Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 26
(continuação)
O cunhado padre foi entretanto ameaçado pela hierarquia religiosa, que não admitia a propriedade em seu nome individual, e obrigaram-no a desistir da fazenda em Moçambique. Não cedeu e apostatou. Resolveu, então, vir a Portugal mas não passou de Lisboa onde residia o irmão Gonçalo. Seria grande o escândalo se aparecesse na aldeia sem cabeção e com gravata, como surgira em Lisboa.
O marido de Aurora e o filho, adolescente, deslocaram-se à capital onde o esperaram à saída do barco. A par da grande alegria de rever o irmão predilecto, havia uma escondida tristeza, não tanto pelo facto de ele se desligar da igreja, mas pela humilhação que a situação representava. No próprio filho, criança educada em atmosfera religiosa, o sentimento nascido da insólita imagem de um padre de gravata, fumando cachimbo, só muito tarde se desvaneceu.
O padre decidiu emigrar novamente, desta vez para o Brasil, onde, mais tarde, regressou à Igreja. Foi pároco em S. Paulo onde fundou uma obra social, tendo morrido aos noventa anos, sem vintém.
* Foi uma alegria quando o meu cunhado padre voltou ao seio da Igreja. Em todas as capelas e igrejas foi anuncida a boa nova.
° Nessa altura já não tinhas chouriços para lhe mandar, não era avozinha?
* Hom’essa! Na minha casa matavam-se dois a quatro porcos por ano, conforme o tamanho ou a necessidade.
A matança era um acto tão solene que dava direito às crianças de faltarem à escola. O marido de Aurora fugia para os matos logo de manhãzinha, para não ouvir os guinchos angustiantes dos animais. Era um acto tão selvagem que ele não aguentava presenciá-lo. O almoço era melhorado, quase sempre arroz de frango ou de vitela e aletria de cortar à faca. Servia-se vinho do melhor que havia, tinto, branco ou de casta. O porco ficava pendurado na adega, a sangrar, até ao dia da desmancha. Parte dele repartia Aurora pela aldeia.
* A tua mãe, pequenina, ia de porta em porta, com uma cestinha, levar às pessoas mais velhas e mais pobres a sua oferta. Para as mais doentes, ia unto para um caldinho e para os outros adubo. Os rojões já iam feitos, menos gordos para os doentes e mais entremeados para os que tinham saúde. O teu tio só queria saber era da bexiga do porco para fazer uma bola.
Tanto Aurora como o marido eram pessoas muito generosas e toda a vida reconhecidas como tal. Ela acudia e valia a muita miséria que então havia nas aldeias. Até na casa de gente tuberculosa ela entrava, na flor da sua vida, para levar uma enxerga limpa e queimar a velha. Tratava queimaduras de crianças com folhas de malva e valia a quantos podia. Chegava a enviar encomendas de roupa, açúcar e arroz para pessoas que, por doença ou infelicidade da terra se ausentaram. Nunca entrava ninguém naquela casa que não bebesse um copo ou tomasse um chá. Não havia pobre a quem fosse negada esmola, pequena ou grande. Nunca o portão estava fechado. Só se dava conta de que alguém tinha entrado no pátio quando se ouvia a lengalenga de um padre-nosso que estais no Céu. Era uma família feliz e havia alegria naquela casa, apenas toldada pelos amuos do marido. Sempre se fizeram boas merendas para os trabalhadores do campo, pataniscas, salada de bacalhau, bifinhos de peito de frango, azeitonas, pão e vinho ou comida de garfo. Para os de casa havia chá ou cacau, com um sabor único. Levava manteiga, sal e limão. A manteiga era pura. Batia-se o leite num cântaro de barro e retirava-se a nata ao de cima embrulhando-a em papel vegetal. Acompanhavam o chá e o cacau torradas polvilhadas de canela. Aurora trouxe toda a sua educação de outrora para a casa, para a família e para a aldeia. Todos os que com ela privaram, com ela aprenderam e lucraram.
O marido, sempre que ia ao Porto tratar de assuntos profissionais, trazia da Rua das Flores e da rua Mouzinho da Silveira, polvo seco, línguas ou caras de bacalhau, queijo da serra ou figos de seira.
* Para os filhos comprava latas de cálcio e de cola granulada.. Teve sempre cuidado com a saúde deles. Dava-lhes óleo de fígado de bacalhau e o remédio das lombrigas uma vez por ano. Era um suplício aquele sabor. O pai tapava-Ihes o nariz com uma mão e com a outra metia-lhes uma colher do remédio pela boca abaixo. Eu, ali à beira, passava-lhes na língua uma rodela de limão com açúcar, que os fazia estremecer.
Todos os anos se davam passeios, desta vez no velho Hillman cor de café com leite e de estofos de couro. O pai fazia questão em instruir os filhos pequenitos, levando-os para Norte ou para Sul, a visitar castelos ou museus. Tão intensamente transmitiu aos filhos a sensação e o desejo da aventura e do conhecimento, que, ainda muito pequenos, lhe propuseram uma ida, sozinhos, ao parque da La-Salette, a meia dúzia de quilómetros de casa, para, na simplicidade da sua ideia, se desenvolverem. Mais tarde, tinha o rapaz à volta de dez anos, e a miúda os cinco, quando a mãe os entregou na camioneta, para irem passar uns dias a Ovar, onde estava de férias o tio de Lisboa.
Simplesmente teriam de fazer transbordo na Ponte de Cavaleiros, para o que estavam bem instruídos. Porém, quando lá chegaram, já a camioneta tinha partido. O rapaz não desanimou, e logo, puxou dos conhecimentos que tinha, decidindo ir para a estação de caminho de ferro do Vale do Vouga, que ficava a dois ou três quilómetros. Sabia que o comboio os levaria a Espinho, onde tomariam outro vindo do Porto que passava em Ovar.
* Isto deu tanta aflição, tanta aflição, pois eles não apareciam em Ovar. Ainda por cima, gentes da terra que estavam a banhos em Espinho e regressaram nesse dia, me disseram, muito admiradas, que os tinham visto lá, a comer uvas e bananas.
° Pois é, Avó, deixavas os teus filhos ao abandono, eras uma mãe desnaturada.
* Desnaturada, eu? Que tão preocupada fui toda a vida. com eles? Alguém esperava semelhante coisa?
Ao pai atraíam-no, especialmente, os portos, os aeroportos ou estações de caminho de ferro, o que deixou marca nos filhos. Havia nele uma nostalgia dos longes, um sentido de partida ou de chegada, sabe-se lá, a busca do desconhecido, o desvendar de novos horizontes e, talvez também, o desejo do regresso, do descanso na cogitação, na dissecação das vivências, no deleite do encontro do longe e do perto, do passado, do presente e do futuro.
(continua)
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