Consultório Linguístico – VI – por Magalhães dos Santos

 

 

Na minha primeira  “consulta” (por favor, não me levem a sério!), falei de erros de acentuação em formas do presente do conjuntivo. Era o caso de sejamos e façamos, por exemplo. Por errada, indevida analogia com as formas seja, sejas, sejam,  faça, faças, façam, as pessoas que não sabem pronunciam aquelas formas como se elas fossem esdrúxulas, como se se e fa fossem as sílabas tónicas.

 

Mas uma coisa (entre outras…) é certa: Com alguma frequência, um erro, de tão repetido que é, acaba por, primeiramente, ser tolerado, depois ser plenamente aceite, e, por fim, a forma que foi correta é expulsa da roda da gente bem falante e a forma que foi errada passa a ser a única certa, a única correta.

 

Um exemplo?… Ainda na conjugação verbal…

 

Um verbo regular latino: LAUDARE, louvar. Imperfeito do indicativo:

Laudabam, laudabas, laudabat, laudabamus, laudabatis, laudabant.

 

Notam os meus prezados Companheiros de viagem as deslocações de sílaba tónica: nas três primeiras e na sexta, a sílaba tónica é no radical, em da. Nas duas primeiras do plural, a sílaba tónica é na caraterística ba.

 

O que significa que, se a posição da sílaba tónica se conservasse na evolução para o Português, hoje diríamos  louvavamos e louvavais.

 

Porquê o recuo? Porque as outras quatro formas impuseram a força do número e as duas “dissidentes” resignaram-se e aderiram ao tropel. E daí louvamos, louveis; avamos, aveis; corvamos,corveis, etc.

 

Virá este “exemplo” a dar razão a quem diz aquelas coisas horrorosas do jamos enhamos e çamos? Quem viver verá e eu já cá não estarei para… ouvir… Os professores dos diversos graus de Ensino, dos Infantários ao Superior , ensinarão as formas corretas, corrigirão quem pronunciar mal? Ou os próprios mestres falarão mal? Não saberão Português?  Por favor, tranquilizem-me!

 

Outro erro de acentuação, tão frequente, tão comum na  boca de quem devia ter mais…juízo (ou vergonha na cara…) é o que “ataca” inocentes palavras como peodo e meocre.

 

É raro ouvir alguém, por mais responsabilidades que tenha, ou a que as suas habilitações deveriam obrigá-lo, dizer corretamente, acentuar corretamente a sílaba certa, em peodo, em meocre.

 

Será uma batalha perdida? É tanta a gente a dizer a silabada, que… qualquer dia sou apontado como atraso… de vida, como contrariador da “evolução” da Língua. Sei lá se como… reacionário?…

 

A tudo terei de me habituar…

 

 

 

1 Comment

  1. muito obrigado ao Magalhães dos Santos: nada de “reacionário”, precisamos de professores, sempre!só queria comentar que, “curiosamente”, é reconfortante (?) ver como os mesmos erros (ou derivas…) se dão ao N da Raia (prova de que a língua é a mesma: o *sêjamos, o *fáçamos, o *periodo (este cada vez menos merece asterisco…); mas o principal que eu queria destacar é o *louvavamos, *amavamos, etc.; aqui sim que cumpre irmos com jeitinho: essas formas são muito populares a N da Raia, e opino que não se devem considerar vulgarismos, antes sobrevivências, que talvez soem arcaicas mas que são igualmente dignas, desde que sejam proferidas consistentemente e sem hesitação;dito isto, indico tb que a AGLP, à que pertenço, recomenda naturalmente as formas padrão louvávamos, amávamos, etc., como “normativas” (quer dizer, dentro do que consideramos a norma galega da língua portugusa de todos)apertas galegasCarlos

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