Uma enorme desigualdade social tem sido a marca mais duradoura da formação econômica e social do Brasil. Os fenômenos da modernidade, industrialização, urbanização e democracia em nada contribuíram para reduzir o imenso fosso que separa a grande maioria do povo da pequena elite que, controlando o poder econômico, alcança apropriar-se de maior parte da renda nacional. Se o último período de crescimento, nos distantes anos 1970, propiciou uma pequena redução do índice de Gini, de 0,623 em 1976 para 0,584 em 1981, a crise que se seguiu impôs a estabilidade como objetivo da política econômica. Seus efeitos resultaram num aumento da desigualdade, tendo o índice atingido 0,602 em 1997. Os anos de baixa inflação e o crescimento e ampliação das políticas sociais que se seguiram, viram uma redução da medida da desigualdade para 0,589 em 2002, tendência que continua nos anos seguintes, até a marca de 0,543 em 2009.
Como é sabido, uma vez que esses índices são calculados a partir dos rendimentos apurados pela PNAD do IBGE, são representativos quase que exclusivamente de ganhos do trabalho. A melhor aferição do grau de democracia nas relações econômicas de uma sociedade é dada pelos componentes do PIB na chamada ótica da renda, conforme mostra a Tabela. Entre 2002 e 2008 a parcela apropriada pelos trabalhadores do produto por eles criado subiu de 39,8 para 41,9%. Que movimento está por trás dessa mudança?
Em primeiro lugar, o fato de a economia brasileira vir experimentando um ciclo de crescimento da renda e do emprego desde 2004, apresentando uma variação média anual de 4,42% até 2010. Essa realidade difere em muito das mais de duas décadas anteriores em que o crescimento foi pífio, com média de 2,04% entre 1981 e 2003. O crescimento gera um ambiente favorável aos trabalhadores com redução do desemprego e escassez relativa de mão-de-obra que favorecem o aumento dos salários. Entre o final de 2003 e o de 2010, a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE apurou uma variação de R$ 1.235,10 para R$ 1.596,05 no rendimento médio real das pessoas ocupadas.
Um segundo fator foi a ampliação dos gastos sociais através de uma maior cobertura de programas como o Bolsa Família. Muito embora as contribuições sociais que financiam boa parte desses gastos não tenham se alterado, como se vê na tabela, o impacto sobre a pobreza extrema foi significativo. Em 2003 eram 15,2% das pessoas nessa situação e em 2009 apenas 7,28%, conforme o IPEA. Ainda no campo das políticas sociais, um terceiro importante elemento foi o processo continuado de crescimento do salário-mínimo, com impacto direto não apenas sobre os trabalhadores de menor qualificação, mas também sobre os milhões de beneficiários da Previdência Social. Em dezembro de 2002 o valor era de R$ 318,74 e alcançou R$ 517,57 em dezembro de 2010 em termos reais.
O crescimento da participação do trabalho na renda teve como contrapartida a redução dos lucros, o excedente de exploração, que caíram de 34,4% para 33,2% do PIB entre 2002 e 2008. Também perdeu espaço na renda nacional o chamado rendimento misto, pequenos empreendedores e trabalhadores por conta própria, reduzidos de 10,9% para 8,8%. Esse movimento deve ser creditado ao avanço da formalização pela geração de empregos com carteira de trabalho assinada, que atraíram um contingente significativo dessas pessoas. Por fim, deve-se atentar para um crescimento também da renda do governo, na forma de impostos.
A melhora nos indicadores de distribuição da renda, seja a redução da concentração entre os trabalhadores, seja, principalmente, na divisão do produto nacional entre o capital e o trabalho, foi resultado não apenas da inflexão do ciclo econômico em direção a um crescimento mais duradouro, mas também da ação consciente e planejada do Estado na condução de suas políticas de desenvolvimento, com uma prioridade pouco frequente na nossa história, a inclusão social e o combate à pobreza. Para isso, é decisiva a mudança na distribuição funcional da renda, que, de qualquer maneira, ainda expressa uma enorme iniquidade, basta lembrar que, entre os membros da OCDE, a participação do trabalho na renda nacional se mantém num patamar entre 60% e 80%, dependendo do país.
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Tabela: Componentes do Produto Interno Bruto – Distribuição Funcional da Renda (% do Total) |
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2002 |
2003 |
2004 |
2005 |
2006 |
2007 |
2008 |
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Remuneração dos empregados |
39,8 |
39,5 |
39,3 |
40,1 |
40,9 |
41,3 |
41,9 |
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Salários |
30,9 |
31,1 |
30,8 |
31,7 |
32,5 |
32,7 |
33,1 |
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Contribuições sociais |
8,9 |
8,4 |
8,4 |
8,4 |
8,4 |
8,6 |
8,8 |
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Rendimento misto bruto |
10,9 |
10,6 |
9,7 |
9,4 |
9,0 |
9,0 |
8,8 |
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Excedente operacional bruto |
34,4 |
35,3 |
35,6 |
35,2 |
34,8 |
34,4 |
33,2 |
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Impostos sobre a produção e importação |
14,9 |
14,6 |
15,4 |
15,4 |
15,3 |
15,3 |
16,2 |
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Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais. |
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Luiz A. E. Faria (FEE/CEES)
O trabalho que acima apresentámos foi remetido por Luiz Faria, que pertence à Fundação de Economia e Estatística, do Rio Grande do Sul. Foi elaborado para as comemorações do 7 de Setembro, mas não nos foi possível integrá-lo na altura, por chegou depois da data (a responsabilidade foi nossa, que o pedimos tarde e a más horas). Apresentamo-lo agora, até para possibilitar uma comparação com a situação portuguesa. Como se explica que em Portugal a parte dos trabalhadores na distribuição do rendimento esteja em que quebra já há anos, e que no Brasil esteja a aumentar? Lá o Produto aumenta e cá estagna. Será só pelas diferenças entre os dois países?
Pedimos ao Luiz Faria que aceite os nossos agradecimentos pela sua disponibilidade. E apresentamos a seguir o significado de algumas siglas incluídas no trabalho:
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (equivale ao nosso INE).
PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio
IPEA – Instituto de Pesquisa Económica Aplicada
