Espuma dos dias… Não às Universidades de Pacotilha — “As mentiras do Ministro, Pisa e a Crise civilizacional” , por Júlio Marques Mota

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As mentiras do Ministro, Pisa e a Crise civilizacional

Algumas reflexões

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 26 de Setembro de 2026

 

Ainda o ministro mente. Hoje teria dois pontos a comentar sobre o ministro Fernando Alexandre que atingem o patético: 1) exames; 2) a saúde mental da nossa juventude.

1.  Conforme noticia o Expresso, o ministro diz: “foi cumprido, os professores foram fantásticos e, mais uma vez, isso é que incomoda a Fenprof: que correu bem. E a Fenprof fez tudo para que corresse mal“, criticou o ministro da Educação.” (o sublinhado não é meu, é do Expresso)

O sistema correu bem (!) é isto que se conclui, se eu sei ler. Quanto a este ponto fico-me por aqui, pois hoje estou interessado em falar apenas do ponto que se segue.

E o Expresso acrescenta que o ministro acusa a FENPROF de não defender os trabalhadores professores: “Tive dezenas de reuniões com a Fenprof nestes dois anos e meio e nunca a ouvi pedir que fossem pagos os professores classificadores“, afirmou o ministro.

Espantoso, um ministro de um governo de direita, digamos mesmo de direita bastante conservadora – é uma opinião pessoal – acusa a maior central de trabalhadores de não defender os interesses dos trabalhadores . O ministro mente mais uma vez: a FENPROF não poderia nem deveria pedir remunerações por um trabalho de classificação quanto este era considerado como fazendo parte do seu trabalho normal. Correu mal e passou a ser um trabalho externo muito especial (e pago, claro), mas a FENPROF não ia considerar uma tamanha incompetência do ministro para se salvaguardar dela e defender as remunerações adicionais.

Mas olhemos para as datas desta história, compiladas pela IA (Gemini):

a) “O despacho que fixou os valores a pagar aos professores classificadores foi assinado e anunciado no final de julho. [1]

Mas os primeiros sinais públicos e alertas de instabilidade grave no sistema de classificação digital dispararam oficialmente no dia 8 de julho de 2026. [1]

Foi a partir dessa data que os constrangimentos na plataforma digital e na leitura dos códigos QR começaram a acumular-se, forçando o Ministério da Educação a reagir logo nos dias seguintes: [1]

  • 3 de julho de 2026: O calendário já tinha sido preventivamente ajustado devido a “dificuldades técnicas” iniciais (adiando o fim das correções para 14 de julho e a publicação das pautas para dia 17). [1]
  • 8 de julho de 2026: Dispararam os alertas formais de anomalias sistémicas e a sobrecarga na plataforma de classificação digital. [1, 2]
  • 16 e 17 de julho de 2026: O problema atingiu o pico máximo (a “barraca” instalada), com professores a receberem critérios e itens para corrigir já depois do prazo regulamentar esgotado e pautas a serem enviadas às escolas com milhares de notas em falta ou com erros. [1, 2, 3]

b) por seu lado o processo legislativo e de pagamento dividiu-se precisamente em dois momentos chave:

O Despacho dos Valores (Final de julho): O ministro Fernando Alexandre assinou o diploma a 27 de julho, estabelecendo oficialmente a tabela de compensações (como o valor de 1 euro por resposta classificada em suporte digital). [1, 2, 3]

A Autorização da Verba Global (Meados de agosto): Posteriormente, a 14 de agosto, o Ministro da Educação assinou a autorização financeira para a transferência global de 2,67 milhões de euros, permitindo que as escolas processassem os valores a tempo do vencimento desse mesmo mês. [1]

Desta forma, a base legal que regulou os pagamentos foi efetivamente firmada e divulgada na última semana de julho. [1]”

Fim de citação.

 

Simples, a única leitura possível é esta: a barraca estala e depois o ministro para abafar a questão oferece dinheiro aos professores e agora acusa a FENPROF de desde há mais de 2 anos não os ver a exigir dinheiro adicional para os classificadores e por um trabalho que se tudo corresse bem, seria um trabalho normal e não um trabalho adicional.

A FENPROF não podia nem devia exigi-lo na altura, pois ninguém é adivinho para adivinhar que tinha pela frente um ministro que se revelaria tão incompetente e que tudo iria correr tão mal como correu, da mesma forma que o ministro não pode nem deve fazer estas declarações sob pena de poder ser acusado de mentiroso ou de estar numa situação de burnout, tão patéticas são as suas declarações sobre esta matéria. Lembram-se da história das residências, de residências para pobres e/ou para ricos? Creio que estamos numa situação em tudo semelhante. O ministro disse então o que se revelaria ser uma enorme asneira, e agora cai no mesmo erro. Num caso como no noutro e de forma mais ou menos atabalhoada chuta para o lado: a culpa não é dele é dos outros! Aqui o que mais me entristece é a pobreza na sua argumentação – porque se trata de alguém bastante inteligente, isso sei eu bem – que só é entendível se considerarmos que o ministro atravessa uma situação de possível burnout.

Quanto a este ponto nada mais tenho a dizer, pois estou mais interessado no ponto 2, sobre a saúde mental da nossa juventude.

 

2. Vejamos então a posição do ministro sobre o problema mental na nossa juventude, a saúde mental da nossa juventude.

Vejamos; agora a questão da saúde mental – os vouchers do ministro Fernando Alexandre que, sublinhe-se, não deixa de ser uma medida extraordinária se fosse acompanhada pela sociedade como um todo e que nesse projeto se envolvesse, o que é quase impossível na conjuntura atual, e pela modificação das estruturas de ensino do país, o que também é muito difícil, uma vez que nestas é cada vez mais dominante o deserto de ideias que tem estado a secar tudo o que tem a ver com cultura e sem esta, é o que se passa agora,  não há psicólogos que salvem a Universidade e os seus universitários.

Recorrendo novamente à plataforma IA (Gemini):

Os vouchers de psicólogos (formalmente conhecidos como Cheques-Psicólogo) surgiram originalmente em 2024 como um programa para facilitar o acesso dos estudantes do Ensino Superior a consultas de saúde mental no setor privado. A iniciativa foi impulsionada pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação, liderado pelo ministro Fernando Alexandre, em conjunto com a pasta da Juventude. [1, 2, 3]

A evolução e o funcionamento desta medida explicam-se através dos seguintes pontos:

1. O Objetivo Inicial (Ensino Superior)

O programa foi desenhado para combater a crescente pressão sobre a saúde mental dos universitários. Como os gabinetes de apoio psicológico das próprias universidades públicas e privadas tinham listas de espera extensas, o Governo criou um protocolo com a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). O Estado financiava as consultas (inicialmente a 35€ cada), que eram realizadas por psicólogos privados que aderissem à bolsa do programa. [1, 2, 3, 4]

2. Como funciona o sistema atualmente

O processo foi totalmente digitalizado e simplificado: [1]

  • Pedido Online: O jovem (ou o seu representante legal, caso seja menor) faz o pedido diretamente através do portal oficial Pedir Cheque Cuida-te – Psicologia no Gov.pt. [1]
  • Consultas de Avaliação: Inicialmente, são atribuídos cheques para duas consultas de diagnóstico. [1]
  • Continuidade Sem Limite Fixo: Caso o psicólogo valide a necessidade de tratamento contínuo, é o próprio profissional que solicita mais blocos de 5 consultas na plataforma. Deixou de existir um teto máximo de cheques por utente, dependendo apenas do critério clínico. [1, 2]
  • Escolha do Profissional: Após a aprovação do voucher, o utilizador consulta a lista de psicólogos aderentes e agenda diretamente a consulta, presencial ou online. [1]

Fim de citação

 

Tudo isto nos mostra que há um problema grave na sociedade portuguesa: a saúde mental da nossa juventude. A crédito do ministro Fernando Alexandre fica esta saudável linha de orientação política, coisa que nenhum ministro do PS ou do PSD assumiu até hoje, mas ficarmo-nos por aqui é admitir apenas paliativos e com paliativos é duvidoso que cheguemos a algum lado. Ou melhor, caminhamos para um só lado, o de uma morte mais ou menos lenta, mais ou menos violenta, da Universidade, e seguramente que não era para este lado que queríamos ir. Tal como nos doentes em fase terminal, os cuidados paliativos apenas suavizam a violência do fim previamente marcado.

Uma juventude universitária doente, significa uma universidade doente, uma universidade doente significa uma sociedade brutalmente doente, pelo que tratar da juventude significa ter de tratar em simultâneo da sociedade que assim a tem criado. No fundo, trata-se de duas crises interligadas que se alimentam uma da outra. A crise económica e social alimenta-se e dinamiza-se a partir da má qualidade dos quadros dirigentes que as Universidades lhe fornecem, e a crise das universidades alimenta-se e dinamiza-se pela má qualidade das políticas que esses maus quadros impõem às universidades e à sociedade em geral.

Os resultados do PISA foram publicados e o espanto foi geral, com os políticos a atirarem as culpas uns para cima dos outros, como se a questão fosse apenas pessoal e não de um sistema, de uma sociedade em que lamentavelmente se assiste à morte da cultura. Por coincidência, ou talvez não, este foi o nosso primeiro tema na série de textos que estão a ser publicados sob o título geral Crises de Civilização e de Ensino num mundo em profunda policrise em A Viagem dos Argonautas.

Créditos: +Liberdades. Aqui

No gráfico acima podemos ver a realidade portuguesa, de forma mais contrastada, mas com perda da relação de evolução em comparação com os valores da OCDE.

 

Fonte: Edustat aqui

 

Vejamos agora a mesma análise aplicada aos seguintes países: Holanda, Alemanha, França, Finlândia e Suécia, tendo como referência a evolução na OCDE nas áreas de Leitura, Matemática e Ciências.

Fonte: The Guardian, aqui

 

O declínio dos valores de PISA é geral nos países abrangidos, como se ilustra com os gráficos acima, e estes são países desenvolvidos, e tudo isto vem confirmar a importância por nós conferida à série de textos intitulada Crises de Civilização e de Ensino num mundo em profunda policrise que vem sendo preparada há vários meses e está atualmente em publicação. Terminou o primeiro subtema Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico, e está em curso de publicação o segundo subtema A escrita manual e o desenvolvimento intelectual, sobre a importância da mão na construção das estruturas intelectuais. Mas sobre este declínio global revejam-se os textos do primeiro subtema já editados.

Olhar hoje para a evolução escolar exige que se olhe para a evolução social que está ligada, necessariamente, à evolução escolar considerada. Uma escola doente está necessariamente associada à existência de uma sociedade doente e uma sociedade doente não se trata com vouchers de psicólogos, mesmo que estes sejam, e são, muito necessários,  e se tivermos suficientes psicólogos à altura da  gravidade da situação. Sem essa visão de conjunto, a posição à partida honesta do ministro quanto à saúde mental traduzir-se-á apenas em alguns empregos para os licenciados em psicologia e pouco mais.

Importa, pois, olhar para as sociedades em que estas crise se manifestam, importa ir para além dos indicadores sobre educação e aqui vos deixo dois textos de referência que apontam nesse sentido, um de António Teodoro, intitulado O triunfo do ‘achismo’, ou como transformar ideologia em evidência, publicado pelo Expresso e um outro de António Carlos Cortez, publicado pelo Público e intitulado PISA 2025, um retrato fiel: mudar as mentalidades é urgente.

Trata-se de dois textos curtos, de leitura imediata. A estes dois textos acrescento um terceiro texto, de uma outra dimensão, e cuja leitura reputo de quase obrigatório, intitulado Os Monges no Casino – Uma breve teoria sobre os jovens, “a crise da solidão” e a vida no século cujo autor é Derek Thompson, um analista social de referência nos Estados Unidos, onde se toma como referência os jovens adultos e o problema da solidão nos Estados Unidos.

Sobre este último texto deixem-me colocar aqui quatro notas.

Nota 1.

Por volta de 1985 estava eu em Paris na casa de gente amiga quando me interrogam se conheço o fulano X, um aluno na FEUC. Porquê? E dizem-me: é filho de amigos nossos e se o pudesses ajudar, agradecíamos.

Falou-se sobre o assunto e disse-lhes: diz à mãe do rapaz para ir ter comigo no horário de atendimento. E assim foi. E o que se passava, para além das reprovações, havia umas notas baixas. Conversámos bastante e disse-lhe que a única coisa que poderia fazer era arranjar-lhe um grupo de trabalho onde se integrasse. E, entretanto, ensinei-lhe algumas técnicas sobre a forma de estudar e indiquei-lhe um ou outro livro de cultura geral em economia. Precisava de vocabulário, era filho de emigrantes, um “filho deixado para trás”, criado com os avós. Vi com alguma atenção em que grupo o poderia integrar e assim fiz. Sem bengalas que não fosse a solidariedade do grupo onde se integrou muito bem, passou na minha cadeira, integrou-se bem na Faculdade. O exemplo mais chapado da solidão que o oprimia, tinha a ver com as características da cidade, uma cidade relativamente fechada e elitista para quem vem de fora, para quem não vem de berço, mas vem das berças e por curiosidade para mostrar-se com alguma “aisance” na vida, vinha de Mercedes para a faculdade. Tudo isso passou, acabou depois o curso com uma relativa facilidade. Deve-o basicamente a si-mesmo, e, porque não dizê-lo, deve-o também à solidariedade dos colegas com quem depois se ligou. A história dispensa comentários e como conclusão para os dias de hoje, este encontro de ontem entre um professor e um aluno que ele não conhecia para lhe encontrar uma tábua de salvação, hoje não existiria. Os catedráticos de aviário têm mais que fazer e os que ainda não são catedráticos de aviário tem mais que fazer para o poderem vir a ser.

Nota 2.

A leitura do texto de Derek Thompson sobre os gooners, um termo de que nunca tinha ouvido falar, fez-me lembrar uma conversa já muito antiga com um psiquiatra amigo.

Por volta do início dos anos 90, em conversa com um saudoso psiquiatra meu amigo falávamos muitos vezes dos subterrâneos da vida e da dor que não víamos em muitas das pessoas que vendiam bem estar nos seus empregos e nos cafés por onde passávamos. De entre as muitas histórias clínicas de que falávamos e comentávamos do ponto de vista social, sem nunca haver um deslize quanto a identificação pessoal fosse de quem fosse, contou-me uma história real que me veio à cabeça ao ler o texto de Derek Thompson.

Uma paciente sua, na casa dos 30 a 35 anos, enfermeira de profissão, tinha como companheiro um diplomado em engenharia eletrotécnica. Viviam bem, situados na faixa de uma pequena burguesia relativamente desafogada, nada a apontar de conflito ao casal até que um dia, ou melhor, uma noite ao dar meia-volta na cama depois de um sono pesado descobre que o parceiro não estava. Despertou. Acordou, levantou-se, percorreu a casa e foi ao escritório e esta foi a última divisão onde foi. A porta estava fechada, bateu à porta, chamou pelo companheiro meia aflita e ouviu: vou já. Levou algum tempo a porta a abrir-se e depois uma explicação simples e dita de forma convincente: estava com insónias, não te queria incomodar. A história de vez em quando repetia-se e havia sempre a mesma explicação: insónias. No escritório havia um computador com ligação à Internet, havia uma máquina de filmar a que ela nunca ligou e sublinhe-se: estávamos na época da moda dos chats de conversação e dos encontros possibilitados por essa via. Um dia ao limpar o escritório fixou a posição da câmara. Depois veio a verificar que a câmara tinha mudado de posição. Começou a sentir-se atordoada, foi ao médico, a este meu saudoso amigo psiquiatra. Este, homem batido pela experiência de vida de muitos pacientes, homens e mulheres que o consultavam, este meu amigo, um especialista em sexologia clínica, questiona-a sobre a apetência sexual do companheiro depois de cada noite de insónias. Diz-nos que depois de cada noite de insónias e durante dias seguidos a motivação sexual da parte dele desaparece O casal fragmentou-se e houve separação. A enfermeira é depois vítima de doença prolongada e anos depois morre. Do companheiro este meu amigo meu nunca soube mais nada.

E quanto a esta histórias, a conclusão deste meu  amigo psiquiatra aproxima-se de um dos casos de que nos fala Derek Thompson: trata-se de voyeurismo sexual, utilizando-se máquina de filmar de um lado e do outro, voyeurismo este que seria acompanhado de masturbação intensiva pela parte dele e pela da parceira do outro lado dos fios eletrónicos [1]. E a minha questão surgiu: mas porque é que ela não levou o companheiro ao teu consultório? O tratamento seria longo e a relação afetiva desfazer-se-ia rapidamente, o que aconteceu antes de qualquer terapia dar resultados sempre difíceis de obter. O hábito dele não seria de agora, teria sido ganho no fim da sua adolescência E já agora: tu nem imaginas o mundo subterrâneo de sofrimento que circula por aí, e é mesmo melhor nem pensares nisso. E esta história simples, está também ligada ao texto de Derek Thompson.

Nota 3.

Hoje os jogos de azar estão fortemente difundidos e é disso que nos fala quer Derek Thompson quer Dostoiévski, em “O Jogador”. Sobre a difusão dos jogos de azar, hoje à escala planetária, diz-nos muito recentemente um especialista dos mercados financeiros, Read Max: 

“Mas a procura de dinheiro fácil, criada pela crescente anexação das nossas vidas sociais e culturais cotidianas a híbridos de casino e mercado, como os mercados de previsão (ou, possivelmente, os próprios media sociais, não será satisfeita apenas por uma população preexistente de trouxas membros da John Birch Society, uma organização da extrema-direita. Falamos muito sobre a “crise da solidão masculina”, mas, na minha opinião, não falamos o suficiente sobre a “crise da manipulação masculina”: o processo pelo qual jovens são continuamente cultivados — por políticos, influenciadores, podcasters, comentaristas desportivos e pela própria estrutura das redes sociais — como bobos e trouxas, tanto para o enriquecimento e o empoderamento de políticos e movimentos trumpistas quanto a serviço dos lucros de uma lista cada vez maior de indústrias de jogos de azar e afins, entre elas as operações de compra e venda de títulos no mesmo em dia em bolsa, dito o day trading de retalho via aplicativos, a especulação com criptomoedas, os mercados de previsão e, claro, as apostas desportivas propriamente ditas.”

Mas deixemos a lógica dos sistemas financeiros, falemos aqui de uma pequena e dramática história ligada ao jogo. Um colega meu dos tempos da Universidade, filho de uma pequena burguesia comercial lisboeta, já depois de estar a trabalhar como economista viciou-se no jogo. Percebeu ainda cedo que com esse vício estaria a pôr em risco a família, os pais e os irmãos, assim como a própria companheira. Escreveu a todos os casinos para que o proibissem de entrar nas salas de jogo e ele próprio deixou de jogar. Deixou, deixou… até que um dia o vício foi mais forte do que a necessidade de não pôr os pés num casino e furou a proibição. Entrou no casino e jogou… jogou até que perdeu tudo o que tinha para poder perder. Saiu do casino, meteu-se no seu Mercedes de topo de gama, acelerou, acelerou até que foi frontalmente bater num poste e morreu.

Criado o vício, é difícil largá-lo tal como se viu no caso que acima acabámos de relatar: E disto não foi só o psiquiatra amigo que me falou, também o texto de Derek Thompson nos fala largamente sobre o jogo na sociedade americana. Hoje mesmo o Presidente Lula da Silva vem-nos falar da gravidade da difusão do jogo na sociedade brasileira e da gravidade social que este comportamento de risco, ou de ausência da consciência sobre ele, está já a assumir na sociedade brasileira!

Estes dois últimos casos podem ser vistos como práticas desviantes praticadas desde a adolescência até ao fim da idade de jovem adulto e tornarem-se, pois, estruturais. Os resultados foram o que foram.

Depois de muito ler durante a preparação da série de textos Crises de Civilização e de Ensino num mundo em profunda policrise, passei a considerar que grande parte do que nos acontece durante a infância até ao fim da situação de jovem adulto tem um impacto profundo nas capacidades e nos desafios que iremos enfrentar mais tarde na vida. No tema 3 da série referida iremos publicar alguns textos que vão nesse sentido. E é nesta lógica que entendo os dois casos citados.

Ainda agora, junho de 2026, um artigo publicado na terça-feira na revista Brain Health, intitulado The criticome as the window of becoming: Toward a novel and comprehensive framework for understanding the critical period of information integration in human development [2] conclui que as nossas experiências sensoriais, o movimento e as relações sociais durante o crescimento e até aos 25 anos, juntamente com a nossa cultura e o nosso ambiente, determinam profundamente e, por vezes, de forma irreversível, aquilo em que nos tornamos, especificando os autores do artigo que existe uma janela crítica de desenvolvimento que vai desde o nascimento até aos 25 anos. Aquilo que fica gravado no cérebro durante esse período irá “determinar quem somos para o resto da nossa vida”.

Aceitamos esta tese, mas ao fazê-lo somos também transportados para um outro cenário: a partir desta tese podemos inferir que os custos sociais que a sociedade irá sofrer daqui a uma ou duas décadas, por desleixo na formação das novas gerações, será elevado, elevadíssimo, uma vez que muitos dos disfuncionamentos que têm sido criados terão efeitos que serão irreversíveis.

Exemplos de disfuncionamentos:

1) a utilização massiva de meios digitais que são agora utilizados pelas crianças e jovens;

2) a presença crescente da IA nas Universidades a minar todo o ensino e com esta a ser utilizada sob o silêncio dos nossos catedráticos de aviário, dos diretores das nossas faculdades, dos nossos reitores (de r minúsculo) e do Ministro de tutela também.

Estes dois exemplos de disfuncionamento, entre muitos outros possíveis, mostram bem o nosso desleixo perante a formação das novas gerações.

Neste cenário poderemos dizer que o custo destes disfuncionamentos, presentes e futuros, será o preço a pagar pela opção feita nestas últimas décadas pela generalidade dos nossos políticos de que entre contas públicas certas no futuro (a saírem sempre erradas) e gerações de cabeças certas eles optam pelas contas públicas certas e, como se tem visto, estas contas saem sempre erradas.

Seria urgente um debate nacional sobre este tema, mas a resposta de toda esta gente muito importante é apenas o silêncio.

Nota 4.

Este verão em férias estivais dormi na mesma sala que uma pessoa minha familiar, com todas as janelas abertas para um terraço e com uma ventoinha silenciosa no meio da sala a garantir os fluxos de ar. Era a única forma de conseguirmos dormir dadas as elevadas temperaturas que se estavam a viver neste mês de agosto. Certa noite, pelas cinco da manhã tenho necessidade de ir à casa de banho, mexo-me, no sentido de me levantar. E a minha companheira de sala pergunta-me: Estás acordado? Vou à casa de banho, disse eu. Desde as duas horas que estou acordada e já chorei muito. Já volto, disse-lhe. E rapidamente voltei e perguntei: choraste, porquê. Tenho medo. Medo de quê? De não ter futuro. Repara: o meu senhorio não renova o contrato do aluguer da casa.  Vamos todos para a rua. Irei depois pagar talvez cerca de 600 euros com tudo incluído, e isto é metade do meu ordenado. Como é que posso ter direito a ter um companheiro, a pensar em ter uma casa e não um quarto, a ter filhos, como é que posso? Se calhar nem direito para ter um cão eu terei!

Dei-lhe um abraço e disse-lhe: a maioria dos jovens como tu está em pior situação que tu. Se isso te acontecer, isso já terá acontecido a muitos. muitos jovens e, neste caso, o mais provável é que os governos que vos conduzem a esta situação caiam. Todos vocês têm é de aprender com isto em vez de andarem a votar em quem não devem e que claramente não se preocupa com os vossos problemas. Os jovens têm de aprender com o seu sofrimento em vez de estarem calados como têm estado. As convulsões sociais aproximam-se e vocês têm de estar de pé, bem de pé, precisam de ganhar consciência política, nas ruas e nas urnas sobre os vossos direitos e serem capazes de rasgar com força todos os panos negros com que vos cancelam o futuro. Dei-lhe um abraço e disse-lhe: vai dormir e não te esqueças que antes dessa situação te poder acontecer, já a revolta popular terá chegado chegado [nota ed. na data da publicação deste texto, veja-se o que se está a passar em França com os protestos estudantis]. E, seja como for, estamos cá para te apoiar no que for necessário. E fomos dormir.

Mas quem a seguir ficou muito tempo sem conseguir dormir fui eu. Dava voltas e voltas na cama a pensar nesta juventude que não nasceu para ser infeliz, mas que muita gente, e pasme-se, em nome da democracia, está violentamente interessada em mantê-la assim. Não, não podemos considerar que esta geração passará toda uma vida com o futuro cancelado, não podemos pensar que a atual situação significa para a nossa juventude um destino irrevogável, um fim natural para as suas experiências de vida, hoje, amanhã e depois. Por fim, já quase com o dia a chegar é que me deixei dormir.

Esta história verdadeira diz-nos uma coisa: estamos a criar uma juventude sujeita a uma forte tensão de ordem emocional e a roubar-lhes os horizontes de futuro a que têm direito. Têm medo do futuro os nossos jovens e isso bloqueia-os na sua alegria de viver e leva-os para as depressões a que se refere o ministro. E repetindo-me mais uma vez, não são os vouchers a psicólogos que serão a solução, mas sim a criação de uma outra estrutura de ensino, do pré-primário até ao final do superior, com clara definição de objetivos para cada faixa etária, onde se dignifique seja o ato de estudar, seja o ato de ensinar, onde se respeitem direitos e se exijam responsabilidades, a professores e a estudante. Isto é um dos passos fundamentais para se criar uma sociedade onde cada um de nós assuma as suas devidas responsabilidade perante si e perante os outros e em que cada um de nós possa usufruir dos direitos a que deve ter direito, como, por exemplo, à saúde, à educação, à formação de qualidade ao longo da vida, à habitação, a empregos condignos nas suas condições de trabalho, nas suas remunerações e na estabilidade profissional, no fundo, direito a tudo o que agora infelizmente não se tem em condições minimamente aceitáveis.

O ministro Fernando Alexandre é economista e teve uma sólida formação teórica, sabe, portanto, que o que estou a dizer é verdade e, se o sabe, posso então dizer mais uma vez, que conscientemente o ministro Fernando Alexandre mente quando nos quer levar a pensar que os vouchers são a solução.

 

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Notas

[1] Aqui a expressão “do outro lados dos fios eletrónicos” tem sentido metafórico e funciona como uma imagem para ilustrar o voyeurismo digital, pois seguramente não haveria fios na ligação, embora se continue a dizer “do outro lado da linha”.

[2] Criticoma (Criticome): É um termo novo criado para descrever o conjunto total de registos e experiências (sensoriais, motoras, sociais, culturais e ambientais) que o cérebro absorve e integra desde a gestação até por volta dos 25 anos de idade, período em que a plasticidade cerebral é máxima.

 

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