Parecia um dia de Verão como os outros. Salazar passava as férias no Forte de Santo António do Estoril, como, acontecia todos os anos. No terraço, batido pelo sol, preparava-se para ler os jornais diários enquanto o calista, o senhor Hilário, lhe iria tratar dos pés. Segundo se disse depois, o ditador sentou-se pesadamente sobre a cadeira de lona, ou melhor, deixou-se cair. A cadeira não terá aguentado o impacto, desconjuntou-se e a cabeça de Salazar bateu violentamente nas lajes.
Corroborando esta versão do calista e da D. Maria de Jesus, Franco Nogueira (que não assistiu ao acidente) conta que, queixando-se de dores no corpo e, em particular, na cabeça, não deixou que chamasem o médico e foi tomando aspirinas. Esta a versão oficial, com mais ou menos pormenores. Há uma segunda versão. O barbeiro Manuel Marques, que assistiu à queda, afirma que a cadeira estava fora do lugar e Salazar distraído, olhando os jornais, caíra desamparado. Uma terceira versão: a queda terá sido na banheira; para evitar que o País fosse sacudido por anedotas tendo a nudez do ditador como tema principal, se inventou a história da cadeira, com descoordenação entre a versão do ministro e a do barbeiro. Um ex-ministro afirmou que a versão correcta é a da banheira. Em suma, Salazar caiu, bateu com a cabeça e não se quis tratar.
As dores não passavam e as aspirinas já não faziam efeito. Só mais de duas semanas depois, em 4 de Setembro, aceitou que estava doente. No dia 6 foi internado no Hospital de São José. Há discrepâncias quanto ao diagnóstico – hematoma intracraniano, trombose cerebral… mas unanimidade na urgência de operar. Em 7 de Setembro foi operado no Hospital da Cruz Vermelha. Ficou incapacitado e o presidente Tomás, em 27 de Setembro, nomeou Marcello Caetano para o substituir. E começou a comédia.
Um amigo jornalista chamou a atenção para o potencial dramático da situação. Mostrou-me uma notícia do Le Monde, onde se dizia que Salazar não sabia que fora substituído e que os «ministros» do seu governo iam à residência de S. Bento, para reuniões do «conselho de ministros». E, gente que estava à frente de empresas ou em cargos políticos, prestava-se à farsa.
Soube depois que aquele teatro, dirigido pela D. Maria de Jesus, tinha uma logística complicada. Um grupo de senhoras ia todas as manhãs a S. Bento preparar os jornais para o «Senhor Professor». Cortavam todas notícias que pudessem desmascarar a farsa. As visitas das crianças das escolas, ritual que vinha desde os tempos heróicos da «Revolução Nacional» continuavam. Um dia, uma das senhoras quis brilhar e perguntou a uma menina, supondo-a devidamente amestrada: «- Diz lá, querida, quem é o Senhor Presidente do Conselho?» «- É o Senhor Professor Marcelo Caetano!», respondeu a garota, provocando o pânico entre as senhoras do grupo e as professoras. Mas Salazar não reagiu, manteve o sorriso apático e distante. O tal ex-ministro do seu último governo garante que, em momentos de lucidez, sabia o que se passava, fingindo que se deixava enganar.
Deixo a ideia a um dramaturgo: um ditador tem um acidente, fica afectado. Os ministros e secretários de Estado, que já estão todos a olhar pela vida, em conselhos de administração de empresas públicas, de bancos, de multinacionais, no dia do conselho de ministros têm de deixar os seus afazeres e ir ao Palácio reunir e despachar com sua excelência. Deliberando, intervindo, sugerindo, como se fosse a sério. Perante um ditador que talvez saiba o que se passa, mas que finge não saber…
Uma peça e tanto.
