O vento do mar, de Lêdo Ivo – por Sílvio Castro

Um dos grandes eventos da produção editorial brasileira de 2011 será representado, sem dúvidas, pelo belo livro

 de Lêdo Ivo, O vento do mar. Com o volume dado ao público no mês de junho-2011, retorna um dos prosadores mais significativos da literatura brasileira contemporânea, muitas vezes encoberto pelas dimensões de sua produção lírica, uma das mais altas da sempre discutida e muitas vezes incompreendida “Geração de ’45”.

 

O ensaísta e crítico do ótimo O Universo Poético de Raul Pompéia (1963) retorna agora numa ampla perspectiva, quase como uma síntese de sua face mais encoberta. Uma grande e ampla síntese.

 

No novo livro de Lêdo encontramos aquelas qualidades que desde cedo revelaram as concretas características de um moderno analista literário, possuidor de uma prosa tendente sempre à criação artística e, ao mesmo tempo, à participação com a sua realidade, numa operação que já nos permitia ver quase todos os valores que levaram a pesquisa formal da linguagem modernista a encontrar a mais positiva união entre poesia e prosa. Isto, naquele longo processo começado em 1922, alargado em 1945 e levada às maiores consequências com o aparecimento do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, em 1956.

 

Não é por outra razão que Lêdo Ivo, naquela espécie de introdução ao presente O vento no mar, um capítulo de auto-biografia crítica, “Rumo ao farol”, revela as origens de sua natural personalidade literária, ao mesmo que nos introduz nos meandros de sua variada experiência poética:

 

“Quando comecei a escrever na adolescência, nada sabia de mim, a não ser que desejava ser um poeta e escritor, e colocar a minha poesia e a minha prosa a serviço dos homens, o que significa colocá-la a serviço da vida e até da mudança do mundo, já que a mim me doiam e me doem a miséria e a injustiça, a desesperança e a morte”.

 

Desde tal retomada de suas mais profundas experiência, o autor estabelece para os seus textos uma finalidade e lhes confere uma natureza tecnicamente literária; uma criação de literatura também empenhada com o próprio ambiente e com a vida em geral.

 

Na sua larga análise, Lêdo Ivo coloca em forma enfática a questão já hoje praticamente inexistente para a teoria literária quanto à hipotética oposição entre os conceitos de poeta e escritor, vistos em natural relação com aquela outra, prosa e poesia. A afirmação comum que distingue o poeta do escritor é um rastro da fase da história literária que assistia à separação absoluta entre poesia e prosa. Com as grandes conquistas relativas aos problemas da linguagem, próprias da moderna literatura brasileira, tal distinção desapareceu pela ação da nova retórica referida aos valores literários; permanecendo somente naqueles espaços restritos nos quais, por uma pura dialética circunstancial, aparecia ainda uma ideal reafirmação da arte da poesia e do poeta, em confronto com a prosa e o prosador. Generalizando, então vinha dito que o escritor seria preferencialmente o prosador, enquanto a identidade de grande criador literário recaia sobre o poeta. 

 

 A partir dessa questão já histórica e através de uma metodologia visivelmente irônica – “sou eu um poeta ou um escritor?“ – Lêdo Ivo constrói a análise de sua personalidade literária das muitas facetas reunidas numa só. E a edifica dividindo a sua matéria em diversas etapas teóricas: aquela das reminicências de uma memória auto-biográfica de grande riqueza, com a qual retoma a lembrança de seus muitos conhecimentos literários, combinada com aquela outra de fatores mais subjetivos e abstratos, porém ligados a espaços e tempos concretos. A parte do volume, “Aparições“, é a sede privilegiada desse tipo de análise dos conhecimentos vividos. Nela encontramos as grandes qualidades de prosador presentes em Lêdo Ivo, que nos revela personagens muito conhecidos, mas que com ele ganha novas dimensões: Graciliano Ramos, Rachel de Queirós, Augusto Frederico Schmidt, José Lins do Rego, Cornélio Penna, Agripino Grieco, Marques Rebelo, Clarice Lispector, Austregésilo de Athayde, Breno Accioly, Josué Montello, Vicente do Rego Monteiro. Ao lado dessa espécie de galeria de retratos de grandes personagens revividos o escritor elabora trabalhos de alta sensibilidade na reconstrução de seu mundo sentimental, como o faz na bela crônica, “Volta a anoitecer”.

 

Uma outra parte do volume, esta composta de poemas (quase uma resposta positiva à coexistência e possível confluência entre prosa e poesia, portanto também uma resposta do autor à não-questão: poeta é escritor?), “Os sinos de Maceió”, nos traz páginas de grande beleza e que recordam aquelas outras do romancista Lêdo Ivo, autor de livros de prosa de ficção como As Alianças (1947), O Caminho sem Aventura (1948), O Flautim (1966) e outros. Os sinos de Maceió sempre trouxeram grandes recordações ao autor. A partir deles, Lêdo Ivo passa da descrição da paisagem natal, como no belo poema, exemplo de um moderno impressionismo poético, “Anoitecer em Maceió“, até aqueles outros mais empenhativos, como o forte “Minha Pátria“. Num posição mediana, lembranças mais simples e líricas, como “O Passeio de Canoa” ou “A Palavra do Guardião”. Tudo naquela dimensão de alta conquista de linguagem, pela qual poesia e prosa confluem num verdadeiro produto literário: 1857-1940 Tomaram seu corpo jovem e o sepultaram na terra nativa mas os tempos se passaram e ficou esquecido o lugar em que a enterraram. Como a paisagem era azul em excesso plantaram canaviais até perto do mar. Ninguém se lembra mais da moça morta. O livro de Lêdo Ivo se completa com duas outras partes: “Intervalo“ e “Cartilha de Pasárgada”. Esta segunda é a demonstração do alto valor humano e literário da presença de Manuel Bandeira no escritor alagoano. Nos diversos ensaios que compõem o tributo da admiração de Lêdo Ivo para com o grande poeta pernambucano, reencontramos aquele mesmo analista literário que sempre soube traduzir uma significativa percepção crítica em confronto com obras dos mais diversos escritores. Isso, mesmo quando o escritor tratado é razão sentimental de profunda importância para o mesmo analista. Nesta série, de particular importância são os capítulos, “De Maceió a Pasárgada“ e “Estrela da vida inteira”.

 

 O vento do mar, de Lêdo Ivo, tem a pesquisa, seleção e organização de Monique Cordeiro Figueiredo Mendes que distribuiu a matéria em partes coordenadas, sendo a segunda delas, “Intervalo”, composta somente de dois artigos – um dos quais é justamente aquele no qual Lêdo Ivo apresenta diretamente um capítulo sobre a relação ainda ambígua entre poeta e escritor, e o faz dialeticamente com um ponto de interrogação: “Poeta é escritor?“ –, parte menor com quase uma função musical, mas que funciona na edição como bom recurso ritmico do trabalho. A única, pequena ressalva que pode ser feita à organização da edição é um certo excesso na parte dedicada a Manuel Bandeira, na qual o pequeno capítulo “O mundo de Manuel Bandeira” se mostra supérfluo na economia geral da mesma parte. A bela coedição Academia Brasileira de Letras-Contra Capa Edit., tem uma magnífica capa baseada na abstração de forte expressionismo pictórico do quadro de Gonçalo Ivo, Oratório, 2010, óleo sobre tela, 150×200 cm, magnífico resultado artístico de um dos mais significativos pintores brasileiros contemporâneos.

 

 

 

 

Apresentação da obra Poesia do Socialismo Português, Sílvio Castro é o terceiro, ao centro. O nosso colaborador, António Gomes Marques, faz a apresentação. O acto decorreu no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.

 

 

 

Sílvio Castro, nasceu em Laranjais, Rio de Janeiro, em 1931. Poeta, ficcionista, ensaísta e titular da cátedra de Língua e Literatura Portuguesa e de Literatura Brasileira na Universidade de Pádua. Em 1960-61, foi presidente da União Brasileira de Escritores. No campo da ficção, a sua obra mais divulgada é Memorial do Paraíso — o Romance do Descobrimento do Brasil, uma bela interpretação da “Carta de Pero Vaz de Caminha” ao rei D. Manuel, onde pela primeira vez o Brasil é descrito, trabalho a que Jorge Amado rendeu rasgados elogios. O seu livro mais recente, Poesia do Socialismo Português no Percurso de 1850 a 1974, estudo que ostenta como objectivo central demonstrar a existência, no período considerado, de um recorrente projecto de associar a poesia à realidade sociopolítica portuguesa.

 

As suas obras mais importantes são: Infinito Sul (1956); As Noites (1958); Machado de Assis e a Cidade do Rio de Janeiro (1959); Tempo Presente (1961); Rachel de Queiroz e o Romance Nordestino (1961);Raiz Antiga (1965); Tempo Veneziano (1967); Campo Geral: Estrutura e Estilo de Guimarães Rosa (1970); A Revolução da Palavra: Origens e Estrutura da Literatura (1976);Teoria e Política do Modernismo Brasileiro (1979); A Carta de Pero Vaz de Caminha (1987): O percurso sentimental de Cesário Verde (1990); Viver em Malabase (1993); Memorial do Paraíso — o Romance do Descobrimento do Brasil (1998); História da Literatura Brasileira (2000); Poesia do Socialismo Português no Percurso de 1850 a 1974 (2010).

 

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