UM CAFÉ NA INTERNET – Luísa, por William Somerset Maugham – II

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

A tarefa não a matou. Teve tempo para continuar a viver. Não havia casa de repouso que fosse então mais popular em França. Encontrei-a  por essa altura, e acidentalmente,em Paris. Estava ela a almoçar no Ritz com um francês alto e de belas feições. Explicou-me que fora ali em serviço relacionado com o seu hospital, e revelou-me que todos os oficiais a tratavam com a maior deferência. Não ignoravam quanto a saúde dela era delicada e, portanto, não a deixavam fazer o mínimo trabalho. Procediam com todas as atenções, como se fossem “seus maridos”. Disse isto, e suspirou.

 

─ “Pobre Jorge, mal sabias tu que eu, com este coração, te sobreviveria!”

 

─ “Pobre Tom, também!” acrescentei eu.

 

Não percebo por que é que ela não gostou da minha frase. Concedeu-me um sorriso forçado e ficou com os belos olhos repletos de lágrimas. E então observou:

 

─ “Você fala sempre como se invejasse os poucos anos que terei de vida.”

 

─ “A propósito: o seu coração vai melhor, não é verdade?”

 

─ “Nunca há de ir melhor. Consultei esta manhã um especialista que me aconselhou a preparar-me para o pior que pode acontecer.”

 

─ “Ora, há quase vinte anos que anda nesses preparativos, não acha?”

 

No fim da guerra, Luísa estabeleceu-seem Londres. Tinha feito quarenta anos, continuava magra e débil, tinha olhos grandes e faces pálidas, mas ninguém lhe dava idade superior a vinte e cinco. Íris, que estivera num colégio e crescera muito, foi viver com a mãe.

 

─ “Vai tomar conta de mim”, esclareceu Luísa. “Ser-lhe-á, sem dúvida, penoso habitar como uma inválida como eu, mas deve ser por pouco tempo, e por isso acredito que ela não se importe muito.”

 

Íris era uma rapariga engraçada. Haviam-na educado na ideia de que a saúde da mãe era bastante precária. Quando era criança não lhe permitiam que fizesse barulho, e ela compreendia que a doente não devia, de modo nenhum, ser perturbada. E, ainda que Luísa dissesse agora à filha que não valia a pena fazer sacrifícios por causa de uma velha maçadora, a rapariga persistia nos seus cuidados. Sentia prazer em sacrificar-se; considerava-se feliz fazendo tudo quanto pudesse por essa mãe estremecida. Luísa suspirava, e deixava-a agir à vontade dela.

 

─ “ A pequena satisfaz-se em pensar que me está a ser útil,” explicava a mãe.

 

─ “Nunca pensou que ela a podia abandonar? E em tudo mais que é natural que aconteça?”

 

─ “É o que sempre lhe tenho dito. Eu por mim não conseguirei proporcionar-lhe distracções. Mas Deus sabe que, por minha causa, nunca privei delas a ninguém.”

 

Íris, quando abordei o assunto, redarguiu-me: “Coitada da mãe, quer que eu vá às festas com as pessoas amigas, mas receio que, estando eu fora de casa, lhe dê algum dos seus ataques. De maneira que prefiro não sair.”

 

O caso, porém é que a rapariga se apaixonou. Um amigo meu, rapaz bem parecido, declarou-se-lhe e ela aceitou-o. Sempre simpatizei com a filha de Luísa e alegrei-me com o facto, pois havia assim possibilidade de ver a Íris levar a vida a que tinha direito. Ela é que jamais suspeitava que tal coisa fosse possível. Um dia o namorado veio ter comigo e disse-me, desgostoso, que o casamento ficava indefinidamente adiado. Íris era de opinião de que não podia separar-se da mãe. Se bem que eu nada tivesse a ver com o assunto, aproveitei a oportunidade e fui visitar Luísa, que apreciava receber os amigos à hora do chá. Agora que estava a envelhecer apreciava a companhia de artistas e escritores.

 

─ “É verdade,” rompi eu a certa altura, “consta-me que o casamento já não se realiza.”

 

─ “Nada sei a esse respeito. O que parece é que a Íris não casa tão cedo quanto eu desejaria. Pedi-lhe de joelhos que não se importasse comigo, mas recusou-se em absoluto a abandonar-me.”

 

─ “Não lhe parece que é um tanto duro para ela?”

 

─ “Se é! Já se sabe que será apenas por uns meses, mas eu detesto a ideia de que os outros se sacrifiquem por mim.”

 

─ “Querida Luísa, você enterrou dois maridos; não vejo razão por que não enterre mais outros dois.”

 

─ “Acha que isso é engraçado?” replicou-me num tom que tornou tão ofensivo quanto pôde.

 

─ “Creio que você nunca reparou numa coisa: é que, para fazer o que lhe apraz, tem sempre força suficiente, e só se lembra do coração fraco quando se trata de assuntos que a aborrecem.”

 

─ “Oh, bem sei o que pensa de mim! Nunca acreditou que eu fosse doente, não é isso?”

 

Olhei para ela sem pestanejar.

 

─ “Sim senhora, nunca acreditei. Estou convencido de que, durante vinte e cinco anos, nos tem pregado uma partida estupenda. Considero-a a mulher mais egoísta e monstruosa que jamais conheci. Destruiu as vidas desses dois maridos e agora dá cabo da da sua filha.”

 

Não ficaria surpreendido se Luísa tivesse tido um ataque cardíaco. Esperei, pelo menos, uma indignaçãoem forma. Ela, todavia, limitou-se a um sorriso gracioso.

 

─ “Meu caro amigo, qualquer dia arrepender-se-á de me haver dito essas coisas.”

 

─ “Resolveu, afinal, que a Íris não case com aquele rapaz?”

 

─ “Eu mesma lhe pedi que casasse. Sei que isso me há de matar, mas não faço caso. Ninguém se importa comigo. Sou uma carga pesada para toda a gente.”

 

─ “Disse-lhe que o casamento dela a mataria?”

 

─ “Obrigou-me a dizê-lo.”

 

─ “Como se alguém a obrigasse a dizer ou a fazer as coisas que você não deseja!”

 

─ “Se a pequena quiser pode casar amanhã. Se tenho de morrer por essa causa, morrerei.”

 

─ “Visto isso, pode-se arriscar a experiência?”

 

─ “Não tem compaixão de mim?”

 

─ “Como posso apiedar-me de quem se diverte consigo mesma… e que me diverte?”

 

Nas faces desmaiadas de Luísa apareceu um leve rubor. Embora sorrisse, os olhos continuaram duros e ferozes.

 

─ “Íris casará dentro de um mês,” declarou ela. “Se alguma coisa me acontecer, espero que você e ela ao menos se penitenciem…”

 

Luísa cumpriu a palavra. Fixou-se a data, encomendou-se um enxoval pomposíssimo, distribuíram-se convites. Íris e o noivo andavam radiantes. No dia dos esponsais, às dez da manhã, Luísa, essa mulher diabólica, teve um dos seus ataques e morreu. Morreu perdoando amavelmente à filha por ter sido a causadora do desenlace fatal.

 

 

Este conto foi escrito em 1924, sob o título The Most Selfish Woman I Ever Knew. Integrou uma colectânea,Cosmopolitans. Foi traduzido para português por Cabral do Nascimento, e integrou um volume, Os Melhores Contos Ingleses, com prefácio e selecção por João Gaspar Simões, uma edição da Portugália Editora. A todos, vivos e mortos, o nosso obrigado. Procurarei actualizar a ortografia, e espero não ter estragado muito o escrito.

Leave a Reply