Um regresso à montanha mágica – Carlos Loures

 

A mesma sala assume dimensões diversas consoante a apreciamos na infância ou na idade adulta – às crianças as coisas parecem sempre maiores, por razões óbvias de diferença de escala. Quantas desilusões temos ao regressar em adultos a locais «grandiosos» da nossa infância e os encontramos pequenos, acanhados, insignificantes… Tinha os meus quinze ou dezasseis anos quando li «Montanha Mágica», de Thomas Mann. Li-o numas férias de Verão na Biblioteca Nacional que funcionava ainda no velho edifício do Largo da Biblioteca, junto à Rua Vítor Córdon, pegado com a Escola Superior de Belas Artes.

Fiquei maravilhado e não descansei enquanto não arranjei dinheiro para o comprar e poder ler quantas vezes quisesse. Tal foi a pedrada, que, no meu círculo de amigos, durante semanas, quando eu abria a boca, havia quem dissesse – «Lá vamos nós apanhar com a montanha…». E, quase sempre era verdade. Transformou-se, para mim, num paradigma da arte de bem escrever. E fiz campanha por Mann, com a mesma convicção com que, depois, lutei por Humberto Delgado. Os amigos foram lendo e, arranjei adeptos, embora houvesse uma facção que entendia que o livro não era assim tão bom (ninguém se atreveu a dizer que era chato) – nem enredo tinha, diziam os mais viciados na efabulação cinéfila – o que, em parte, até é verdade.

O grupo, que naquele Verão vegetava entre as praias da Linha ou da Caparica e os cafés da Baixa, esteve durante algum tempo dividido entre os amantes da montanha e os seus detractores. Até que, com o fim das férias, chegou outra mania qualquer e o Thomas Mann foi arquivado. O livro que comprara com tanta dificuldade e que circulava por todas aquelas mãos e locais, foi ficando gasto e desapareceu. Perdi-lhe o rasto, tal como quase vinte anos mais tarde me aconteceu com o «Couraçado Potenkin». O filme do Eisenstein foi sendo emprestado a amigos de amigos de amigos e sumiu-se numa espécie de triângulo das Bermudas. Mas, não saiamos da «Montanha Mágica».

Durante aquelas semanas Lisboa passou a ser Hamburgo, a Caparica onde me deslocava diariamente no ferry que partia do Cais do Sodré transmutou-se na cidadezinha dos Alpes suíços. Eu, obviamente, era Hans Castorp, preocupado com a transcendência que aflora à superfície de coisas aparentemente simples, com a guerra cuja eclosão, ainda antes do atentado de Sarajevo, se adivinhava iminente… Não vos vou contar a história passada na sua maior parte em Davos, no microcosmos de um sanatório povoado por médicos, enfermeiros e tuberculosos. Uma imagem de um mundo doente naquele ano de 1912. E a omnipresença da montanha, que vemos na fotografia.

Ao longo do tempo fui, instintivamente, evitando reler a obra que, em 1924, terá motivado a atribuição do Nobel a Mann. Há semanas, num alfarrabista que funciona no Palácio da Independência, apareceu-me pela frente o feiticeiro livro da minha adolescência. Por três euros, recuperei esses dias quentes de há décadas atrás, nas centenas de páginas abrigadas pela capa amarela e verde, concebida pelo Bernardo Marques, na edição da colecção «Dois Mundos» dos Livros do Brasil. Li-o mais uma vez, agora com os olhos auxiliados por óculos e com a cabeça com menos cabelo, mas atafulhada de saberes e de experiências (a maior parte deles inúteis) de cuja existência, aos dezasseis anos nem sequer suspeitava. E não é que o velho se emocionou dando razão ao garoto?

É, de facto um livro admirável, uma lição de bem escrever, de efabular sem um fio ficcional muito definido (a tal falta de enredo que os gandulos detectaram). Só notei uma falha que in illo tempore me escapou – a tradução brasileira, embora revista para a norma portuguesa, não me parece de grande qualidade. Feliz de quem saiba alemão e possa aceder ao verbo do velho Thomas sem intermediários – directamente do produtor ao consumidor!

Sei que nos anos oitenta se fez um filme alemão em que, entre outros, entravam o Rod Steiger e o Charles Aznavour. Julgo que se fez também uma série televisiva. Não vi nem um nem outra e parece que fiz bem. Há coisas com que não se brinca.

Nada direi sobre a história, o enredo, o entrecho. É muito volátil e quase irrelevante, pois as grandes linhas de força da obra de Mann são as eternas preocupações do ser humano – o amor, o temor e a consciência da inevitabilidade da morte, a insustentável leveza da humanidade que transportamos em nós, sempre pronta a regredir ao dealbar dessa humanidade. E, também, o carácter subjectivo que o espaço e o tempo assumem; tão diferentes que, em geral, as mesmas coisas são vistas por um adolescente e por ancião. E tão iguais, como me aconteceu com a imperecível beleza da «Montanha Mágica». O jovem e o velho estão de acordo num aspecto – Mann, na sua «Montanha Mágica», ensina-nos que um ser humano transporta em si toda a simples complexidade do Universo.

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