Pessoa com várias responsabilidades – é locutor de uma estação de televisão; é professor de uma Universidade; é escritor renomado – erra ao dizer, por exemplo, isto tem a haver com aquilo.
Isto tem a ver com aquilo. Este discurso tem a ver com os desmandos da véspera. As tuas dores têm a ver com os teus excessos à mesa…
E vou, de certo modo, corrigir-me: no seu Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem (1969), ensina o Doutor R. de Sá Nogueira que, ao dizermos/escrevermos “ter a, estamos diante de um galicismo de tal modo radicado já, que não creio possível bani-lo da nossa língua. Porque o francês diz “j’ai beaucoup à faire”, “qu’est-ce que vous avez à me dire?”, etc., passámos a dizer: “tenho muito a fazer”, em vez de tenho muito que fazer”; “que é que V. tem a fazer?” em vez de “que é que V. tem que fazer?”, e, em certos casos, em vez de “que é V. tem de fazer?” (Fim de citação)
E então o pobrezinho do tem a havernão tem préstimo?! Vai para o lixo?!
Não! Tem cabimento em frases como:
– O livro custa 12€. O senhor entregou-me 20€. Portanto tem a haver 7€…
– Homessa! Entreguei 20€, o livro custa 12€, tenho a haver 8€!
Já que estou com a mão nesta massa…
Duas outras expressões também não devem misturar-se.
São elas ter de e ter que. A tendência grande é para as empregar indiferentemente mas… ponhamos um travão nessa indiferença toda.
Assentemos no seguinte: Quem quiser sobreviver, tem de comer o suficiente.
Certo?
Se concordam, assentemos também nesta horrível verdade: O pior é que nem toda a gente tem que comer…
Toda a gente (…) precisa de comer; tem necessidade de comer.
Nem toda a gente tem o que comer; tem alimentos que (possa) comer.
Isto é um bocado indigestos, mas, bem mastigadinho…, talvez passe…
Mais duas coisinhas, que parecerão meras picuinhas, mas que podem dar… sarrafusca…
É equivalente ir ao encontro de e ir de encontro a?
Não é! E livremo-nos de o dizer “à toa”!
Ir de encontro a um poste ou a um candeeiro… não é coisa boa, é coisa má, contundente, perigosa, a evitar. O punho dele, fechado, veio de encontro ao meu nariz e esmagou-mo. Não gostam deste exemplo, pois não? Ir de encontro a é chocar contra.
Vermos que alguém vem ao encontro das nossas ideias; que estas atitudes de quem manda vêm ao encontro das nossas necessidades, é coisa boa, é coisa ansiada, por isso suspiramos nós. Ir ou vir ao encontro de é estar de acordo, é navegar nas mesmas águas. É positivo, é bom!
Veem a diferencinha? A diferençona?


Não fui eu quem fez (está bem assim?) as perguntas, mas gostei imenso desta lição.
E, agora, as perguntas de uma amiga demasiado ocupada para poder vir fazê-las aqui directamente: “a diferença entre usar trata-se de ou tratam-se de. Trata-se de assuntos relativos a… / Trata-se de casos… Deve ser assim? Quando é que se deve usar “tratam-se de”? Outra questão. Nunca ponho a palavra “também” entre vírgulas, ou só talvez em casos excepcionais, mas muita gente o faz. Qual a forma correcta?” Desde já, agradeço pela Elisabete Silveira ao nosso consultor linguístico
E diz o nosso companheiro de viagem que tem pesadelos sobre a sua curta vida de professor. Como é possível?!As lições neste consultório são de mestre.Um abraço da amiga.
Se se perguntar “Quem fez?”…. terá a resposta. ‘Não fui eu quem fez.´
Mesma “técnica”. Pergunta: ‘De que se trata? ‘Trata-se de… muitas coisas! – “SE” pronome indefinido.Os políticos TRATAM-SE bem! – “SE”, pronome reflexo.