OS HOMENS DO REI – 22 – por José Brandão

D. PEDRO I (reinou de 1357 a 1367)

 

Foi curto o reinado deste rei magoado. D. Pedro I nasceu em Coimbra a 8 de Abril de 1320 e reinou de 1357 a 1367. Dez anos, portanto. Percorreu o país de lés-a-lés. Fixava-se nas diferentes terras, às vezes, por mais de um mês. Aí despachava, aplicava a justiça, moralizava os costumes e governava. Os dez anos do rei D. Pedro foram dez anos de paz e desenvolvimento.

 

Apesar de se ver confrontado com o flagelo da peste negra conseguiu fomentar a economia e aumentar a riqueza do país. Homem maduro, experiente e conhecedor do país, foi amado pelo povo e temido pelos grandes. Fernão Lopes não lhe regateia louvores: alegre, magnânimo, liberal, justo, popular e cavalheiro. No entanto, os historiadores modernos têm visto D. Pedro com outros olhos e outros critérios. Segundo estes, D. Pedro era um homem agressivo e neurótico. O que teve seu pai a menos, teve D. Pedro a mais. Como refere Aquilino Ribeiro, em Príncipes de Portugal: «Este D. Pedro I, averiguadamente dado às práticas homossexuais, adúltero…experimentou todas as emoções, e é de crer que tivesse chafurdado em todos os vícios».

 

Eram famosas as festas dadas por D. Pedro, mais orgias do que verdadeiras festas de corte. Por várias vezes se levantava a meio da noite, ordenando que um invulgar banquete começasse, ou saía então por Lisboa em estrondoso arraial. Esgotado, dormia depois dias a fio. Pela vida fora foi atingido incontáveis vezes pelas setas traiçoeiras mas deliciosas de Cupido. A ocasião que mais se celebrizou foi sem dúvida o escaldante romance que teve com D. Inês de Castro, fidalga de Castela que veio na comitiva de D. Constança. O romance levado a instâncias carnais causou tamanho burburinho na corte, que D. Constança se sentiu perturbada ao sabê-lo.

 

Como os laços de parentesco proibiam qualquer espécie de relação mais íntima, sobretudo os de compadrio, lembrou-se a infeliz rainha de convidar D. Inês para madrinha do seu terceiro filho. De imediato D. Pedro ordenou à sua amante que, no acto sacramental do baptismo, não dissesse a fórmula comprometedora. D. Inês tornou-se assim madrinha por imposição, mas amante pelo coração. O amor, desde cedo perseguido pelos que viam nele perigos políticos, viu no sangue a redenção do «pecado» e da «traição». Os conselheiros de D. Afonso IV tão bem o convenceram, que ele ditou a morte da formosíssima.

 

E mesmo ali, naquelas casas mandadas construir pela saudosa Rainha Santa, que tinham sido palco de tantas cenas de amor, ocorria agora a bárbara tragédia que enlutou o nosso imaginário, esse cruel assassínio a sangue frio, presenciado pelas crianças inocentes. Foi o amor condenado à tragédia. Tragédia que não mais deixou de perseguir os filhos desta Inês tão linda. Errantes pela península, carregando a cruz da tragédia que lhes ensombrara a infância, o mais velho morre ainda de pouca idade, o do meio será perseguido por matar a mulher, vivendo no inferno do exílio, D. Beatriz, apesar dos inúmeros pretendentes que teve, perderia o marido pouco depois do casamento, o riquíssimo conde de Albuquerque, D. Sancho, irmão do rei de Castela.

 

D. Dinis, também filho do casal que só encontrou paz nos céus, seria expulso do reino pelo seu meio-irmão e herdeiro do trono, D. Fernando, por se ter recusado a beijar a mão a Leonor Teles. No começo da relação o povo não viu Inês de Castro com simpatia, em algumas regiões, chamava-se Inês de Castro à mulher de mau carácter e dada aos enredados. Vira-se na amante de D. Pedro a perturbadora do bem-estar de um casal, atraiçoando a cônjuge que a trouxera da sua terra, não falando no parentesco, embora afastado, entre Pedro e Inês, com a agravante de ela ser madrinha de filho legítimo do amante.

 

Esses amores também levantaram oposições nos meios áulicos, pelos mesmos motivos morais e porque traziam inconvenientes políticos: o aparecimento de geração fez temer que a crescente influência dos parentes de Inês originasse perturbações políticas, pusesse em causa a sucessão do trono para o seu legítimo herdeiro, D. Fernando, em benefício de um filho bastardo, e até a própria independência nacional. Os desvairados amores adulterinos de seu filho e herdeiro D. Pedro com a formosa Inês de Castro suscitaram a conjura dos conselheiros políticos do rei para eliminar a formosa castelhana, cuja influência no espírito do futuro monarca podia pôr em risco a independência do reino.

 

Obedecendo à razão do Estado, consentiu D. Afonso no seu assassínio, na Primavera de 1355. Inconsolável, D. Pedro inicia um período de guerrilhas violentas e sanguinárias contra seu pai e contra os que de alguma forma tinham participado no inqualificável acto. Durante toda a vida, D. Pedro nunca esqueceu a bela Inês nem os seus “brutos matadores”.

 

Conseguiu deitar a mão a Pêro Coelho e fez-lhe arrancar o coração pelo peito, apanhou Álvaro Gonçalves e arrancou-lhe o coração pelas costas. Escapou Diogo Lopes Pacheco. O rei devia-o ter esquecido depois de ter saciado o desprezo e o ódio pelos infames matadores de mulheres indefesas. A Inês de Castro fê-la coroar rainha. Conta também a tradição que Pedro teria feito desenterrar o corpo da amada obrigado os nobres a procederem à cerimónia do beija-mão real ao cadáver, sob pena de morte. D. Pedro I morreu em Lisboa a 18 de Janeiro de 1367. Tinha 47 anos. Álvaro Pais e Gonçalo Vasques de Góis foram homens do rei D. Pedro I.

 

Álvaro Pais (Séc. XIV)

Burguês abastado residente em Lisboa, foi chanceler-mor dos reis D. Pedro I e D. Fernando, mas resignou do cargo no reinado deste último monarca sob pretexto de doença. Após a morte de D. Fernando, chefiou os revoltosos, unidos face à possibilidade da perda da independência. Padrasto de João das Regras, tornou-se grande defensor da causa do Mestre de Avis, de quem foi conselheiro, durante a crise de 1383-85. Com Álvaro Pais, a burguesia começou a ter influência política.

 

Exerceu grande influência sobre a “arraia-miúda” de Lisboa, preparando a revolução de 1383. É-lhe atribuída a ideia de matar o conde de Andeiro. Para impedir a perda de independência que se adivinhava, Álvaro Pais planeou uma conspiração para matar o Conde Andeiro e para tal pede a participação do Mestre de Avis. Após a morte do conde, D. Leonor Teles foi obrigada a sair da cidade e pede ajuda aos reis de Castela.

 

Temendo a invasão, o povo de Lisboa reconhece o Mestre como Regedor e Defensor do Reino e a burguesia apoia-o financeiramente de modo a suportar as despesas de guerra. Esta situação divide o país: de um lado o povo, a burguesia, uma parte da nobreza e do clero apoiam o Mestre de Avis pois temiam a perda de independência; do outro, grande parte da nobreza e do clero que receando perder os privilégios não aceitavam o Mestre de Avis por ser filho ilegítimo de D. Pedro I. Alguns fidalgos, nomeadamente Álvaro Pais e o conde de Barcelos, prepararam, por isso, uma conjuntura, sentenciando à morte o fidalgo castelhano João Fernandes Andeiro, favorito da rainha, que era, na verdade, quem tudo mandava e governava.

 

Da execução do plano, deveras arriscado, foi incumbido D. João, Mestre de Avis, fidalgo de muitas simpatias populares, filho bastardo de D. Pedro I e de D. Teresa Lourenço. Correndo, num momento, com os seus apoiantes aos Paços de São Martinho; o Mestre de Avis, em nome da Pátria, ali mesmo apunhalou o Conde Andeiro, em 1383. Nesse dia 6 de Dezembro de 1383, quando o ex-chanceler Álvaro Pais cavalgou por Lisboa amotinando o povo, dizendo que fossem todos ao paço, acudir ao Mestre de Avis; a multidão vai enfurecida a correr, saltando obstáculos e atropelando-se, na direcção do Limoeiro (o paço da rainha era aí), para acudir ao Mestre. D. Leonor Teles, em face dos acontecimentos.

 

Fugiu para Alenquer e dali para Santarém, donde solicitou auxílio a seu genro, rei de Castela. Entretanto, o Mestre de Avis era aclamado Regedor e Defensor do Reino. João I de Castela, a par de tudo que passava em Portugal e a pedido de sua sogra, invadiu Portugal, avançando sobre o Alentejo, onde se encontrava D. Nuno Álvares Pereira, que, pela valentia do seu braço, inteireza de vontade e misticismo da sua fé, era, acaso, no momento difícil, a maior figura de herói e de guerreiro.

 

Os Castelhanos cercam Lisboa, por terra e mar, durante sete meses. D. João está sitiado em Lisboa, mas recebe a notícia que o Porto o apoia incondicionalmente. Lisboa resiste. Um surto de peste dizima as hostes inimigas. A rainha D. Beatriz é atacada pelo mal. O inimigo levanta o cerco. No Alentejo, os castelhanos, são esperados por Nuno Álvares Pereira que experimenta a táctica inglesa de dispor as tropas em quadrado. Conhecedor dos manejos do inimigo, D. Nuno esperou os adversários perto da vila de Fronteira. O embate foi terrível, mas a vitória foi dos portugueses, em 6 de Abril de 1384.

 

Os invasores são totalmente derrotados na batalha de Atoleiros.

 

 A seguir: Gonçalo Vasques de Goes

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