Fiat Lux sobre as mentiras dos nossos dirigentes, sobre as Instituições
1. Zona euro : Sarkozy trabalha para os bancos franceses?
A cimeira europeia deste Domingo continua mais tarde devido a divergências entre a França e a Alemanha. Neste combate, a França está sozinha : os Estados-Membros suspeitam cada vez mais das posições assumidas pela França e temem que estas estejam marcadas pela influência para não dizer pela dominação do sector bancário. A 21 de Julho, na presença do Presidente de Deutsche Bank, Joseph Ackermann, representando o Institute Internacional of Finance e de Michel Pébereau, um acordo sobre “um sacrifício” de 21% tinha sido anunciado e concluído. Foi necessário três meses para que os Parlamentos nacionais aprovem este acordo. Mas não será aplicado. Voltaram-se a colocar as cartas na mesa. A Europa discute mas não é capaz de agir.
A razão? A ideia de uma necessidade de recapitalização dos bancos. Esta afirmação não tem verdadeiramente nenhum fundamento . Os concorrentes europeus dos bancos franceses não deixam continuamente de o afirmar. De repente, a França quer que o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira disponha de meios para intervir na recapitulação dos bancos. Percebe-se bem a manobra: os bancos franceses estão fragilizados, e a sua notação foi diminuída. A França não ousa recapitalizá-los com o medo de perder a sua notação AAA da qual faz o seu cavalo de batalha. A França procura por conseguinte que se recapitalizem os bancos franceses por mecanismos europeus. Ninguém é estúpido.
Esta posição é do ponto de vista moral, financeiro, social e politico, totalmente indefensável
– Moralmente, uma nova intervenção em defesa dos bancos levanta alguns problemas fundamentais: a Europa não pediu aos bancos que se reestruturem. Os Estados continuam a fazer do contribuinte o apoio de última instância de banqueiros que não diminuíram nem num só euro as suas remunerações gigantescas. Nenhuma regulação afectou substancialmente os bónus e as afirmações “de respeito dos princípios do G20” não passam ao nível da análise: os princípios do G 20 estão com efeito esvaziados de conteúdo prático. Os banqueiros asseguraram-se de que as tentativas da Europa em impor tais restrições permanecem ssobretudo nos cartões das intenções.
Financeiramente, os bancos não têm necessidade de serem recapitalizados excepto se falsificarem as suas contas, (hoje, tudo é possível) ou se continuaram a acumular posições especulativas. Que os bancos franceses tenham adquirido bancos na Turquia, na Itália ou na Grécia é uma decisão estratégica e não há nenhuma razão para recapitalizar ou para financiar estas sucursais. Mas a sua recusa em abandonar as suas actividades consumidoras de fundos próprios é inaceitável. Os bancos europeus (e franceses) devem diminuir a sua dimensão em cerca de 25% em média e, sobre “a gordura” mas não sobre as actividades de crédito à economia. Os bancos franceses continuam a ser os líderes em produtos derivados. Nenhuma das medidas de reestruturação pelas quais passam os bancos não foi imposta aos bancos europeus. Para além do mais, trata-se dos bancos que se opuseram a que os testes stress de Julho fossem transparentes e sobretudo que tivessem em conta o impacto de uma reestruturação inevitável das dívidas soberanas de certos países da zona euro.
Politicamente, não é aceitável que uma vez mais nem um só um euro seja gasto pelos bancos depois da crise de 2008. Nenhuma responsabilidade é exigida aos bancos e aos banqueiros pelas intervenções dos governos. Não há nenhum dogma que lhes dê este direito. O eleitor atingiu um nível de exasperação que gera acções como as que vivemos em Wall Street e que agora se tornaram contagiantes na Europa. A tentativa actual de fazer resolver pela Europa os problemas bancários não é aceitável em nenhum país europeu. Sobretudo desde a crise de 2008.
Socialmente, vir socorrer a profissão mais bem paga é inaceitável. No momento em que a França tem o défice mais elevado de todos os AAA do planeta, e nunca chegará evidentemente a um défice zero em 2013, deverão ser pedidos sacrifícios importantes à população. É inconcebível que uma parte deste défice e da dívida de França seja aplicada a recapitalizar o sector bancário. Têm os meios para perfeitamente se poderem reestruturar, ainda que isso passe por algumas reduções de benefícios, e por conseguinte de remunerações.
O debate europeu está bloqueado desde há meses pela defesa total do sector bancário feita por Nicolas Sarkozy enquanto que a Alemanha defende uma participação deste sector na solução das dívidas soberanas. Tem sido isto que provocou um agravamento da crise europeia e em proporções completamente inverosímeis. Os prejuízos já se calculam em dezenas de milhares de milhões de euros.
É tempo de reposicionar os pêndulos na hora certa, é tempo de renúncia às reivindicações da França que só custam muito, mesmo muito à Europa e ao contribuinte francês. A responsabilidade dos Estados-Membros da zona euro é a gerir o desequilíbrio do endividamento, não é a de recapitalizar os bancos que verdadeiramente não têm necessidade.
Georges Ugeux, PDG de Galileo Global Advisors, Eurozone: Sarkozy roule-t-il pour les banques françaises? , Le Monde, 22 de Outubro de 2011
2. A Europa estará a manipular os dados da Grécia e da recapitalização ?
Isto está a tornar-se intoxicação pura e simples. Em nenhum caso uma recapitalização dos bancos europeus de 100 mil milhões pode ser justificada pela dívida soberana grega. Vejamos primeiramente os valores globais :
O valor dos titulos em aberto detido pelos bancos é pois da ordem de 81 mil milhões de euros. Ora não se trata de uma perda total do valor destes títulos. Onde se encontram estes 81 mil milhões ?
Como 49 mil milhões de euros estão na posse dos bancos gregos, os outros bancos europeus teriam em títulos gregos um valor global de 32 mil milhões de euros. Mesmo se finalmente cerca de 50% desta dívida fosse perdida , o montante máximo seria então de 16 mil milhões! O acordo de 21 de Julho previa já um sacrifício de 21%. A ausência de transparência e a confusão criadas pelas informações emanando das discussões europeias começa furiosamente a dar o ar de manipulação política . Encontrámo-la magnificamente no caso de DEXIA onde a Grécia representava apenas 3,7% dos activos dos 100 mil milhões de euros que são financiados com a garantia da França e da Bélgica, o que não impediu os governos em questão de fazerem – erradamente- de DEXIA uma “vítima da crise da zona euro” e não o resultado da sua má gestão. Nenhum banco privado alemão ultrapassa os dois mil milhões de titulos da dívida grega . Em França, o BNP Paribas tem 5 mil milhões e a Société Générale 2,6 mil milhões.
A única explicação é que a recapitalização dos bancos europeus de que tanto se fala e tanto se quer realizar visa outras situações que não a Grécia, mas entretanto só se fala apenas dela.
Sem transparência, a desconfiança dos investidores face à Europa não se dissipará.



