“CARTAS DO MEU MAGREBE” de ERNESTO DE SOUSA – por Clara Castilho

Pode agora ser adquirido este livro com os textos que Ernesto de Sousa (1921-1988) escreveu enquanto andou

por terras do Norte de África. Tem um prefácio de Isabel do Carmo, com quem vivia na altura e que o acompanhou nessa viagem. Resulta de uma proposta de publicação das crónicas dessa viagem, feita em 1962 ao Jornal de Notícias.

 

Joseph Beuys e Ernesto de Sousa, Kassel, 1972 Da nota biográfica que José António Salvador escreveu e saiu publicada no Diário Popular (7.10.88), na altura da morte de Ernesto de Sousa, retirei as seguintes referências: – Nos anos quarenta frequentou a Faculdade de Ciências, onde organizou a exposição de arte negra da Associação de Estudantes.

 

– Militou no MUD Juvenil. – Foi pioneiro na animação cultural, contribuindo para a implantação do movimento cineclubista no nosso país a partir da década de 50, ao fundar o primeiro cineclube entre nós, o Círculo de Cinema. Fez encenações no TEP, cursos de formação artística na Sociedade Nacional de Belas-Artes, instalações, exposições e happenings. – Dirigiu a revista «Imagem». Em 1962 realizou o filme «Dom Roberto», que marcou o cinema português. – Nos anos 60, quando se preparava para se deslocar a Cannes e aí receber o Prémio da Crítica pelo seu filme «Dom Roberto», foi detido pela PIDE, ficando preso na cadeia do Aljube.

 

– Foi convidado pelo Movimento das Forças Armadas a integrar a Comissão consultiva para a cultura, poucos dias após o 25 de Abril 1974, comissão em que também participavam Sophia de Mello Breyner, Natália Correia, e outros intelectuais. Organizou, em 1977, a exposição Alternativa Zero, que integrou os mais importantes artistas portugueses e ainda o Living Theatre.

 

Diz textualmente José Salvador: “Pode dizer-se que o objectivo supremo deste homem foi fazer da vida uma coisa bonita, como quem respira. Conheceu Bazin, Agnès Varda, Resnais. Estudou Sartre, Merlau-Ponty e Rosa Ramalho.

 

Conheceu por dentro o neo-realismo como o surrealismo. Não impôs a si próprio fronteiras ideológicas e deixou que a cultura o atravessasse sem tréguas.Filma poemas de Herberto Helder, faz exercícios sobre poesia de Almada Negreiros, Luísa Neto Jorge, Herberto e Cesariny no Primeiro Acto de Algés, com música de Jorge Peixinho e a sua imaginação.Recupera painéis de Almada Negreiros, em Madrid. É comissário por Portugal para a Bienal de Veneza em 1980, e vive no silêncio da sua serenidade”.

 

A sua viúva, Isabel Alves tem mantido actualizado um site – http://www.ernestodesousa.com – onde se pode “estudar” a vida deste homem tão multifacetado. Não esqueço que foi com a ajuda da Isabel Alves que foi possível encontrar em sua casa um filme realizado pelo Ernesto em que o psicanalista João dos Santos mostrava a sua forma de trabalhar com crianças, no Hospital Júlio de Matos. É um testemunho precioso para a história da saúde mental infantil em Portugal, e que foi gentilmente cedido para ser incluído no filme “Photomaton”, sobre a vida de João dos Santos, de autoria de Tiago Pereira e Sofia Ponte.

 

 

 “Cartas do Meu Magrebe” será apresentado no dia 28 de Setembro, às 18,30, na FNAC do Chiado, por Carlos Vaz Marques.

 

 

 

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