Aurora Adormecida 15 – Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 15

 

 

 

(continuação)

 

A aldeia era então pobre, sem luz, servida por caminhos estreitos. A casa da tia Emília situava-se na encosta do vale, por baixo do miradouro olhando o rio, lá no fundo. A Quinta do Engenho ficava um pouco mais abaixo, onde o caseiro lavrava os campos e colhia o linho. Aurora deu ordens para dali em diante lhe entregar as rendas. Vendia o que restava do produto da quinta, cevava um porco.

 

*  Para. mim e para a minha tia dava e sobrava. Éramos umas rainhas.

 

Depressa se adaptou à aldeia e esqueceu as grandezas da cidade e da vida que até então levara. Indómita e independente fez-se dona e senhora de si.

 

* Nunca mais voltei à casa dos meus tios nem tão pouco à da minha madri­nha Tafula. Desde a minha infância só lá fui mais uma vez, estava ainda em Gaia. Havia lutas entre Republicanos e Monárquicos. Ouviam-se tiros no Porto. Na quinta caíam granadas. Com bacias de zinco na cabeça para nos protegermos dos tiros, fugimos para o carro que nos esperava ao portão da quinta. O meu tio foi o último a sair. Ficou a esconder a bandeira. Enterrou-a no jardim. Ele era monárquico. Já na Casa dos Torreões viemos a medo à janela, e passaram cavalos e cavaleiros a fazer vénias e a atirar sorrisos galanteadores a minha prima e a mim.

 

Laurindinha casou, entretanto, com um médico das Virtudes, para as bandas da Cordoaria.

 

* Era menina muito frágil e biqueira. As criadas viam-se aflitas para lhe fazer os paparicos. Teve dois filhos, dois rapazes. Constava-se que o marido a traía com uma colega. Com o desgosto e a falta de apetite tuberculizou e foi internada no sanatório do Caramulo. Piorou de saudade aos seus meninos e pouco a pouco foi definhando.

 

Ouvi dizer mais tarde que um era engenheiro e outro aviador. Coitadinha, levou-os atrancados no coração.

 

Laurindinha dera entrada no sanatório do Caramulo, muito debilitada e por imposição do marido. Ele sabia que já nada resultava mas quis fazê-lo mais por razões profissionais do que por sentimento. Não a privou de nada em vida mas dizem que a fez sofrer muito.

 

* Ai o que a pobrezinha deve ter sofrido naquele desterro!

 

O ambiente do sanatório era deprimente. As fumigações de formalina cheiravam a morte. Dentro daquele gigante de pedra na vertente da serra, a noite parecia não ter fim. Os corredores despojados eram túmulo de moribundos. O ar da montanha era puro, tão puro como o silêncio que se gera no momento da vida em que se adivinha a morte.

 

Os tuberculosos, amarrados à serra para a vida, aí estagnavam o espírito e deixavam o corpo escorregar para a morte. Embrulhados na sua tosse de tísicos, agasalhavam a doença dia e noite sem esperança. Na sua fra­queza trocavam olhares de forte cumplicidade, fazendo nascer amizades e amores que a dor e o sofrimento alimentavam. Montanha Mágica de sentimentos, de superstições, de medos e de morbidez, onde em vez de retratos se trocavam radiografias!

 

Mais pequenos sanatórios se espalharam pela montanha, satélites do grande sanatório. Hoje, formam uma impressionante constelação de esqueletos erguidos, de janelas estilhaçadas, de paredes descarnadas, preenchidas pelo silêncio do isolamento na dor e na saudade dos que ali sofreram e ali morreram. Lá dentro nunca houve tempo nem vida, e hoje, apenas a morte lá vive.

 

Aurora soube que a prima estava a morrer e quis visitá-la.

 

* Laurindinha vivia então numa casa apalaçada nas Virtudes, pertencente ao marido. Toquei à campainha, ele abriu, logo me reconheceu e manifestou afecto e alegria por voltar a ver-me.

 

— A Aurorinha tem coragem para ver a sua prima? Vai encontrar uma pessoa muito diferente. Veja lá!

 

* Tenho sim, senhor doutor.

 

Entrou num quarto enorme, de janelas altas e cortinados brancos. Numa cama antiga de casal viu a prima, quase irreconhecível. Mais lhe parecera uma máscara. Os cabelos fortes e ondulados, soltos, desarranjados, ao desalinho, o rosto desfigurado, tão sumido que só se viam dois olhos negros no fundo da cabeça, comoveram-na tanto que teve vontade de chorar e fugir. Mas conteve-se. A cama estava ladeada por duas botijas de oxigénio, esse salvador dos agonizantes, dado para lhes prolongar a vida por mais uns momentos, ilusão a que os vivos julgam que eles têm direito. Aurora aproximou-se para lhe dar um beijo mas a prima levantou a mão e deteve-a.

 

* Espremeu uma lágrima que lhe correu pela cara chupada. Assobiando, ele fazia o curativo à chaga de uma perna, fora da roupa da cama, ao que ela já não reagia.

 

Gerou-se dentro de si um silêncio cheio de recordações, cheio de rumores de um passado, de uma música tão bela que entorpecia o espírito e não o queria deixar acordar. Aurora quis abraçá-la contra o peito e dizer-lhe quanto a amava, quanto sofrera por se ter separado dela, ela que fora a mãe, a irmã, o símbolo de uma família a que nunca teve direito.

 

— Vamos deixar-nos de lamechiches, não vais entristecer a tua prima, a tua menina bonita de pele de veludo.

 

Ao sair do quarto, viu Aurora numa vitrina todas as jóias da prima e lá no meio o broche com a parra de esmalte verde, bordada a ouro, que pertencera a sua mãe. Teve vontade de o pedir ao marido mas faltou-lhe a coragem. A dor era tanta que não conseguiu.

 

* Laurindinha morreu ao outro dia. Parece que estava à minha espera para se despedir.

 

Laurindinha ficou na sua memória como um símbolo de alguém acima da vida, um misto de princesa e santa, de finura e de beleza. À sua imagem procurara educar a filha em quem revia a prima, e no fim da vida confun­dia os nomes e as pessoas.

 

* Quatro cantos tem a casa

   quatro cantos tem o leito

   quatro anjos da guarda

   quatro anjos no meu peito.

 

Velhinha, cantarolava Aurora esta toada, em forma de reza, sempre que re­cordava a prima. Era uma espécie de oração que a encomendava aos céus.

 

(continua)

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