O Pato algemado – 3 – coordenação de Carlos Loures

O Pato algemado

 

 

 

 

 

 

 

As bases de um novo marxismo

 

 

Marx disse

 

Sou um homem de princípios. Estes são os meus princípios. Mas se não concordarem com estes, arranjo outros:

 

– O segredo do sucesso é a honestidade – se você conseguir evitá-la, terá sucesso garantido!

 

– Só há uma forma de saber se um homem é honesto: perguntando-lhe. Se responder «sim», ficamos a saber que é corrupto.

 

– Partindo do zero, consegui atingir os mais altos cumes da miséria

 

– A política é arte de procurar problemas, de os encontrar, fazer um diagnóstico falso e aplicar depois os remédios errados.

 

– Acho a televisão muito educativa. Logo que alguém a liga, vou para outra sala ler um livro.

 

– Andei dois anos atrás de uma rapariga até descobrir que os seus gostos coincidiam exactamente com os meus: ambos éramos loucos por raparigas.

 

– Nunca esqueço uma cara, mas para si vou abrir uma excepção.

 

 – Você é a mulher mais bela que vi em toda a minha vida… o que não abona muito em meu favor.

 

– Não pense mal de mim, menina. O meu interesse por si é puramente sexual.

 

– Por detrás de todo o homem bem sucedido, está uma mulher. E por detrás dessa, está a mulher dele.

 

– Peço desculpa de vos estar a tratar por cavalheiros, é que não vos conheço bem.

 

– O casamento é a principal causa de divórcio. – O casamento é uma grande instituição. Se você gostar de viver numa instituição, claro.

 

– O verdadeiro amor só surge uma vez na vida… e depois não há quem nos livre dele!

 

– Meu filho, a vida é feita de pequenas coisas: um pequeno iate, uma pequena mansão, uma pequena fortuna…

 

 – Ele pode parecer um idiota e até comportar-se como um idiota. Mas não se deixe enganar – ele é mesmo um idiota!

 

– Por que me hei-de preocupar com a posteridade? O que fez ela por mim?

 

– Ou você está morto ou o meu relógio parou.

 

Claro, que não são frases de Karl Marx, mas sim de

Groucho Marx (1890-1977), actor norte-americano, um dos

famosos irmãos Marx. Este jogo com o apelido comum às duas personalidades, é uma graça que já foi repetida milhares de vezes. Mas o humor ácido e inteligente do Groucho aguenta diversas leituras. Costumava ele dizer que era tão velho, tão velho, que ainda se lembrava de Doris Day antes dela ser virgem. E também que nunca entraria para um clube que o aceitasse como sócio. Telefonou para a recepção do hotel e disse: «Serviço de quartos? Mandem-me um quarto maior!» Ah, mais uma coisa (diz o Groucho): «Podem citar-me desde que digam que me citaram mal». «Peço desculpa por não me levantar», está escrito no epitáfio do túmulo de Groucho Marx.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 O Triângulo das Bermudas

    – por Sérgio Madeira

 

 

 

 – Os caracóis estão uma maravilha, mas têm um pouco de orégãos a mais – disse eu

 

 – Oregos – corrigiu o Titaúcha.

 

Estávamos a contas com uma tachada de caracóis na casa de praia do Jerónimo, o Marreco. É uma casa construída com materiais “recuperados nas obras” – ou, numa leitura mais aprofundada, “materiais roubados”.

 

Há um enorme cartaz no local a dizer que são arribas protegidas, mas o Marreco, não é esquisito, e não se importou. A GNR já lá esteve e foi atendida pela esposa do Marreco, Soraia, a Mamuda, que trazia o Fábio, o Ranhoso, pendurado ao colo e fez uma cena a preceito. Está muito habituada a tratar com a autoridade, pois tem uma banca de roupas da Gucci, made in China, na Feira de Carcavelos e outra na Feira do Relógio. Gente de massa. Mercedes topo de gama e por aí fora…

 

Comíamos os caracóis e bebíamos cerveja, quando o anfitrião se saiu com a pergunta. «Vocês já ouviram falar no triângulo das Bermudas?» O Marreco que anda a deitar as vistas para uma ampliação do negócio e já obrigou o pessoal a tratá-lo por «senhor doutor Jerónimo», está numa imersão total em banho de cultura – lê os suplementos do 24 Horas de fio a pavio. A Marisa, ou seja, a Zarolha (tem o globo ocular esquerdo mais saliente do que o direito), que é a companheira do Julião (o Titaúcha), entrou numa de humor – que, sim, tinha um triângulo escondido pelas bermudas, mas que isso era entre ela e o marido e que os triângulos de cada uma não eram para ali chamados, nem era conversa que se tivesse à fente de senhoras…

 

O Miguel (o Delicado) quis fazer-se engraçado olhou à volta e perguntou onde é que estavam as senhoras. A minha Ema, (referida como a Jibóia quando não está presente), perguntou-lhe o que é que um tipo que pega de empurrão sabe sobre senhoras. O Delicado engoliu em seco e pediu desculpa. Pouco habituado a discriminações, comentou em voz sumida:

 

 – “Querida, hoje estás muito homofóbica”.

 

– Homofónica é a tua prima – rosnou a minha Ema.

 

E a coisa ficou por ali, pois ela estava já a levantar a mão e não se ensaiava nada para o colocar em órbita. O tom humilde amansou-a. O Marreco foi buscar o artigo sobre o triângulo das Bermudas. Leu as tretas do costume – barcos e aviões desaparecidos, a quarta dimensão, o Einstein, a Atlântida, rebéu, béu …E a versão simples – “campos magnéticos, flatulências provocadas por bolsas de gás metano do fundo do oceano…” 

 

A Zarolha riu, “a mim também me acontece essa da flutulência, mas é só quando como fritos”. O Titaúcha saiu-se com uma graça – …. “Deve ser o cheiro que fica a flutuar que provoca anormalias no ambiente – a defenestração da Amazónia e o buraco na camada de azoto”.

 

Eu, o Cegueta, disse: “o Victorino d’Almeida, no Coca-Cola Killer fala numa entrada para o triângulo das Bermudas – um urinol no Príncipe Real…” Ninguém ligou. As leituras já me valeram comparações com o Delicado que, entre outras coisas, também gosta de ler. Não fosse a Ema, o seu génio e corpanzil, servirem-me de certificado de virilidade, já tinha havido bronca.

 

O Marreco queria continuar a falar no Triângulo. Mas o Ranhoso, que ainda não falava, apareceu com um penico velho que encontrou nas moitas e disse “– Han- hun – han”. A Mamuda que teima que o Ranhoso já diz tudo, traduziu – “pois, amor, é uma prenda para a mamã”. E disse que era bom para pôr uma planta. O Marreco  fez uma nova tentativa. Mas a minha Ema disse com ar sonhador…”São mistérios”. A Zarolha entrou na onda – “pois, o universo e isso…” e perguntou para o Marreco: “Amor, como é que se chamam aquelas saloias em madeira que comprámos em Moscovo, as que entram umas dentro das outras?

 

 – “Fufas? – ajudou o Delicado, mas ninguém lhe deu troco.».

– Matrioskas». Disse eu.

– Isso! Pois para mim o universo é assim, uma matriposca ou uma merda dessas – uma cebola…»

 

O Marreco perdeu a esperança de continuar o tema do Triângulo. Com um palito entre os dentes disse para si – «descobrisse eu onde era… negócio do caraças. Barcos, aviões…» A Ema repetiu, com ar ausente, «são mistérios…» A Zarolha passou a certidão de óbito ao colóquio – «Há coisas que é melhor nem aperfundarmos!”

 

O Titaúcha, com ar sonhador. – Dass! Ele é cá com cada mistério!

 

A coisa ficou por ali. Podia ter sido pior.

 

Eu comentei – “Estas conversas filosóficas provocam-me cãibras nos miolos…

 

– Câmbrias – corrigiu o Marreco.

 

A noite caiu e viemos cá para fora gozar o fresco. O Ranhoso adormeceu e a Zarolha começou a cantar um fado. A Mamuda e a minha Ema juntaram-se-lhe, depois o Miguel.

 

Em breve todos cantávamos.

 

 

Hoje temos um convidado especial – Woody Allen:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A minha próxima vida quero vivê-la de trás para diante.

 

Começar morto para despachar esse assunto de uma vez por todas.

Depois acordar num lar da terceira Idade e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.

 

Ser expulso por estar demasiadamente saudável, passar à reforma e começar a trabalhar,

 recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.

Trabalhar durante 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável até ser suficientemente

 jovem para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente, ser bastante promíscuo,

e depois estar pronto para o ensino secundário e para a escola primária, antes de ser criança,

 só brincar, sem quaisquer responsabilidades.

Ser um bebé inocente até nascer.

Finalmente, passar nove meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central,

serviço de quarto à disposição e um espaço cada dia mais amplo, e depois…

Voilá! – desaparecer num orgasmo!

 


 E, para terminar, uma curiosa definição de PODER:

 

 

 

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