Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 23
(continuação)
O marido de Aurora era ateu e Aurora religiosa, sem ser beata. Ia à missa aos domingos e pouco mais, mas era devota e crente. Ele nunca a impedira ou demovera da sua convicção. Por estranho que pareça, até colaborava com ela. Muitas vezes lhe lembrava que já tinham tocado as segundas para a missa e estavam quase a cair as três. Também nunca interferiu na educação dos filhos, nesse e noutros aspectos. Dava o dinheiro para o seu sustento e estudos, confiando neles e na intuição pedagógica da mulher. Preocupava-se essencialmente que fossem bem alimentados.
– Um estudante tem de comer bem para dar bom rendimento.
Nunca bateu num filho.
– Todo o homem que bate numa criança ou numa mulher é um cobarde. A luta é desigual.
Ironizava com a religião da mulher de uma forma mansa e tolerante, com um humor que a desarmava por completo. Era um homem bom e muito terno. Tinha um defeito, amuava com frequência sem razão visível para tal. A frustração que sempre o acompanhara não o deixava ser totalmente feliz. Tinha uma enorme avidez pelo saber, de ir mais longe, mas sempre achou que lhe tinham cortado as pernas. Levava dias amuado, passeando-se debaixo das ramadas, com o olhar vazio, diluído pelos campos fora. A filha pequenita era a única que conseguia arrancá-lo àquele voar perdido. O pai era homem cheio de ironia e gostava de imitar algumas figuras caricatas da aldeia. A miúda tentava brincar com ele imitando as suas imitações até lhe ver no rosto um esboço cúmplice de sorriso. Logo a seguir pegava-lhe na mão e arrastava-o com ela.
– Papá, vamos para a mesa.
E era assim que muitas vezes se quebrava o amuo. Havia nele uma corda de criança que, tangida pelas mãos de outra criança, o tocava tão fundo no coração que assim cedia de uma forma tão simples, tão submissa, que aos olhos de hoje se explica pela ternura da sua alma.
Apesar de possuir algumas terras de herança, nunca a elas se dedicara. No entanto, passava a vida a fazer enxertos e experiências com árvores e frutos. Enxertava pêras e maçãs na mesma árvore, conseguia que a mesma videira desse uvas brancas e tintas, que o mesmo cacho tivesse bagos brancos e tintos, e o mesmo bago, gomos tintos e brancos. Surpreendia toda a gente com a sua esperteza e habilidade.
Passava tardes inteiras a conversar com o irmão mais velho, seu padrinho, especulando sobre tudo. Sonhavam e engendravam interessantes planos de lavoura, de construção de bairros em matos seus, de empresas disto ou daquilo, mas raramente passavam à acção. Era a expressão mais pura, mais sábia da dialéctica, práticos exemplos de simplória especulação filosófica. Assuntos simples e banais que levavam a conclusões inteligentes através de meandros de belas imagens. E porque há-de a dialéctica e a filosofia tratar só os intrínsecos campos da Razão, dos Sentimentos, do Eu, e não debruçar-se sobre os campos de milho ou vinha? Não é o desprezo do conhecimento ou do elemento espiritual, é o pragmatismo, a lógica da simplicidade, da circunstância e do universal. O sonho vai tanto mais alto quanto mais se aproxima da terra.
Eram anti-salazaristas ferrenhos, por razões nem sempre verdadeiramente políticas. Umas vezes, porque as árvores da ponte faziam sombra a um campo de milho e não o deixavam crescer, outras porque os impostos sobre as terras não lhes agradavam. Corria-lhes, no entanto, nas veias alguma lucidez e sentido de justiça.
Ainda solteiros, organizaram uma greve do leite. Da sacada da casa dos pais ataram uma corda à sineta da capela e fizeram tocar o sino a rebate. Assim juntaram o povo para esclarecimento da situação e tomada de posição.
Ironizavam com o governo e em tudo usavam comparações e metáforas. Comparavam-no, e aos seus adeptos, com cardumes de barbos e trutas à volta do raizeiro, dentro do viveiro que ambos construíram no fundo do rio, junto à margem do Paul, um dos seus campos.
Apoiaram a candidatura de Norton de Matos. Tinham um ódio de morte ao sistema e ao poder local que o acolitava. Mas não passava disto.
O irmão mais velho, Gabriel, regressara rico da América. Tinha um filho ainda mais rico, comendador, dono de grande empresa de café e algodão no Brasil. Gostavam muito do irmão, puseram-lhe o nome de of, mas passavam a vida a desdenhar da sua fortuna e da comenda do filho. O outro irmão, António, era padre. A missa nova fora um acontecimento único, um sucesso, decorrente do zelo e brio do irmão, marido de Aurora. Ainda em casa dos pais, nessa altura, tratou de tudo, da boda, dos toldos que vieram de Estarreja, da loiça que veio do Centro Vidreiro, dos convites. Foi uma azáfama tremenda.
* Fez ver aos Tochas.
(continua)


