Foi no dia 3 de Agosto de 1968. Faz hoje 43 anos – Carlos Loures

 

Parecia um dia de Verão como os outros. Salazar passava as férias no Forte de Santo António do Estoril, como, acontecia todos os anos. No terraço, batido pelo sol, preparava-se para ler os jornais diários enquanto o calista, o senhor Hilário, lhe iria tratar dos pés. Segundo se disse depois, o ditador sentou-se pesadamente sobre a cadeira de lona, ou melhor, deixou-se cair. A cadeira não terá aguentado o impacto, desconjuntou-se e a cabeça de Salazar bateu  violentamente nas lajes.

 

Corroborando esta versão do calista e da D. Maria de Jesus, Franco Nogueira (que não assistiu ao acidente) conta que, queixando-se de dores no corpo e, em particular, na cabeça, não deixou que  chamasem o médico e foi tomando aspirinas. Esta a versão oficial, com mais ou menos pormenores. Há uma segunda versão. O barbeiro Manuel Marques, que  assistiu à queda, afirma que a cadeira estava fora do lugar e Salazar distraído, olhando os jornais, caíra desamparado. Uma terceira versão: a queda terá sido na banheira; para evitar que o País fosse sacudido por anedotas tendo a nudez do ditador  como tema principal, se inventou a história da cadeira, com descoordenação entre a versão do ministro e a do barbeiro.  Um ex-ministro afirmou que a versão correcta é a da banheira. Em suma, Salazar caiu, bateu com a cabeça e não se quis tratar.

 

As dores não passavam e as aspirinas já não faziam efeito. Só mais de duas semanas depois, em 4 de Setembro, aceitou que estava doente. No dia 6 foi internado no Hospital de São José. Há discrepâncias quanto ao diagnóstico – hematoma intracraniano, trombose cerebral… mas unanimidade na urgência de operar. Em 7 de Setembro foi operado no Hospital da Cruz Vermelha.  Ficou incapacitado e o presidente Tomás, em 27 de Setembro, nomeou  Marcello Caetano para o substituir. E começou a comédia.

 

Um amigo jornalista  chamou a atenção para o potencial dramático da situação. Mostrou-me uma notícia do Le Monde, onde se dizia que Salazar não sabia que fora substituído e que os «ministros» do seu governo iam à residência de S. Bento, para reuniões do «conselho de ministros». E, gente que estava à frente de empresas ou em cargos políticos, prestava-se à farsa.

 

Soube depois que aquele teatro, dirigido pela D. Maria de Jesus, tinha uma logística complicada. Um grupo de senhoras ia todas as manhãs a S. Bento preparar os jornais para o «Senhor Professor». Cortavam todas notícias que pudessem desmascarar a farsa. As visitas das crianças das escolas, ritual que vinha desde os tempos heróicos da «Revolução Nacional» continuavam. Um dia, uma das senhoras quis brilhar e perguntou  a uma menina, supondo-a devidamente amestrada: «- Diz lá, querida, quem é o Senhor Presidente do Conselho?» «- É o Senhor Professor Marcelo Caetano!», respondeu a garota, provocando o pânico entre as senhoras do grupo e as professoras. Mas Salazar não reagiu, manteve o sorriso apático e distante. O tal ex-ministro do seu último governo garante que, em momentos de lucidez, sabia o que se passava, fingindo que se deixava enganar.

 

Deixo a ideia a um dramaturgo: um ditador tem um acidente, fica afectado. Os ministros e secretários de Estado, que já estão todos a olhar pela vida, em conselhos de administração de empresas públicas, de bancos, de multinacionais, no dia do conselho de ministros têm de deixar os seus afazeres e ir ao Palácio reunir e despachar com sua excelência. Deliberando, intervindo, sugerindo, como se fosse a sério. Perante um ditador que talvez saiba o que se passa, mas que finge não saber…

 

Uma peça e tanto.

 

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