VIVER NÃO CUSTA. O QUE CUSTA É SABER ENSINAR A VIVER – por Raúl Iturra

  
 

 

 
 
Para Celso Costa, Arquitecto, marido da minha amiga Maria Luiza Cortesão, que soube viver, e ensinar a viver, um militante da liberdade com os Cortesão, falecido ontem.

 

Sem saber como nem quando, nascemos. Nascemos sem saber o como e o porquê. De certeza, somos resultado de uma violenta paixão dos nossos adultos. Essa paixão que não permite pensar, apenas agir. Essa paixão tem um resultado, a maior parte do tempo, de dar vida. E o caminho ao Gólgota começa . Dizer que viver não custa e, a seguir, referir o caminho ao calvário, parece uma contradição. No entanto, contradição não é. Dizer que viver não custa é já definir esse caminho semeado de espinhos dos preços, os horários intermináveis de trabalho, descontar o dia no qual não se trabalha. Um desconto feito pelos mais poderosos do mundo que apenas querem acumular com a força de trabalho dos outros. Essas espinhas que nem permitem tomar conta de nós nem dos nossos, quando estão doentes. Espinhas inevitáveis. A vida ensina como somos matéria e que essa matéria, ou se cansa, ou se aborrece, ou nem sabe como se entreter. Não é em vão que Alice Miller comente o que está na citação da nota de rodapé Es por meio de estas ideias de Alice Miller, do abuso que a criança sobre ao ser sempre considerados pessoas que não estão bem, que a sua dotação intelectual é mais baixa do que a normal, que entendemos finalmente, que viver não custa, o que custa é ensinar a saber viver. Viver não custa desde que se saiba poupar às doenças, entender de economia e de gerir o corpo e a inteligência, com diligência, com informação.

 

Os mais novos aprendem estas ideias e outras, pelo real calvário dos seus pais, esses adultos que são a força de trabalho de uma nação, como já advertia Marcel Mauss em 1924 . Ao aprender estas ideias, especialmente a minha teima de que a religião é a lógica da cultura, como reitero em vários textos, especialmente no texto do seminário de Universidade da Beira Interior, Beira Alta, Em Nome de Deus , é já na catequese que a criança sabe o que é bom e mau, o que deve ou não ser feito. Quer os catequistas, quer os pais que se autodenomina cristãos romanos ou católicos, vivem a sua vida de forma simples. Eles fazem como entendem ou que sentem.. As crianças, se fizerem como entendem, são punidas. As crianças se sentirem e exprimirem as suas emoções, são postas de partes. Daí que viver não custa: os adultos guardam os seus bem incutidos pensamentos dos Dez Mandamentos, no bolso, especialmente os homens. É no meio desta contradição que as crianças nunca mais aprendem e passam a ser como os seus adultos, mais tarde na sua vida.

 

E mais nada digo

 

É apenas um esboço para o livro que preparo com o título do cabeçalho. Debatido com os Cortesão, que merecem, de longe, este texto, para me ensinarem mais. São saberes em desencontro , entre adultos e crianças, que acabam por desabar aos mais novos. É por esse motivo que, ou são punidos os mais novos…ou são levados ao especialista, saiba deus por quê. Normalmente, no mal empregue psicanálise. Que nada adianta. Eis porque viver não custas, o que custa é ensinar a viver entre estas referidas sintéticas ideias.

 

(1)Gólgota é sempre definido como Calvário, mas não como um Calvário qualquer: Calvário (em aramaico Gólgota) é o nome dado à colina que na época de Cristo ficava fora da cidade de Jerusalém, onde Jesus foi crucificado. Calvaria em latim, Κρανιου Τοπος (Kraniou Topos) em grego e Gûlgaltâ em transliteração do aramaico. O termo significa “caveira”, referindo-se a uma colina ou platô que contém uma pilha de crânios ou a um acidente geográfico que se assemelha a um crânio.

 

(2)“a relação psicanalítica, a que chama de “pedagógica”, onde o “terapeuta” tem um projecto explícito ou implícito para o seu “paciente” e tudo faz para engajá-lo em sua “verdade” preestabelecida; e, em contraposição, a atitude não-pedagógica, onde o terapeuta tenta criar condições para o desenvolvimento individualizado do “parceiro” daquela “viagem a um País desconhecido que ainda não existe.” Em Alice Miller, 1984: MILLER, Alice. Thou Shalt not be Aware: society’s betrayal of the child. N.Y., Farrar, Strauss, Giroux, em: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Alice+Miler+Thou+shalt+not+be+aware&btnG=Pesquisa+do+Google&meta= traduzido ao luso brasileiro, em 1986, como: O Drama da Criança Bem Dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. Texto que diz: Alice Miller mostra como somos desviados dessa verdadeira natureza humana por um processo educativo alienante e caduco, obrigados a satisfazer exigências explícitas e dissimuladas de nossos pais para nos sentirmos merecedores do seu amor. Nova edição, revista e anualizada em 1997, na várias entradas Internet de: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Alice+Miller+O+drama+da+crian%C3%A7a+bem+dotada&btnG=Pesquisar&meta= Também traduzido e apresentado, em edição brasileira de Walter F. da Rosa Ribeiro. Summus Editorial Ltda. A versão castelhana em Tusquets, Barcelona, 1997: El drama del niño bien dotado, en: http://www.agapea.com/El-drama-del-nino-dotado-n114443i.htm http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Alice+Miller+O+drama+da+crian%C3%A7a+bem+dotada&btnG=Pesquisar&meta= Informado no ensaio de Walter Ribeiro de 2006, texto que é possível ler em: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Alice+Miller+O+drama+da+crian%C3%A7a+bem+dotada&btnG=Pesquisar&meta= Está em luso brasileiro que deve ficar como está, para não perder ligações para outras avenidas do saber Mauss, Marcel: l’Année Sociologique, seconde série, livro de Press Universitaires de France o PUF, texto que pode ser lido todo em : «Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques» (1923-1924) : L’article en format Word 2001 à télécharger. Comentado em: http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0003-25732005000300015&lng=es&nrm=iso , Anál. Social n.175 Lisboa jul. 2005. O Gólgota não é um lugar que faz alguém sorrir toda vez que se passa por ele. Crianças não pedem para brincar lá. Famílias não fazem piqueniques naquele local. Programas infantis não são gravados e nem excursão escolar quer ir para o Gólgota. Não há beleza naquela parte da cidade. Não se encontra cartão postal sendo vendido pelas ruas e nem turistas querendo fazer uma visita. Nunca nenhum artista fez uma música do tipo; “Cidade maravilhosa…”. Mas o que se vê é um lugar sombrio e cheio de pedras. “Levando a sua própria cruz, ele saiu para o lugar chamado Caveira” (João 19:17). Foi assim que João descreveu aquele momento. • Saberes em desencontro. O desabamento da criança.

 

(Raúl Iturra; Jornal “a Página” , ano 10, nº 102, Maio 2001, p. 24.)

 

Raúl Iturra ICTE/CEAS/Amnistia Internacional lautaro@netcabo.pt

10 de Maio, dia do nascimento do meu neto Bem Iturra Ilsley, em Cambridge, e da sua entrada nas nossa emoções e memórias.

 

 

 

Mozart, Requiem Mass in D Minor.

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