Um “Madoff” em terras da Bretanha, de Bertrand Bissuel. Tradução e introdução de Júlio Marques Mota.

Nota  Introdutória

 

Um texto de agora, mais um,  a mostrar-nos o que é a economia financeirizada, na sequência do que afirmámos quando apresentamos um texto sobre os media e a economia financeirizada. Os reguladores não regulam ou regulam quando já não há nada para regular e a floresta  é tal que para aplicar as nossas poupanças temos que consultar um especialista em aplicações financeiras. A partir da instabilidade governamentalmente criada é todo um sistema de encargos para nos garantir alguma segurança  e no fim o que nos resta pode ser um mundo de nada!


Dir-me-ão que é mais um homem de  esquerda a disparar contra o sistema e por isso é mais um homem a desvalorizar, poderão pensar face à presente nota de leitura. Num dos links que mantenho, recebi antes de ontem, dia 24 de  o seguinte texto que mantenho em inglês:


“What Does Prudent Expert Act Mean?


A measure contained in section 404(a)(1)(B) of the Employee Retirement Income Security Act (ERISA) that requires the fiduciary of a defined contribution retirement plan to use “care, skill, prudence and diligence”, and to act in the same way that someone “familiar with such matters” would act. The “familiar with such matters” language has been interpreted to mean “expert”. This language creates an important distinction from the earlier prudent person guideline, in that it holds fiduciaries to a stricter standard.

 

Also called the “prudent expert rule” or “prudent expert standard”.

 

Investopedia explains Prudent Expert Act


A fiduciary is someone who is legally responsible for someone else’s money, and who is legally required to manage that money in the best interests of its owner. Fiduciary best practices include identifying the client’s time horizon, desired return and risk tolerance, choosing asset classes consistent with these guidelines, periodically reviewing investment performance and periodically reevaluating whether fiduciary standards are being met. “

 

Para tudo deve haver especialistas para nos segurarem da insegurança acriada e quando não bate certo foi um erro de mercado sobre o qual ninguém responde, porquwe esses, os mercados de tão racionais que são pdoem-se enganar, não, somos nós com as nossas informações que nos enganamos face aos mercados que estes ditam a verdade das coisas, dos preços, dos valores.. Que diabo de trocadilho, a verdade dos mercados ou a verdade dos valores que os devem preceder, que os devem regular.


Deixem-me apresentar-vos aqui excertos longos de uma carta lida no Congresso dos Estados Unidos perante situação equivalente, uma verz que todo o sistema financeiro americano foi uma gigantesco sistema de fraude, um sistema de Ponzi. 

 

Texto

 

Statement by Steve Carroll

U.S. House Committee on Education and Labor

Honorable George Miller, Chairman

“The Impact of the Financial Crisis on Workers’ Retirement Security”

22 De Outubro de 2008.

San Francisco, CA

http://edlabor.house.gov/testimony/2008-10-22-SteveCarroll.pdf

 

Obrigado Presidente Miller e Senadora Woolsey por me permitirem esta audição. É-me reconfortante vê-los determinados a desenvolver um quadro legislativo que nos proteja, a todos nós cidadãos que confiámos nas nossas instituições — que trabalhámos estritamente no respeito das regras governamentais e das instituições financeiras que foram para nós criadas e que agora encontramos o que antecipámos como os nossos “anos dourados” rapidamente transformados em anos de cinzas e de lágrimas sem que para isso tenhamos feito alguma coisa de errado. A minha história é simples e será curta.

 

 

Em 1972 Chuck Maisel, que está hoje aqui, e eu fizemos uma parceria como profissionais de audiovisual. (…) Ao longo de anos de trabalho em conjunto comprámos diversos escritórios e desenvolvemos em conjunto um plano de segurança económica a longo prazo: comprámos sempre a pronto sempre que possível, incluindo as nossas casas e os nossos carros. A falar com rigor, evitámos sempre os encargos da utilização dos cartões de crédito pagando sempre as nossas contas no final do mês. Escolhemos o Kaiser Health Plan para uma cobertura fiável de um seguro global de saúde para ambos e investimos os nossos rendimentos ganhos em IRA’s desde 1974. Alguns consultores financeiros aconselharam-nos a colocar os IRA’s em fundos mútuos de acções. Temos seguido esses conselhos, mas foram em under-whelmed???????pela taxa de resultados face aos riscos destes e fundos mútuos.

 

Pouco antes da passagem à reforma, em 2005, vendemos a nossa casa há muito livre de qualquer hipoteca com um lucro razoável e comprámos uma casa mais pequena e muito mais barata.

 

Sendo muito conservador na gestão dos nossos dinheiros, recusámos conselhos de dois consultores financeiros que nos aconselharam a comprar acções. Não queríamos colocar em jogo a nossa segurança como os ricos e assim colocámos os rendimentos restantes todos eles em títulos, em obrigações todas elas com uma notação de risco de crédito AAA ou AA. Estas obrigações estavam escaladas de modo regular em termos de maturidades diferentes.

 

Além disso, nós contraímos um crédito com hipoteca, a quarenta anos e à taxa de 6,5 %, da nossa casa – a partir da qual planeámos sair transportados num carro funerário – e financiaríamos uma bolsa na Universidade Estatal de Sonoma que poderia herdar a casa e o nosso investimento residual. O crédito para a habitação estava garantido pelos nossos investimentos para o período de aposentação. Com orçamentos cuidados, poderíamos viver na base dos juros recebidos com os títulos que tão prudentemente comprámos ao longo dos “nossos anos dourados”. No momento em que desenvolvemos este plano de reforma estávamos convencidos que, em caso de falência de algum dos emitentes destes títulos, receberíamos reembolsos dos nossos restantes activos antes dos accionistas – e os nossos títlos tinha notações de risco de crédito AA ou AAA..

 

Entretanto o Chuck atingiu os 70 anos em 1997, e assim começou a vender os seus activos constitutivos de IRA. Eu iria fazer os 70 em 2011. Neste momento temos a opção de converter em dinheiro os títulos constitutivos do nosso IRA ao valor de mercado dos activos, mas a perda líquida seria horrorosa e teríamos que pagar taxas sobre as vendas desses mesmos activos. Decidindo em conjunto com os nossos consultores em finanças, decidimos deixar os IRAs como estavam até a bolsa subir de novo. Entretanto, nós poderíamos ter algum apoio financeiro com os juros das nossas obrigações. A 22 de Setembro, o nosso agente de investimentos no Morgan Stanley telefonou-nos para nos avisar que se nós vendêssemos as nossas obrigações Washington Mutual (WaMu) nós perderíamos 45% do nosso investimento. Mas, em função da história recente da Secretaria de Estado do Tesouro, a WaMu poderia vir a ser tratada como o foi Bearns Stearns, AIG, Freddy e Fannie. E, se nós mantivéssemos os nossos títulos, as nossas obrigações, o pior que nos poderia acontecer seria que WaMu declarasse falência, situação em que os detentores de obrigações seriam reembolsados só depois dos credores preferenciais terem sido compensados da falência. Nós “prudentemente” sujeitámo-nos.

 

WHAM! A FDIC confiscou WaMu, vendeu os seus activos de mais de 300 mil milhões de dólares, incluindo, suponho eu, os nossos 100.000 dólares e deixaram-nos sem nada depois dos activos da WaMu terem sido absorvidos. A FDIC depois vendeu então estes, activos, ao JP Morgan Chase por 1,9 mil milhões de dólares.

 

Mas que negócio para o Morgan Chase!! Nós, os obrigacionistas ficámos a zero e quem sabe para quem vão estes 1,9 mil milhões de dólares? Com os “thin cats” do J. P. Morgan a correrem pela estrada com o nosso dinheiro temos a sensação de termos sido abandonados e de mãos vazias devido a esta precipitada acção da FDIC.

 

Chuck e eu, como milhões de outros cidadãos, enfrentamos terríveis circunstâncias relativamente ao nosso futuro. Esperamos ainda poder receber os pagamentos dos juros dos nossos outros títulos, as nossas outras obrigações – a menos que a FDIC arranje um outro ataque pela calada da noite. Mas mesmo assim, o nosso orçamento mensal foi severamente amputado e para sempre. Nós ainda temos os nossos IRA’s. Mas, como eles são fundos mútuos de acções até agora têm caído de valor, de modo que, a venda, de acordo com o que a lei exige a Chuck levaria a uma grande taxa de redução do valor do seu investimento – e então ele irá ser tributado sobre o rendimento total da venda com os valores em queda livre. Apelamos para que nos apoiem quanto às vendas e às taxas sobre estas vendas que destroem a segurança que os IRA’s pretendiam criar.

 

Por último, naturalmente, esperamos que possamos recuperar alguns dos valores das obrigações da WaMu com a futura legislação sobre os mercados financeiros de tal modo que a nossa casa, a qual foi comprado de acordo com as regras e com a maior prudência, não acabe neste mercado deprimido, competindo com as dos mutuários sub-prime e dos especuladores de águas turvas, enquanto nós procuramos um espaço para viver debaixo das pontes.

 

Muito obrigado por me terem ouvido.

 

Declarações de Steve Carrol, House Committee on Education and Labor, 22 de Outubro.

 

O que restou a este casal será então a possibilidade de dormir debaixo das pontes. Os sistema de Ponzi, aqui chamados sistemas de Dona Branca também dão muitas vezes estes resultados. E ainda há por aí  Nogueiras Leite disponíveis a tudo isto branquear, e com estas posições chegam ao topo da Administração da Caixa Geral dos Depósitos, no governo Passos Coelho-Cavaco Silva , organização esta  que super-entende o BPN, um banco emblemático da crise financeira, banco para o qual todos pagamos e onde pelos  vistos não parece haver culpados dos buracos criados.  Mas os milhares de milhões que nos estão agora a exigir, para onde foram? Onde estão os que o fizeram evaporar? Amigos do Presidente? Isto aqui não é relevante, e se algo há de relevante é o silêncio que o Presidente da República  à volta deste tema ao povo português está silenciosamente a garantir. . Ainda agora, no mesmo diaem que Passos Coelho informava o país que assumia e legalizava o direito de nos roubar metade do subsídio de Natal , o governo português declarava no Diário da República que  emitia garantia de mil milhões de euros a favor deste banco. Alguém que nos explique isto.


Sobre este sistema, sobre estes reguladores que não regulam, sobre estas inspecções que não inspeccionam, sobre estes órgãos de vigilância que  nada vigiam,   aqui têm i um pequeno texto  que nos fala pois sobre os esquemas à Madoff ou, o que é equivalente, sobre esquemas à  Dona Branca.  

 

Júlio Marques Mota

 

Um “Madoff” em terras da Bretanha

 

Ela pensava ter encontrado uma aplicação financeira segura, virtuosa. O seu dinheiro, tinham-lhe explicado, devia servir para financiar empresas locais e pequenos artesões a quem o financiamento foi recusado pelos bancos. Monica, que testemunha sob um nome de empréstimo assim acreditou. Aí aplicou todas as suas economias: quase 60.000 euros, que com muito cuidado foram postos de lado, poupados, durante anos.


Esta soma corre agora um grande risco de ser completamente perdida e para sempre. Mónica tinha-a confiado a um sistema de cooperativas que tem vindo sucessivamente a desmoronar-se desde Novembro de 2010. Uma vintena de entre elas já tinha posto a chave debaixo do tapete, no primeiro semestre. Duas outras foram postas em liquidação, sexta-feira, dia 8 de Julho. As que subsistem vão provavelmente fechar nos próximos meses.


Estas estruturas tinham drenado a poupança de centenas de pessoas por um montante total cerca de 34 milhões de euros – ou mesmo um pouco mais, de acordo com uma fonte próxima do processo. Hoje, permaneceriam em caixa apenas uns 10 à 14 milhões. O resto? Difícil de dizer, o estado dos lugares, o estado da situação ainda não está completamente terminado.


Na origem deste inverosímil fiasco, há um homem: Jean-Jacques Defaix. Hoje, acusam-no de ser a reincarnação de Bernard Madoff em terras da Bretanha. O inquérito judicial, desencadeado há oito meses, deverá desembocar numa montagem financeira à Dona Branca, à Madoff, que consiste em pagar juros graças ao dinheiro dos outros – como o fazia a Dona Branca em Portugal, como o fazia Madoff nos Estados Unidos.


Nada podia levar a imaginar que, um dia, seja suspeito de ter vigarizado os seus aforradores . Ao contrário até, dado que tinha defendido centena de aforradores , com a sua Associação de ajuda contra os abusos bancários (Aacab), que fundou em 2002 na região de Quimper. Os seus combates contra o mundo da finança deram-lhe uma certa notoriedade, nomeadamente quando ajudou os particulares em conflito com os Correios no processo Bénéfic, uma colocação financeira que lesou milhares de pessoas.


Em 2007, Jean-Jacques Defaix lança-se numa nova aventura. O seu objectivo, oficialmente: apoiar sociedades regionais, em especial aquelas que têm dificuldade em obter créditos bancários. Para isso, cria dois tipos de estruturas encarregadas de recolher fundos junto de investidores: cooperativas de crescimento e cooperativas de pequenas empresas. As primeiras permitem aos que a elas aderem de reduzirem os seus impostos – graças um mecanismo de desfiscalização. Os segundos propõem um rendimento que pode ir até a 6% por ano. O dinheiro que recolhem é reposto em empréstimos às PME.


O dispositivo parece irrepreensível: as cooperativas estão cobertas por um seguro de responsabilidade civil profissional em Covéa Risks; “um fundo de guturalização “ garante o capital do investidor; o produto é proposto aos aforradores por intermediários – entre os quais conselheiros em investimentos financeiros.


Em três anos, pelo menos cerca de 2.000 pessoas entregam a totalidade ou parte das suas economias, por montantes que oscilam entre cerca de dezenas de milhares de euros e 700 000 euros, de acordo com um dos advogados implicados no processo. Não tinham então e de imediato, nenhuma razão em se preocuparem. “Recebiam extractos que atestavam o pagamento dos juros “, conta uma senhora, sob a capa do anonimato.


Mas a 4 de Novembro de 2010, uma brutal tromba de água: o ministério público de Quimper ordena o bloqueio dos activos detidos pelas cooperativas. Uma decisão tomada na sequência de um recurso de Tracfin, a célula antibranqueamento do ministério das finanças, ela própria alertada pelo Crédit Mutuel de Bretagne. Jean-Jacques Defaix é suspeito de ter organizado importantes movimentos de fundos para a China, “aparentemente para financiar a construção de um centro de férias (baptizado Aldeia da França), explica uma fonte judicial em Quimper.


Uma dezena de dias depois, o processo é transmitido ao Ministério Público do órgão jurisdicional inter-regional especializado de Rennes, que abre uma informação judicial. O juiz de instrução Benoît Lhuisset coloca sob investigação Jean-Jacques Defaix, nomeadamente por “fraudes em bando organizado”, “abusos de confiança sobre o público ” e “associação de malfeitores “. É acusado de “ter instaurado um sistema piramidal de mobilização dos fundos de investimento “, indica o ministério público – ou por outras palavras, é acusado de ter criado um sistema à Madoff ou, mais perto de nós, à Dona Branca.


Ao longo das semanas, a extensão dos estragos precisa-se. Sobre as 43 sociedades locais que têm beneficiado de empréstimos das cooperativas, apenas seis estavam em dia com os seus reembolsos no fim de 2010, de acordo com o ministério público de Rennes. Os outros não têm mais nenhum cêntimo que valha ou estão definitivamente fechadas.

Neste contexto, “sabemos que recuperamos apenas muito pequena parte do dinheiro aplicado “, confia Me Pierre Nizart, um dos advogados que defende os subscritores.


Hoje, é difícil compreender porque é que os sinais de alerta não se acenderam mais cedo. Do lado da Autoridade dos mercados financeiros (AMF), alega-se que as cooperativas de crescimento e as cooperativas de pequenas empresas não entravam no seu “campo de competência”. O gendarme da Bolsa contudo lançou um inquérito no final de 2010 sobre esta actividade mas não deseja dizer mais.


Gwenaëlle Allouard, que representa uma vintena de conselheiros em investimentos financeiros (CIF), sublinha que no entender dos seus clientes “todas as garantias estavam visíveis, existiam “. Alguns, prossegue, escreveram à AMF para lhes assinalar que Jean-Jacques Defaix trabalhava com intermediários que não tinham o estatuto de CIF. Nunca lhes responderam. Me Allouard lançou uma acção de “responsabilidade contratual” no tribunal de comércio de Paris contra as cooperativas e contra Covéa Risks. Segundo Gwenaëlle Allouard, cerca de 350 aforradores estariam associados a este procedimento judicial.


E Defaix ? “Contesta as diversas acusações apresentadas contra ele e rejeita a suspeição de enriquecimento pessoal “, declara o seu advogado, Henri Leclerc. Um antigo membro do Aacab não pensa que o fundador desta associação seja desonesto; em contrapartida, conclui, cometeu sem dúvida erros de gestão e tomou-se uma espécie de “Robin dos Bosques “ que muito frequentemente só se ouvia a si-mesmo.


Desde a sua colocação sob controlo judicial, Jean-Jacques Defaix ficou proibido de gerir e de entrar em contacto com assalariados do Aacab, das cooperativas e com outras pessoas postas em causa. Nãorespeitou esta decisão, de acordo com o ministério público, e por conseguinte foi encarcerado a 7 de Abril em Vezin-le-Coquet, perto de Rennes. “Tenho-lhe muita raiva porque me traiu completamente “, diz-nos Mónica. Olhando retrospectivamente, reconhece ter sido “ingénua” : “ Não era especialista em colocações, por conseguinte era necessário que eu delegasse. “


Bertrand Bissuel, Un Madoff en terre bretonne, Le Monde, de 22.07.11

 

 

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