Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, por Manuel Simões

 

 

Estão atentos aos signos, ao rumor lagunar,

ao ar tremendo oblíquo nas nervuras

do corpo. Subtraídos à luz branca do deserto,

vigiam a erosão da pedra, o sopro

do Outono implacável. Têm o olhar

do animal instintivo, modelo brando

de cavalos seduzidos pelo sangue

intenso e memorável como a primeira dor

ou o primeiro orgasmo, noite após noite

com tal odor nos poros receptivos à doçura

dum respirar agudo, dum suavíssimo ardor.

 

Invade-os porém a nostalgia do espaço

infinito, resignados à condição de estátuas

corroídas, anúncio de apocalipse lento

no corpo sereníssimo do comércio exausto.

 

In Serenínsula, Peregrinação, 1987.

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