Podemos acusar a sociedade norte-americana de muitas deformidades, mas tem de se lhe reconhecer uma quase ilimitada liberdade de expressão. Para o cinema, para a televisão, imprensa e mundo editorial, a chamada teoria da conspiração tem rendido muitos milhões de dólares – para o universo das indústrias da informação e do entertenimento não existem instituições sagradas – todas podem ser acusadas das mais torpes felonias. As temíveis centrais de inteligência, a CIA e o FBI, são em filmes, séries televisivas ou em romances, envolvidas em tramas sinistras de uma forma que talvez a PJ ou o CIS não aguentassem. Nesta ânsia de efabular a perversão, nem o Presidente escapa. Estou a lembrar-me de um filme, Poder Absoluto (Absolute Power, 1997), realizado por Clint Eastwood, em que o criminoso é precisamente o presidente dos Estados Unidos, interpretado por Gene Hackman. Será que em Portugal, um filme que envolvesse o mais alto magistrado da Nação num assassínio seria bem visto? Não vou fazer uma lista desses filmes. Vou apenas lembrar All the President’s Men (Os Homens do Presidente) realizado por Alan J. Pakula em 1976. Nele se faz a desmontagem do escândalo de Watergate. Dois jornalistas do Washington Post. fazem um trabalho de investigação – Robert Woodward (interpretado por Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman),, descobrindo uma rede de espionagem e lavagem de dinheiro, o que acaba por levar à renúncia do presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, dado o seu envolvimento no escândalo.
Na indústria editorial, entre muitos exemplos possíveis, estou a lembrar-me de John Grisham, o sexto escritor mais lido nos Estados Unidos. Formado em Direito, escolheu essa área para tema dos seus livros, denunciando as fragilidades do sistema judiciário americano e o papel deletério de muitas das grandes firmas de advogados. Um dos seus maiores êxitos é precisamente The Firm, 1991 (A Firma), passado ao cinema e protagonizado por Tom Cruise. Não acredito que em Portugal acusações tão claras à estrutura judicial do País, fossem bem recebidas – e o nosso sistema judicial que tanto precisava de ser criticado. Mesmo que fosse em romances de aeroporto. E vou apenas referir mais um caso – o da realizadora Kathryn Bigelow que preparava um filme : Kill Bin Laden (“Matar Bin Laden”, em tradução literal) – baseado na tentativa falhada de assassinar o líder da Al Qaeda. Surpreendida pela morte de Bin Laden, o filme esteve para não se fazer, optando-se finalmente por manter a história, acrescentando este desfecho. No próximo ano, «num cinema perto de si», poderá ver Osama Bin Laden a ser morto pelos seals.
Mas será que esta liberdade de abordar temas delicados é uma vantagem para o sistema democrático? Acho que não – tem pelo contrário um efeito perverso: Quando as coisas acontecem fora dos ecrãs ou das páginas dos romances de aeroporto, em Guantánamo, no Iraque, no Paquistão, ou no Afeganistão, a maioria dos cidadãos norte-americanos acha normal. Em suma, tudo o que de negativo existe na sociedade norte-americana pode ser denunciado e criticado – do racismo à tortura. As maiores atrocidades e as mais sinistras conspirações são antecipadas. O efeito é perverso. Uma espécie de vacina contra os sentimentos humanos.
Se amanhã os Estados Unidos decidirem lançar bombas nucleares sobre o Irão, muitos americanos (talvez a maioria) acharão normal – encolherão os ombros e dirão – já vi este filme. Não é liberdade de expressão é vacina. Naturalmente que esta acefalia colectiva não traça um retrato de corpo inteiro da sociedade norte-americana – há uma percentagem elevada de americanos inteligentes, cultos, bem formados, informados e preocupados com o rumo que as coisas estão a tomar.
Porém, na sua maioria, os norte-americanos confundem o seu mundo com o Mundo. E o seu mundo, mais enformado do que informado, pelas fantasias de Hollywood, dos canais de televisão, funciona muito em circuito fechado – um universo concentracionário. É vulgar o vencedor da final de qualquer desporto que só ali se pratica ser designado por «campeão do mundo». Para a maioria dos norte-americanos, o «mundo» são eles; os outros continentes e países, arredores insignificantes. Para eles o direito de intervenção em qualquer ponto do globo é um direito sagrado – tal como os reis se consideravam ungidos por Deus, o povo dos Estados Unidos acha que tem a missão de meter na ordem tudo e todos. Na «sua ordem». O pior é que na Europa e por esse mundo fora, há também quem pense que eles tem esse direito. Poder absoluto para os Estados Unidos. Se alguém se opõe a esse poder absoluto, chame-se Fidel, Kadhafi ou Bin Laden, merece ser morto. Fora do american way of life não existe vida. E se existe não devia existir. Kill Bin Laden, Kill Kadhafi… num cinema perto de si, num continente perto de si.
