por Rui Oliveira
1. Nesta semana ocorre o primeiro concerto desta temporada na secção que a Fundação Gulbenkian resolveu designar, oportunamente, de Outono Russo e que confronta centralmente Tchaikovsky com Chostakovich, embora pelo meio também surjam Glinka, Mussorgsky, Prokofiev, Rimsky-Korsakov e ainda Roslavets, Denisov e outros.
Os intérpretes serão o Quarteto Borodin, composto por Ruben Aharonian (violino), Sergei Lomovsky (violino), Igor Naidin (viola) e Vladimir Balshin (violoncelo) que no Domingo, 9 de Outubro no Grande Auditório, às 19h, darão início à Integral dos quartetos de cordas de Dmitri Chostakovitch (1906-1975) (a qual prosseguirá em quatro dias próximos), tocando :
Quarteto para Cordas nº 2, op. 68
Quarteto para Cordas nº 1, op. 49
Quarteto para Cordas nº 3, op. 73
Ouça-se um excerto dum registo recente daquele Quarteto, um agrupamento de câmara que, segundo consta no programa, terá tido “a benção do próprio Chostakovich” na relação difícil que, como é sabido, o compositor manteve com o regime soviético sobretudo desde 1936.
2. Aqui é o Centro Cultural de Belém que dá início à série de concertos Espírito Mozart com que a sua residente Orquestra de Câmara Portuguesa pretende celebrar a sua relação com o público ouvinte (o qual até poderá “escolher” votando qual de três aberturas de ópera − As bodas de Fígaro, Idomeneo ou Così fan tutte − prefere ouvir).
Assim na Quarta-feira 5 de Outubro, no Grande Auditório às 17h, a O.C.P. sob a direcção de Pedro Carneiro, irá tocar, além da Abertura operática escolhida, a Sinfonia nº 39, K.543 também de W. A. Mozart e a Sinfonia nº 5, D.485 de Franz Schubert.
3. Numa produção sua o Teatro Nacional de São Carlos repõe a ópera de Giuseppe Verdi Don Carlo, pela primeira vez ali representada em Dezembro de 1871 (a estreia absoluta fora em Março de 1867 no Théâtre Impérial de l’Opéra, Paris). Estreia a 8 de Outubro (Sábado) às 20h (havendo mais 6 récitas até 23/10) com a Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do Teatro Nacional de São Carlos sob a direcção musical de Martin André e a encenação a cargo de Stephen Langridge.
Serão intérpretes Enrico Iori baixo (como Filippo, Rei de Espanha), Giancarlo Monsalve tenor, em substituição de Fabio Sartori (como Don Carlo, Infante de Espanha) e Elisabete Matos soprano (como Elisabetta de Valois), entre outros.
Veremos como esta obra do período médio de Verdi, escrita segundo o poema dramático Don Carlos, Infant von Spanien de Schiller (1787), que retrata um enredo histórico passado na Espanha seiscentista, “com personagens condenadas desde o início ao peso da História e das suas contingências” será tocada e cantada. Da produção de 2003 com a cantora portuguesa fica-nos aqui um excerto … para comparação !
4. Vai ter estreia absoluta na Sexta, 7 de Outubro, no Teatro Camões, às 21h, a coreografia Pets pela Companhia Olga Roriz, com selecção musical de Olga Roriz e João Raposo, cenografia de Pedro Santiago Cal, figurinos de Olga Roriz e Pedro Santiago Cal. Repetirá a 8 e 9/10.
Em «Pets», Olga Roriz regressa ao universo psicológico do ser humano como tema de inspiração, afirmando a criadora: «É um espetáculo onde nos propomos observar o inatingível. O privado e o público. O quotidiano, a rotina e os hábitos. O silêncio e a solidão. Os lugares apertados. O espaço sem espaço. A acumulação dos detritos. A reciclagem dos afectos, dos objectos dos sentidos. A azáfama e a inércia. As pequenas palavras. A procura dos nomes.
As presas e as surpresas. O jogo de poderes. A sedução. O desejo. O domador e o domesticado. As funções e disfunções. A dependência. Reacções e confusões. A vivência possível. A ironia de uma partilha forçada. A falsa privacidade. O engano. O acaso. Brincar como se fosse ao acaso.
Homens e mulheres afeiçoados por si próprios. Auto domesticados. Selvagens. Um espaço interior com paredes, portas e janelas imaginárias. A luz é apenas uma memória. O som da cidade dissipou-se no tempo. A clausura torna-se real”.
5. No Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, às 21h de 4 de Outubro (Terça) ressuscita-se a tradição jazzística do trio com piano através da actuação de Colin Vallon piano, Patrice Moret contrabaixo e Samuel Rohrer bateria. No seu projecto Rruga(divulgado neste concerto e a ser gravado pela ECM), como anuncia o programa (e se ouve no excerto), “Vallon, dono de uma técnica prodigiosa e de uma inventividade admirável, empurra um pouco mais as fronteiras estéticas do jazz…”.
Cordas sobresselentes
Para além destes eventos que julgamos os mais marcantes nas diversas áreas culturais, poderão interessar a amadores de áreas particulares alguns dos seguintes mais promissores :
No cinema
Para os cinéfilos (sobretudo os francófilos), o acontecimento da semana é a abertura da 12ª Semana do Cinema Francês que terá lugar no Cinema São Jorge a 6 de Outubro, às 21h com a exibição da curta-metragem de George Méliès Le voyage dans la lune (1902) recentemente recuperada na sua versão original a cores, a par do drama The Artist (2011) de Michel Hazanavicius (ver programa em http://www.festadocinemafrances.com/12a/?page_id=2798).
Le voyage dans la lune from FCF on Vimeo.
Compare-se este excerto recuperado da película original com a versão conhecida a preto e branco
Ao longo dos outros dias da Festa, há diversos filmes em ante-estreia (alguns antes da sua exibição em França) de autores desde Pascal Rabaté ou Mia Hansen-Løve a Bertrand Blier ou André Téchiné .
A Festa homenageia, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, uma das mais consagradas e míticas actrizes francesas, Anouk Aimée, que filmou com alguns dos grandes realizadores mundiais (exemplos La Dolce Vita de Fellini ou Lola de Jacques Demy). Também Carole Bouquet, a “madrinha” do festival, apresenta uma selecção de filmes que marcaram a sua carreira, Cet obscur objet du désir de Luis Buñuel (1977) ou Lucie Aubrac de Claude Berri (1996), entre outros. Na secção Cannes em Portugal – 50 anos de primeiras vezes mostrar-se-ão exemplos de como a Semana da Crítica tem tido, desde a sua criação, um papel primordial na revelação de primeiros filmes de grandes realizadores.
Na música erudita
No Palácio Nacional da Ajuda, às 21h de Sábado 8 de Outubro, a Orquestra Académica Metropolitana sob a direcção musical de Jean-Marc Burfin oferece um concerto onde serão tocadas obras de Gabriel Fauré (Suite da música da peça teatral Pélleas et Mélisande, op. 80), Albert Roussel (Petite Suite, op. 3) e Georges Bizet (Sinfonia em Dó maior).
A Fundação Gulbenkian leva a cabo de 6 a 8 de Outubro, em colaboração com outras entidades, o Festival Jovens Músicos 2011 por ocasião dos 25 anos doPrémio Jovens Músicos que aí será outorgado, tocando o vencedor um concerto completo com a Orquestra Gulbenkian (dir. maestro Pedro Neves). Muitos outros concertos, recitais, conferências e mesas-redondas ocorrerão nesses três dias (ver
http://www.musica.gulbenkian.pt/2011_2012/jovens_musicos.html.en), uma programação coordenada pelo compositor Luís Tinoco, director artístico do Festival.
Destacamos, entre outros, o recital de guitarra portuguesa de Miguel Amaral (6/10, 18h), o concerto da Orquestra Metropolitana (dir. Cesário Costa) com Bruno Borralhinho (violoncelo) e Pedro Ribeiro (oboé) (7/10, 19h), o recital da Orquestra Gulbenkian (dir.Pedro Neves) para a execução da encomenda da Antena 2 a Carlos Caires em estreia mundial (8/10, 19h) ou o concerto da Big Band do Hot Clube de Portugal (dir. Pedro Moreira) com o grupo vencedor do Jazz Combo (8/10, 22h).
O Teatro Maria Matos, em cooperação com Gulbenkian Música, a 4 de Outubro (21h30) – véspera do Dia da República – repõe o espectáculo A Portuguesa de 2009, resultado da colaboração entre a companhia Cão Solteiro e o artista plástico Vasco Araújo, peça surpreendente em forma de masterclass de canto.
No Palácio Nacional da Ajuda, no âmbito do “Festival Rota das Artes”, a contralto Sara Mingardo, cantora de referência do repertório barroco com diversos prémios, vem cantar um programa ainda por divulgar na Sexta, 7 de Outubro, pelas 21h30.
Na música considerada mais ligeira
De entre um leque mais vasto, lembramos como de previsível qualidade e interesse :
Vitorino e a Orquestra Filarmonia das Beiras em “35 Anos a Semear Salsa ao Reguinho”, vem ao Coliseu dos Recreios a 5 de Outubro (às 21h), celebrar aqueles 35 anos de carreira. Com ele tocará Janita Salomé e como convidados estarão Carminho, Jorge Palma e Tim.
Inês Saavedra, cantautora uruguaia, divulga na Casa da América Latina a 6 de Outubro (às 19h) as suas criações, “um ponto de encontro entre Suzanne Vega e Tori Amos “ segundo a revista World 1 Music.
Martinho da Vila “Ao Vivo”, no mesmo Coliseu dos Recreios, a 6 de Outubro (às 21h30) celebra 40 anos de actividade, desde o calango da vertente rural de Minas ao forró e ao samba urbano do Rio.
Mariana Norton com 4 músicos toca no Ondajazz às 22h30 de 7 de Outubro um misto de jazz, pop, rock e soul, em regra com muito boa aceitação.
Gloria Gaynor, cantora célebre com 19 álbuns editados de disco music, estreia-se em Portugal no Campo Pequeno a 8 de Outubro, às 21h30.
O programa Circuito Indie traz, dentro da iniciativa Músicas Novas, ao Teatro São Luiz a 7 e 8 de Outubro (a partir das 21h) diversos conjuntos de pop/rock como Noiserv, Mursego, Maïa Vidal e You Can’t Win, Charlie Brown.
No teatro
No Teatro da Trindade estreia no próximo dia 6 de Outubro (Quinta, às 21h), na Sala Principal, a peça Sangue Jovem, com texto da autoria de Peter Asmussen e interpretação de Elisa Lisboa, Lídia Franco, Teresa Faria e Romeu Costa. A encenação está a cargo de Beatriz Batarda com música original de Bernardo Sassetti. “Três amigas de infância, sem filhos, (que) perante o envelhecimento, a doença e a solidão, procuram a redenção … A noite é uma sucessão de suspensões e adiamentos de revelações, oscilando entre o que é segredo e o que é falta de memória…”.
No Grande Auditório da Culturgest, às 21h30 de 7 a 9 de Outubro, a companhia de novo circo canadiana Les 7 doigts de la main (2002)apresenta PSY, a sua maior e mais recente criação, com texto, encenação e coreografia de Shana Carroll. Em PSY “justapõem-se certas facetas mais sombrias da psique humana à linguagem alegre e exaltante do circo. Uma narrativa que se refere a disfunções psíquicas (alucinações, obsessões, agorafobia, alucinações) despoleta uma série de extraordinários, belos, poéticos, comoventes números de circo (trapézio, acrobacia, malabarismo, forças combinadas, roda alemã, mastro chinês, etc). PSY “é um hino à alegria, à coragem e ao poder que dormem em nós e nos permitem ultrapassar os nossos limites”.
No campo das artes plásticas
Lembramos que encerra a 9 de Outubro no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian «Trabalhos com texto e imagem» , uma grande exposição antológica de João Penalva (Lisboa, 1949), um dos mais internacionais artistas portugueses, vivendo em Londres há mais de 30 anos. Comissariada por Isabel Carlos, ela tenta dar a conhecer as múltiplas facetas da sua obra, desde a pintura dos anos 90 às instalações e filmes por que ficou mais conhecido a partir do final desta década. Segundo a curadora “teatro, cinema, narratividade e texto são referências fundamentais numa obra que tem tanto de complexo como de minucioso, de humor como de lacónico…O (seu) título denotativo e descritivo é uma das marcas autorais de João Penalva, ou seja, a exposição de carácter antológico tem como fio condutor precisamente as suas obras com texto”.
Caríssimos leitores, espero que alguma destas sugestões vos venha a satisfazer…



