O drama do Senhor Joaquim – II
Na grande cidade não perdeu tempo e foi ao escritório na Baixa.
– Não, o senhor Rolim não está, disse o porteiro.
– Eu preciso de falar com ele, vim de longe.
– Tem vindo cá muita gente, mas ele não está cá. Deve ter ido ao estrangeiro.
– Eu não saio daqui sem falar com ele. Estou desgraçado, tenho de pagar aos homens que trabalham comigo, o senhor Rolim conhece-me bem, ele gosta muito do meu Zé Luís, eu nem acredito no que se está a passar.
– Foi uma desgraça, suspirou o porteiro, quem havia de dizer … uma casa destas! O senhor quer um cigarro?
– Não, obrigado, agora não me apetece. Mas não se pode dar um recado a alguém?
– Posso tentar telefonar para a secretária dele, mas aviso já o amigo que isto não vai dar resultado nenhum. Como é que o senhor se chama?
– Joaquim, diga que eu sou o Joaquim, o pai do Zé Luís.
– Um momento … sim, olhe menina Felizbela, desculpe incomodar mas está aqui um senhor, diz que veio de longe, é o senhor …
– Joaquim, pai do Zé Luís.
– É o senhor Joaquim, pai do Zé Luís. Está bem, eu espero.
– Esperamos um bocadinho, ela já diz qualquer coisa.
Trrim! Trrim!
– Já?! Sim, como? Ah, está bem.
O porteiro, surpreendido, desligou, e disse para o senhor Joaquim subir ao 7° andar.
– Oh senhor Joaquim, muito gosto em vê-lo, a senhora Idalina, o menino, esse malandro do Zé Luís, está bom?
– Tudo bem, graças a Deus.
– O senhor Joaquim vem por causa do dinheiro, não?
– É verdade, senhor Rolim, tenho de pagar aos homens, estava a contar que o senhor pagasse.
– Isto foi uma desgraça, foi uma desgraça.
– Senhor Rolim, não há negócio, paciência. Mas dê-me a cortiça outra vêz; eu vejo se a vendo noutro sítio.
– Oh senhor Joaquim, eu já não tenho a cortiça, foi lá para fora, não me pagam, o que é que eu hei-de fazer?
– Senhor Rolim, não me desgrace. Eu não posso acreditar que não tem dinheiro para me pagar aquela meia dúzia de tostões.
– Não tenho, não tenho. Desculpe, mas não posso fazer nada.
– Não me desgrace, disse o Joaquim apontando-lhe a pistola, não me desgrace, olhe que eu mato-o.
– Mate-me, mate-me, o que é que quer que eu faça? O senhor Rolim chorou, invocou a amizade que tinha pela família do senhor Joaquim, gritou contra a sua infelicidade, e o Joaquim saíu sem ouvir as últimas lamúrias.
– Foi assim, mulher, o que é que eu podia fazer?
– E agora?
– Agora vou vender a fabriqueta para pagar aos homens e vou fábrica grande, o que é que queres que eu faça?
– É preciso vender tudo?
– Se calhar, nem chega. Mas a televisão é que eu não vendo.
– Ainda bem. Olha, é a única alegria que nos resta desse tempo.
E o tempo passou, o senhor Joaquim foi para Outra fábrica, o Zé Luís foi trabalhar . porque era preciso ajudar a família, e assim se equilibrou aquela gente como foi possível.
Um dia, estavam a ver as notícias pela televisão.
Locutor
– Acabou de ser inaugurada no Algarve uma explêndida unidade hoteleira de propriedade do senhor Rolim, célebre industrial de cortiça.
– O quê? Eu mato esse malandro, eu mato-o.
– Locutor – a inauguração teve a presença do sr. Almirante Américo Tomás, excelentíssimo Presidente da República e ourras altas individualidades da vida política e empresarial Portuguesas.
– Desliga essa merda, ou eu parto isso tudo.
– Oh Joaquim, pronto deixa isso. Já passou. – Deixe isso, pai.
– Olha Zé Luís, abre os olhos, nunca te esgueças do que são estes malandros. Vou- me deitar.
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O senhor Joaquim acabava de fazer a mala, e perguntou:
– Então, não se despacham?
– Para onde é que vamos?
– É surpresa
Longa viagem, chegaram ao Algarve, e dirigiram-se a um hotel magnífico.
_ Tem quartos? _ Com certeza.
– Um para mim e para a minha mulher, e outro aqui para o rapaz.
Passaram dias magnificos, praia, campo, grandes refeições no hotel.
– Bem, jd estou farto de férias. Vamos para casa, disse o senhor Joaquim.
– Já, oh pai, tinha combinado ir ao baile com a Isabel.
– Fica para a outra vez. Vamos embora.
Na recepção.
– Ora o senhor Joaquim tem aqui a sua continha, são ….
– Eu não pago. Ponha na conta do seu patrão, do senhor Rolim, desse malandro que me roubou e me pôs na miséria. Gritos, barafunda, polícia, confusão.
