Estão atentos aos signos, ao rumor lagunar,
ao ar tremendo oblíquo nas nervuras
do corpo. Subtraídos à luz branca do deserto,
vigiam a erosão da pedra, o sopro
do Outono implacável. Têm o olhar
do animal instintivo, modelo brando
de cavalos seduzidos pelo sangue
intenso e memorável como a primeira dor
ou o primeiro orgasmo, noite após noite
com tal odor nos poros receptivos à doçura
dum respirar agudo, dum suavíssimo ardor.
Invade-os porém a nostalgia do espaço
infinito, resignados à condição de estátuas
corroídas, anúncio de apocalipse lento
no corpo sereníssimo do comércio exausto.
In Serenínsula, Peregrinação, 1987.
