车书). A verdadeira literacia, por outras palavras, nasce de uma vasta leitura. Sem ela, uma pessoa não consegue descrever-se a si própria, construir a narrativa da sua vida, nem articulá-la com os outros. O que a IA produz não é “pensamento em linguagem”. Uma IA condensa os seus dados de treino e produz frases sintaticamente corretas, mas é incapaz de saltar para a dimensão mais profunda onde o significado se forma — onde um texto imagina contextos ocultos, expande, implica, se liga a outros textos e se reanima no momento em que os toca. Uma obra escrita por alguém com verdadeira literacia é expansível, implicativa, ligada a outros textos, e capaz de ativar uma existência renovada sempre que encontra essas conexões; assim, continua a viver nos espaços latentes do futuro. Quando os jovens encontram esse tipo de escrita, adquirem as ferramentas para construir a sua própria narrativa — para se expressarem, criarem e realizarem. Os seres humanos ganham competências ao compor as suas vidas na sua própria linguagem. Sem um ponto de vista narrativo sobre a própria vida, não pode haver reconstrução dessa vida, nem experiência ética.

Entre as nações da OCDE, a Coreia ocupa o primeiro lugar em taxas de suicídio. O suicídio é também a principal causa de morte entre adolescentes no país. Acredito que o cerne desta crise é a falta de sanidade mental em literacia por parte dos estudantes, dos pais e das escolas. Quando os jovens não possuem essa literacia, não conseguem reconhecer objetivamente o estado da própria mente, nem conseguem pedir ajuda. No entanto, na Coreia do Sul, a admissão às universidades é determinada estritamente pela pontuação em testes de escolha múltipla. O treino para assinalar a opção certa começa por embotar a capacidade de pensar e acaba por produzir iliteracia. Pior ainda, muitos homens no nosso país não leem livros. Vá a uma sessão literária: 99 por cento do público serão mulheres jovens. Olhe para os rankings das livrarias online: a maioria dos compradores são mulheres jovens. Nos estádios de basebol, nas salas de cinema, nos concertos de hip-hop: mais uma vez, são as mulheres que preenchem os lugares. Então, onde estão os homens da Coreia? Fiz esta pergunta a muitas pessoas. As respostas convergem: estão sentados em frente a ecrãs, a trabalhar, a jogar, a destruir coisas. E são estes homens de escassa literacia que nos têm governado. Ouçamos as palavras que escolhem: sempre sobre esmagar, punir, exterminar. O resultado é que me encontro agora, enquanto poeta, aprisionada dentro dos seus ecrãs, ainda a tentar escrever.

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A autora: Kim Hyesoon [1955 – ] é uma poetisa sul-coreana. Ela foi a primeira poetisa a receber o prémio de Literatura Kim Su-yeong, o Prémio Literário Midang, o prémio de Poesia Contemporânea e os prémios literários Daesan. Ela também recebeu o Griffin Poetry Prize (2019), o Cikada Prize, O Samsung Ho-am Prize in the Arts (2022), o escritor internacional da Royal Society of Literature do Reino Unido (2022) e o National Book Critics Circle Award for Poetry, o primeiro poeta estrangeiro laureado a ganhar o prémio. Em 2025, recebeu a Internationale Literaturpreis – Haus der Kulturen der Welt por *Autobiographie des Todes*. Foi a primeira vez na história do prémio que uma colecção de poesia foi homenageada. É doutorada em Literatura Coreana pela Universidade de Konkuk. (mais info aqui)

 

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