1 de Junho de 1968
Interrompendo a antecomemoração solene da minha morte, este último número da Seara Nova insere vários depoimentos sobre Bento de Jesus Caraça que faleceu há 20 anos (em 1948, quando saiu a Poesia I). Dentre essas provas, algumas já bem envelhecidas antes de tempo, tocou-me sobretudo a do Chico Keil por incidir nas férias que esse homem fora de série passou em Canas de Senhorim, depois que os médicos o proibiram de ir para a Serra da Estrela.
Conta o Chico:
«Outros bons amigos – o Manuel Mendes e o José Gomes Ferreira ali acorriam também – todos com planos de trabalho para aproveitar bem o tempo livre de obrigações. Mas ninguém conseguia ir além dumas primeiras tentativas. Logo a lazeira (abençoada lazeira) tomava conta de nós e gastávamos os dias em ocupações absurdas, infantis e deliciosas. Duma feita resolvemos inventar um pudim colectivo; d’outra, uns jogos de nomes e de cartas, em que a própria fantasia perdeu as estribeiras; d’outra, uma dança incrível -“o tango linear, ou no arame”. Por vezes íamos aos grilos…
— Deixem vir o Lopes Graça (o Graça chegava mais tarde), que ele mete-nos o ripanço nos eixos – dizia o José Gomes Ferreira. – O Graça é um trabalhador implacável, imune aos eflúvios entorpecentes…
Mas o maestro chegava e logo a lazeira o vencia também. Em vez de músicas compunha sopas…»
Não sei se de propósito – para tirar certos efeitos de humor (o que, aliás, consegue em cheio) – o Chico funde dois estios num só.
A verdade – se vale a pena invocar a verdade nestas trapalhadas da memória – é que o Caraça e o Graça nunca se encontraram em Canas. Por lá andaram à caça dos grilos em anos diferentes.
Eu é que fui o comum dos dois.
No ano-Caraça aconteceu a grande invenção do pudim em que me destaquei na destreza de partir ovos – apertando-os como quem tocava buzina. O resultado, após mil misturas e mistelas, foi um objecto arduamente comestível que, de tão bamboleante, recebeu o nome de Amzalak – o pudim Amzalak! – homenagem à massa gorda do actual presidente da Academia das Ciências. (Porquê?)
Durante as férias com o Lopes Graça sucederam ainda coisas mais extraordinárias. Instalámo-nos no velho palácio de Canas de Senhorim como numa ilha deserta e tratámos de nos alimentar da nossa imaginação de pelicanos.
Mascaradas constantes. Certa vez, por exemplo, decretámos que todos fazíamos anos no mesmo dia e festejámo-los com um banquete de filho pródigo. O que obrigou a Maria Keil, quase com leveza de dança, a descer às arcas da cave e de lá extrair esotéricos trajes, casacas, jóias e condecorações para ornamentar os convivas.
Noutra altura deu-nos a veneta para nos vestirmos de indianos. Exceptuava-se o Chico que, de fato colonial branco, medalhas e capacete de cortiça, interpretava o papel de Governador Inglês bronco e de ademanes suspeitos que apenas conhecia esta palavra mágica: Yes.
Os restantes — isto é: nós — de turbantes e exibições exóticas falávamos indiano: Pi-to-pum-ta-ra-mi-do-frim-tsu… Exactamente. Indiano.
Pode-se calcular o espanto que empalideceu o médico e o farmacêutico da terra, quando, com as respectivas consortes, nos surpreenderam naquela figura de parvos.
Não tiveram outro remédio senão transformar-se também em indianos. – Pri-lo-ca-mi-tcha-tra-si-fri-tru…
O engendramento de «o tango no arame» deu-se também nesse Verão de loucura mansa, quando «invadimos» uma festa de baptizado do Nobre das sucatas que tinha sido amante da A. R. (Autêntica aristocracia!)
Surgimos rotos, sujos e mal enroupados como pedintes e tomámos conta da festa. E então, num rasgo de inspiração súbita, a Maria e eu inventámos os passos trémulos do «tango no arame».
O Lopes Graça, que é um bailarino insigne, deu-lhe os toques finais.
13 de Junho de 1968
Depois falou-se do Alexandre O’Neill. E o Carlos [de Oliveira] repetiu com certa acrimónia:
– Acha todos os poetas portugueses maus. A poesia do Gomes Ferreira é uma merda, a Sophia faz bordados, o Jorge de Sena não presta, o Eugênio é um idiota, o Torga e o Régio nada valem!… Nem do Cesário gosta!
– Coitado! – comentei. — Como ele vive inseguro do próprio talento!… E de nós todos o que mais sofre… Porque anda por aí a representar a megalomania a frio — sem acreditar nele.
(Mas secretamente, no que diz respeito à minha poesia, concordo com ele. Embora muitas vezes pergunte a mim mesmo com raiva: Porque é que algumas pessoas, que eu muito admiro e considero, afirmam que eu tenho talento? Ando desorientado. Por favor, não me convençam!… Não quero aparecer no Futuro COM UM ROSTO FALSO!)
(in José Gomes Ferreira, Dias Comuns,V – Continuação do Sol, Publicações Dom Quixote)

