BEM VINDOS AO SENTIMENTO DE REVOLTA CONTRA A TROIKA, BEM VINDOS CONTRA A MENTIRA HILARIANTE DE BRUXELAS – Por JÚLIO MARQUES MOTA

PRIMEIRA PARTE

Ontem foi dia de luta contra a Troika. Milhares de pessoas na rua, embora não tantas quantas as que se esperaria. No caso de Coimbra, um dado importante, os estudantes genericamente na manifestação não estavam, ou pelo menos o seu órgão representativo máximo, a AAC, estava ausente. Foi pena e de resto havia no meio da manifestação um cartaz onde se dizia mais ou menos o seguinte: onde está a AAC? Estava o TEUC, estava alguém dos estudantes, dir-me-ão, mas o cartaz era claro, onde está a AAC? Questão tanto mais grave quanto se está perante mais um ataque, e brutal, contra as Universidades. Mas enfim, como alguém me dizia, não há por aqui cerveja a oferecer, a justificar a ausência dos estudantes enquanto corpo! Veja-se a latada, veja-se a Queima das Fitas, veja-se a noite dos horários, em que a cerveja corre e escorre como a água. O que é preciso é adormecer a nossa juventude, pode-se pois concluir. A geração dos que vão sair formados dentro de dois a três anos nada têm a ver com a geração dos recém-licenciados de há dois a 3 anos para trás ou mais . Nada mesmo. Os novos licenciados começam a ser já os filhos da Maria de Lurdes Rodrigues, de Mariano Gago  e serão  igualmente  filhos do Nuno Crato, ou seja, serão os futuros filhos da ignorância com que se quer encher o país. Depois, pelo sistema serão completamente descartáveis, bem mais do que o são os licenciados de ontem e de alguns de agora que em qualidade lhes sejam equivalentes. Mas não é para falar dos estudantes que escrevo este texto à volta do tema Que se lixe a Troika!

Mas se falamos de ausências, de outras ausências nos podemos igualmente ressentir. Com efeito  fica-se com a sensação de que para muita gente de esquerda as manifestações só são  válidas se organizadas pelos respectivos partidos o que, no caso português, levanta uma questão curiosa, por exemplo, no que se refere ao Partido Socialista: sendo o principal partido da oposição este quase nunca se manifesta nas ruas. Então por essa ordem de ideias a maioria das pessoas a este partido pertencentes nunca vão a manifestações. Simples se isto não fosse grave pois fica-se com a ideia de que o PS quer dar a ideia à potencia dominante, a Troika,  de que é  um partido ordeiro e por isso deve ser aceite candidato ao poder. Não acredito em nada disto, mas foi a opinião de que ouvi na manifestação, até porque se assim fosse, mantinha-se a ideia dos Occupy de que à população se dá a escolher entre o mau e o pior, ou ainda, de que as eleições como caminho para a Democracia são como na Internet perante um erro em que nos indicam como saída, um caminho, um site INEXISTENTE, Erro 404. E não acredito na hipótese da Democracia sem saída, a da hipótese da Democracia bloqueada. Há sempre uma saída,  era a palavra de ordem da Manifestação e a realidade vai impô-la nem que seja à revelia dos diversos partidos assumidos claramente como de esquerda. Depois, serão então os partidos à procura de apanhar essa mesma realidade.

No dia anterior e correspondendo a um pedido do meu amigo Carlos Loures escrevei uma peça relembrando os 84 anos da queda da bolsa em Wall Street, relembrando as mentiras em que assenta a política oficial da Troika e dos governos dos países que pertencem à União Europeia, cujo trajecto se assemelha e muito ao trajecto da Alemanha dos tempos de Hitler.. Seja pois bem-vindo ao mundo da mentira hilariante, é o que já uma vez escrevemos à volta deste tema, e é o convite que agora retomamos.

Face a este texto sobre a quinta feira negra e publicado pelo blog A viagem dos Argonautas e como reacção ao que leu, uma mão amiga mandou-me um artigo de Ambrose Evans-Pritchard, jornalista do The Telegraph, um jornalista de renome internacional mas que politicamente não faz parte do meu clube, claramente. Um jornalista importante, de leitura sempre bem interessante. Pois bem, nesse artigo, referia-se ele a um outro artigo assinado pelo que ele próprio apelidava de bando dos cinco. O bando dos cinco? Não deixa de ser curioso que as autoridades europeias sejam assim apelidadas por um circunspecto e reputado jornalista britânico. Com efeito o bando dos cinco não é nada mais nem nada menos que Jeroen Dijsselbloem, Presidente do Eurogrupo, Olli Rehn, comissário europeu e Vice-Presidente da Comissão, Jörg Asmussen, representante alemão no Banco Central Europeu e membro da direcção do BCE, Klaus Regling, director do Mecanismo Europeu de Estabilidade, MEE, e Werner Hoyer, Presidente do BEI.

E, em síntese, que nos dizem os homens que compõem este gang? Dizem-nos exactamente o contrário do que pensam os milhares de manifestantes que vieram ontem para a rua, a manifestarem-se contra a presença de uma potência ocupante a TROIKA e, portanto, a manifestarem-se igualmente contra aqueles subservientes que a esta se submetem e se lhes oferecem para levar a cabo os seus funestos desígnios, a manifestarem-se contra a vassalagem prestada pelas autoridades dos países submetidos ao poder de Bruxelas. Este bando dos cinco, este bando de gangsters,  diz-nos então exactamente o oposto do que escrevi na peça sobre os 84 anos da bolsa e que ilustrei com dados oficiais recentes! Pois bem que nos dizem estes senhores portanto?

Dizem-nos:

“…a economia da Europa está a entrar num decisivo novo período. A retoma está já ao seu alcance, e alguns dos países atingidos pela crise estão-se a preparar para sair dos seus programas de apoio financeiro ou de resgate.

A crise não ainda acabou, e existem ainda grandes desafios pela frente. Mas isto pode ser o ponto de viragem que não podemos perder. O nosso sucesso depende de continuarmos ou não a modernização das nossas economias e a redução da dívida pública.

As perspectivas económicas da zona euro têm melhorado nos últimos meses. Um crescimento modesto do PIB retomado no segundo trimestre do ano. As ordens de encomenda e o PIB aumentaram e os rendimentos dos títulos da dívida pública de muitos países diminuíram. O desemprego, enquanto seja ainda muito elevada, parece estar-se a estabilizar. Um crescimento mais modesto é a previsão para o segundo semestre deste ano, e a recuperação deve acelerar no próximo ano, enquanto mantivermos o plano.

“Permanecer na corrida” significa ficarmos agarrados à nossa estratégia de crescimento. Significa continuar a reduzir os níveis de dívida que pesam sobre o crescimento e sobre o financiamento de pequenas e médias empresas que tem estado perante grandes dificuldades de financiamento. Significa forjar e avançar com as reformas estruturais de modo a aumentar a competitividade económica, atrair investidores privados e garantir que as PME,  que têm estado sujeitas a estrangulamentos financeiros persistentes,  tenham acesso ao financiamento a longo prazo através do Banco Europeu de Investimento. Significa fazer avançar o debate sobre o maior aprofundamento e fortalecimento da nossa União Económica e monetária. E isso significa a construção de um sector financeiro saudável mantido através de uma união bancária.

(…)

A prioridade será tornar esse processo [ de ajustamento] tão suave quanto possível, garantindo-se simultaneamente que os países, como Chipre, que estão na fase inicial dos seus programas de ajustamento, continuem a receber o suporte necessário para reestruturarem as suas economias. Esta nova fase pode exigir novos tipos de apoio ainda a serem concebidos, que deverão estar centrados em fazer que os países consigam ter a capacidade de implementar reformas e de aumentar ainda mais o seu crescimento.

A Irlanda e a Espanha vão sair dos seus programas nos próximos meses. Depois de uma impressionante reestruturação dos seus respectivos sectores financeiros e da implementação de ambiciosos planos de redução do défice, a confiança nestes países está a regressar e a melhorar as suas perspectivas.

O programa do Portugal chegará ao seu fim na primavera de 2014. As reformas também neste país estão a começar a dar frutos, com a melhoria da competitividade e o reequilíbrio da economia através do crescimento económico activado pela via das exportações. Ainda aqui continuamos a estar perante desafios importantes. A base das exportações de Portugal precisa de ser ampliada, as reformas do sector público devem ser totalmente implementadas e a consolidação orçamental deve continuar.

A Grécia está num momento crítico. A sua situação orçamental têm andado em círculo, isto é, não tem melhorado e o governo grego tem uma boa possibilidade de alcançar um excedente primário este ano. As medidas para reduzir a burocracia e para abrir à concorrência mercados até aí relativamente fechados estão a começar a fazer efeito.

A competitividade da economia grega está a melhorar e a economia esta a reequilibrar-se via o sector das exportações. Ainda é necessário continuar a trabalhar sobre as áreas tais como a reforma do sector público e a administração fiscal.

Em geral, é justo dizer-se que as realizações alcançadas em países sujeitos aos programas de ajustamento da Troika têm sido significativas. Alguns desses países preparam-se mesmo para sair dos seus programas de apoio, as perspectivas para a zona do euro tem melhorado. As próximas saídas irão provar que a nossa abordagem de resposta à crise está correcta: através do Mecanismo Europeu de Estabilidade, oferecemos temporariamente empréstimos a taxas de juros atraentes para os países da zona do euro em crise. Como contrapartida, queremos que seja respeitada uma rigorosa condicionalidade macroeconómica.” Bem claros, estes senhores, estamos pois a caminho do mundo de Pangloss e para isso basta continuar a insistir no mesmo, nas reformas, no combate à dívida e nas políticas de austeridade. Simplesmente assim.

(continua)

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