-O saudoso tempo do fascismo – 26 – por Hélder Costa

O drama do Senhor Joaquim –  II

 

 

Na grande cidade não perdeu tempo e foi ao escritório na Baixa.

 

 – Não, o senhor Rolim não está, disse o porteiro.

 

 – Eu preciso de falar com ele, vim de longe.

 

– Tem vindo cá muita gente, mas ele não está cá. Deve ter ido ao estrangeiro.

 

 – Eu não saio daqui sem falar com ele. Estou desgraçado, tenho de pagar aos homens que trabalham comigo, o senhor Rolim conhece-me bem, ele gosta muito do meu Zé Luís, eu nem acredito no que se está a passar.

 

 – Foi uma desgraça, suspirou o porteiro, quem havia de dizer … uma casa destas! O senhor quer um cigarro?

 

– Não, obrigado, agora não me apetece. Mas não se pode dar um recado a alguém?

 

– Posso tentar telefonar para a secretária dele, mas aviso já o amigo que isto não vai dar resultado nenhum. Como é que o senhor se chama?

 

– Joaquim, diga que eu sou o Joaquim, o pai do Zé Luís.

 

– Um momento … sim, olhe menina Felizbela, desculpe incomodar mas está aqui um senhor, diz que veio de longe, é o senhor …

 

 – Joaquim, pai do Zé Luís.

 

– É o senhor Joaquim, pai do Zé Luís. Está bem, eu espero.

 

– Esperamos um bocadinho, ela já diz qualquer coisa.

 

Trrim! Trrim!

 

– Já?! Sim, como? Ah, está bem.

 

O porteiro, surpreendido, desligou, e disse para o senhor Joaquim subir ao 7° andar.

 

 

– Oh senhor Joaquim, muito gosto em vê-lo, a senhora Idalina, o menino, esse malandro do Zé Luís, está bom?

 

 – Tudo bem, graças a Deus.

 

– O senhor Joaquim vem por causa do dinheiro, não?

 

 – É verdade, senhor Rolim, tenho de pagar aos homens, estava a contar que o senhor pagasse.

 

– Isto foi uma desgraça, foi uma desgraça.

 

 – Senhor Rolim, não há negócio, paciência. Mas dê-me a cortiça outra vêz; eu vejo se a vendo noutro sítio.

 

 – Oh senhor Joaquim, eu já não tenho a cortiça, foi lá para fora, não me pagam, o que é que eu hei-de fazer?

 

 – Senhor Rolim, não me desgrace. Eu não posso acreditar que não tem dinheiro para me pagar aquela meia dúzia de tostões.

 

 – Não tenho, não tenho. Desculpe, mas não posso fazer nada.

 

– Não me desgrace, disse o Joaquim apontando-lhe a pistola, não me desgrace, olhe que eu mato-o.

 

 – Mate-me, mate-me, o que é que quer que eu faça? O senhor Rolim chorou, invocou a amizade que tinha pela família do senhor Joaquim, gritou contra a sua infelicidade, e o Joaquim saíu sem ouvir as últimas lamúrias.

 

 – Foi assim, mulher, o que é que eu podia fazer?

 

 – E agora?

 

 – Agora vou vender a fabriqueta para pagar aos homens e vou fábrica grande, o que é que queres que eu faça?

 

– É preciso vender tudo?

 

– Se calhar, nem chega. Mas a televisão é que eu não vendo.

 

– Ainda bem. Olha, é a única alegria que nos resta desse tempo.

 

E o tempo passou, o senhor Joaquim foi para Outra fábrica, o Zé Luís foi trabalhar . porque era preciso ajudar a família, e assim se equilibrou aquela gente como foi possível.

 

Um dia, estavam a ver as notícias pela televisão.

 

Locutor

 

– Acabou de ser inaugurada no Algarve uma explêndida unidade hoteleira de propriedade do senhor Rolim, célebre industrial de cortiça.

 

– O quê? Eu mato esse malandro, eu mato-o.

 

– Locutor – a inauguração teve a presença do sr. Almirante Américo Tomás, excelentíssimo Presidente da República e ourras altas individualidades da vida política e empresarial Portuguesas.

 

 – Desliga essa merda, ou eu parto isso tudo.

 

– Oh Joaquim, pronto deixa isso. Já passou. – Deixe isso, pai.

 

 – Olha Zé Luís, abre os olhos, nunca te esgueças do que são estes malandros. Vou- me deitar.

……………………………………………. 

 

O senhor Joaquim acabava de fazer a mala, e perguntou:

 

– Então, não se despacham?

 

– Para onde é que vamos?

 

– É surpresa 

 

Longa viagem, chegaram ao Algarve, e dirigiram-se a um hotel magnífico.

 

 _ Tem quartos? _ Com certeza.

 

 – Um para mim e para a minha mulher, e outro aqui para o rapaz.

 

Passaram dias magnificos, praia, campo, grandes refeições no hotel.

 

 – Bem, jd estou farto de férias. Vamos para casa, disse o senhor Joaquim.

 

 – Já, oh pai, tinha combinado ir ao baile com a Isabel.

 

 – Fica para a outra vez. Vamos embora.

 

 Na recepção.

 

– Ora o senhor Joaquim tem aqui a sua continha, são ….

 

 – Eu não pago. Ponha na conta do seu patrão, do senhor Rolim, desse malandro que me roubou e me pôs na miséria. Gritos, barafunda, polícia, confusão.

 

  

O senhor Joaquim acordou em sobressalto.

 

 – O que foi, homem?

 

– Foi um sonho.

 

 – Mau ou bom?

 

 – Bom. Já vou dormir melhor.

 

O senhor Joaquim nunca realizou este sonho, nem outro qualquer. Emigrou, como tantos outros.

 

Quanto ao Zé Luís, dizem que ele fez partee de muitos que lutaram contra este fascismo de bom gosto e bom tom, e também contra o outro que apelidam de vulgar e ordinário.

 

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