“Rio sempre capital da cultura brasileira” – (JORNAL de uma curta viagem ao Brasil – 2) – por Sílvio Castro

Desde os primeiros momentos da história do Brasil independente, o Rio sempre representou a sede ativa da cultura nacional. E assim continua a ser, apesar da perda, em 1960, da condição de capital política em favor de Brasília. Tal hegemonia se mantém intacta mesmo diante do grande desenvolvimento urbano de outras grandes capitais estaduais, como São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Salvador da Bahia, Fortaleza, Curitiba.

 

Apenas retornado nesta minha, aihmé!, curta viagem, volto a viver a mesma sensação de operativa criatividade que sempre conheci e reconheci na vida carioca. São passados poucos dias de minha chegada, mas de imediato fui gozozamente assaltado pela presença e atuação de várias manifestações públicas. Dessas quero ressaltar aqui apenas duas: A Bienal do Livro do Rio e a 1a. edição da Feira Internacional de Arte Contemporânea, a ArtRio. Ambos esses eventos se desenrolaram de 8 a 11 de setembro, apenas passados, pegando-me em cheio nos primeiros dias de meu breve retorno à casa paterna.

 

Comecemos por uma sintética crônica que possa informar o que foi a Bienal do Livro do Rio-2011. Tal manifestação já constitui uma tradição na vida carioca, começada que foi com a segunda metade dos modernos tempos novecentistas, naqueles movimentados tempos de década de 50, quando tantas formas de modernidade surgiram na prática cultural brasileira.

 

A Bienal do Livro de 2011 traduziu muito coerentemente o atual movimento da realidade nacional: grande entusiasmo em tudo; grandes demonstrações de pujanças; grande ecletismo objetivo em suas realizações. Nos seus cinco dias de atividades nos grandes espaços do RioCentro, a Bienal acolheu verdadeira multidão de pessoas de todas as categorias sociais, as mesmas que levaram as vendas dos livros – isto num país acusado de ler pouco – a uma soma que superou os 580 milhões de Reais (isto é, quase 250 milhões de Euros).

 

Foi tamanha a presença da gente que, pela pressão avassaladora, ficou claro não mais ser o amplo espaço do RioCentro suficiente para hospedar as próximas edições da Bienal carioca. A saturação entre gente e espaço foi fartamente atingida.

 

Esta mesma multidão de ansiosos pelos livros soube deixar claro a heterogeneidade do atual leitor brasileiro. O produto literário dito convencional continua sendo procurado com boa intensidade, porém os verdadeiros protagonistas da Bienal foram outros: as publicações de “histórias de quadrinhos” ou os comumente ditos “gibis”; os cds de textos de autores populares de todas as gamas; e principalmente os livros religiosos. Aos livros religiosos e de conteúdo espirtualista toca o primeiro lugar nas procuras dos leitores ávidos. Isso pode demonstrar, como em verdade demonstra mais uma vez, como o brasileiro contemporâneo está levando a sua tradição religiosa às maiores dimensões exteriores, numa possível liderança de um fenômeno que, em verdade, é de dimensão internacional. Assim, o grande astro da Bienal – além das perfomances de personagens de alta popularidade como Ronaldinho Gaúcho, autografando gibis em que ele mesmo aparece como protagonista – foi o padre Marcelo Rossi que com o seu best-seller, Ágape, já superou o número de 6 milhões de volumes vendidos. O pe. Marcelo levou ao RioCentro uma imensa multidão de fans, por nada apresentados em atitudes compungidas no afã de conquistar um autógrafo do autor predileto e amado. Aliás entre os 4 livros atualmente mais vendidos no Brasil, a lista é composta por mais dois livros de assuntos religiosos: A vida sabe o que faz, da escritora espiritualista Zíbia Gasparetto, e Tempo de esperas, do padre Fábio de Melo. Somente um livro laico entra nesta lista privilegiada, ocupando o 2o. lugar da graduatória dos best-sellers atuais: trata-se do romance de aventuras, A tormenta de espadas, do escritor estadunidense George R. R. Martin. Esses são dados oficiais da PublishNews.

 

Diante de tais resultados e números, nos vem expontâneo o grito quase angustiado: “Aonde estão vocês – Jorge Amado, Guimarães Rosa e, até mesmo, Paulo Coelho – campeões dos outroras encontros de laicos com as grandes massas de leitores?…

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