O saudoso tempo do fascismo – 6- por Hélder Costa

Meu primeiro amor – I 

 

Hola que tal

Como te vas

Te vas muy bien

Dime que fue

De aquele amor

Que te ilusionó

 

O baile tinha começado há minutos, e aí estava, gloriosa, a luta pela conquista.

 

Hoje, já percebo que a conquista não era bem nossa, dos jovens machos à procura da jovem mais bela, e nem sequer se tratava de uma aproximação recíproca e simultânea. É cada vez mais claro que a selecção e a conquista é uma batalha da mulher, como aliás se passa com a generalidade das fêmeas da Natureza. O que, confessemos, também não deixa de ser agradável para um macho tímido, passivo, ou em idade de reforma.

 

Yo ya lo ves

Estoy mejor desde que te fuiste

Y ai marchar te creíste

Que me dejavas triste

Llorando tu amor

Mi corazon vive feliz

En su soledad Ya me curé

Di mi pasion tonta e fatal

 

O baile tinha vários obstáculos: sentadas à volta da sala, estavam as raparigas e na segunda fila as mães, as tias, as avós, a que nós chamávamos o arame farpado. Depois, tínhamos o mestre-sala que controlava as investidas dos jovens bárbaros. E finalmente, havia a verdadeira luta entre nós, para ver quem conseguia dançar “com ela”.

 

Vuelves a mi

Por mi perdon

Yo lo siento por ti

 Solo quiero decirre

Hola que tal

Como te vas

 

Porque havia sempre “ela”. Bonita, especial, estranha, ou porque era diferente, ou porque não era da terra, ou porque era parecida, ou porque nos esforçavamos que fosse igual à Marilyn ou à Gina LolJobrigida, ou à Sofia Loren, ou à Natalie Wood, ou a outro qualquer mito inacessível que víssemos no cinema eu nas revistas.

 

 A técnica era sempre igual: tentávamos desesperadamente fazer sinais para marcar par. E quando a nossa eleita, discretamente, anuía ao convite com um ligeiro meneio de cabeça, a felicidade era enorme.

 

Nesse caso, não resistíamos a deixar avançar os rivais para que ela dissesse que não, e nos abrisse o glorioso tapete do amoroso especialmente desejado. Com a rapariga nos braços começava outra luta.

 

Primeiro, era necessário desviá-Ia dos olhares do arame farpado. A única solução era dançar sempre na direcção do centro da sala, para que os outros pares nos ocultassem dos olhares inquisidores. Talvez assim conseguíssemos dançar mais apertados, talvez rivessemos menos vergonha de falar, talvez …

 

Havia um problema: não sabíamos do que havíamos de falar. E o pânico surgia quando sentíamos que a musica estava a acabar.

 

E agora? E se ela não dança comigo a seguir?

 

E então, num esforço poético digno da lírica Camoniana, arrancávamos umas palavras toscas, umas perguntas do estilo “gosta da musica?”, umas opiniões judiciosas sobre “está muita gente”, “está muito calor”, e nos últimos compassos da dança, o inevitável “posso convidá-la a seguir?”.

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