Gostei do seu texto, meu amigo João, gostei de o ver reconhecer que não se deve manchar um produto de alta qualidade como o vinho Alvarinho confundindo-o com alguém que se está a portar com uma nódoa, que pelo nome de ministro dá e de Álvaro da Economia se quer assim chamado.
Gostei do seu texto, meu amigo João, com as suas insistências, que estão a rondar o seu desejo brutalmente quase manifestado, de sobre a Carla Bruni saltar. Seria possivelmente certo que, quando novo, mas esses tempos sob as pontes já passaram e com eles muitas das minhas aspirações as águas por baixo delas levaram, da Carla Bruni eventualmente gostaria. Mas, hoje, só de pensar nesta Europa em decomposição, antecâmara da República de Weimar, ou será que já estamos nela, me agonia e nem sequer esse desejo, se pudesse existir, para ela canalizaria. Hoje, só de pensar na forte depressão económica em que nos situamos e no ataque que à Europa pelo marido dela, pela senhora Merkle, lindo par, se anda a organizar, nas nossas barbas e com as nossas cumplicidades também, só de pensar nisso meu caro João, nada disso me seria lógica e emocionalmente possível.
Gostei do seu texto, meu amigo João, gostei pela malandrice que manifesta, ou pelo aspecto acusatório que apresenta, duas coisas que considero contraditórias, mas se calhar possível numa personagem rica e contraditória como o João são-lhe estruturais. E trata-se de características directamente proporcionais. Vejamo-las, uma a uma. Dizes-me, meu grande amigo, mas dizes-me isso por um lado com um tom de me chamar incompetente e por outro com ar de que sou o culpado e que por isso devo ser punido, o seguinte:
“ E peço-te, explica-nos como é que deixaste o Alvarito ir cair no colo do Milton Friedman. Porque não o vais procurar, e lhe puxas as orelhas? A Argos está pronta para para te acompanhar nessa expedição.”
Já não lhe chamas Alvarinho o que prova seres bom estudante. Alvarito, já não está mal. Rectificaste-te. Agora acusas-me de o deixar cair nas mãos do Milton Friedman e comparsas. Lamento, mas disso não sou culpado. As pessoas e os povos aprendem e esquecem. No caso dele, depende do contexto e do texto que lhe pagaram para em Vancouver ler. E o ambiente, garanto, não aí era politicamente bom. Havia um primeiro ministro que em capacidade de aldrabar batia com toda a velocidade o nosso campeão nacional, José Sócrates. Viu-se, pois com o nosso Álvaro da economia como foi . Tudo o que de bom terá por aqui aprendido, e bem nos esforçámos, juro, tudo isso jaz agora na sepultura de tudo o que por ele foi esquecido. Normal e do que é normal na Humanidade não podemos ser culpados nem acusados, como o faz, meu amigo João. . Não tivemos nós um Salazar que durante décadas o país parou, o país bloqueou? Tivemos. Então, como é que esquecemos tudo isso e estamos lá a colocar um que até se prepara para ainda ser pior. E disso também me acusas a mim? Se sou culpado de uma coisa, também sou da outra. Como não sou culpado da segunda constatação também não o sou da primeira e fica assim resolvida a resposta ao primeiro período da frase assassina, “E peço-te, explica-nos como é que deixaste o Alvarito ir cair no colo do Milton Friedman “.
Resta-nos o segundo período esse perigosamente assassino: “Porque não o vais procurar, e lhe puxas as orelhas?”.
Meu caro João, um governo já muito próximo do fascismo está a tomar o poder. O silêncio e o medo instala-se por essa cidade, por este sítio outrora de país chamado e por isso considerado, e o desejo esse apaga-se e ainda há quem se deseja projectar na Carla Bruni e pelos desejos dela se deixe dominar!” Não meu amigo não seja burro, não se arme em ingénuo, o fascismo passou por si, que Diabo, ou acha que isto vai lá com um puxão de orelhas? Não vê o desprezo do seu Ministro , pelo Expresso de Gaspar considerado, o desprezo que lhe fala, a si meu amigo João e a todos os portugueses também? Não vê o cinismo de um ministro, que vai discutir à Assembleia um programa de transportes de que só há a capa do programa? Não vê doutoralmente um homem de que me envergonho hoje de reconhecer como meu antigo aluno, assumir publicamente face a si, meu amigo João, face aos portugueses a viverem neste sítío agora bem sofrido, face ao mundo dos incrédulos que a crise, essa em 2012 vai acabar e que depois disso a nossa barriga se poderá bem alimentar? Não vê, isso, meu amigo João?
Resta agora o aspecto acusatório dessa interrogação. Ou quererá que os famintos deste país que já são muitos, que os desempregados deste sítio que emprego já não encontrarão, que as duas gerações perdidas de jovens em Portugal que futuro não terão, que os nossos reformados que quase sem reforma ficarão, que os pequenos empresários deste país de portas a fecharem de falidos que estão e que tão depressa as não abrirão, que os editores de livros bons que já não vendem e por isso já não os editarão, que os empregados em condições que se aproximam vertiginosamente das condições dos operarios da Foxconn na China ou de France Télécom de há três anos, que todos eles em massa, em vez de se manifestarem contra um governo e os seus simbolos maiores, como a banca por exemplo, se manifestem contra um pobre professor, que um dia teve o azar de um certo Álvaro encontrar? Será isso que quer, fazendo exactamente o que os fascistas a dominar o poder querem que se faça? Será isso, meu amigo João?
Em breve, de professor me vou embora. Desse dia e nesse dia publicarei um texto sobre o que nunca ensinei, sobre o que de muito não sei, mas desse texto, pela Viagem a publicar por pequenas partes, lhe deixo um excerto, a servir de resposta à sua ignorãncia ou ao seu cinismo, bom pretexto para esconder o seu desejo de uma Carla Bruni vir a ter.
Um excerto então:
Mais do que todas as palavras que se possam nestas páginas escrever, mais do que tudo aquilo que se possa agora descrever, face ao que sentimos para trás a partir da história de uma Europa passo a passo construída e que de muitos ataques de especuladores foi defendida, face ao que agora vemos, ou não vemos, por causa de um futuro sistematicamente destruído por uma miríade de investidores que se dizem nela Europa ter investido, um ministro, um regulador quem quer que seja, um dos muitos neoliberais muito bem pagos nestes mercados que nos venha explicar estes gráficos, ( os gráficos dos spreads dos CDS) estes valores, e que nos digam qual o fundamento económico à escala da formação de riqueza, não da sua apropriação, a justificar que a Grécia se financie ou refinancie a um custo superior a quatro vezes o custo da imperial Alemanha, ou que Portugal se financie ou refinancie a um custo superior a quase 2,5 ao deste mesmo país. A dureza da realidade destes dos gráficos, a grandeza das taxas, tudo fala por si mesmo para quem seja surdo, tudo isto a vista incomoda mesmo para quem seja cego. De palavras sentidas e bem contidas, basta. Sabemos, todos o sabemos, que uma coisa é a produção de riqueza material, o PIB diremos, outra coisa é a apropriação do seu valor, e creio que todos nós, todos os que trabalham para a formação dessa mesma riqueza, todos aqueles que no fundo se sentem com direito a um palmo de descanso em comodidade, depois do trabalho em vez de se agastarem a pensar como minorar a adversidade da escassez de recursos que lhe parece ter caído do céu, todos aqueles sentem a profunda assimetria de uma zona monetária que tem como política cambial, a política que os outros determinam, que tem como política industrial o que os outros industrialmente não fazem, que tem como política de emprego a formação do desemprego, que tem como política contra a desigualdade social uma política de alargamento das disparidades na repartição de rendimento. Todos eles sentem a profunda assimetria de uma política monetária única mas com taxas de financiamento das suas políticas económicas nacionais diferenciadas, a baixo custo para os países financeiramente mais fortes e a muito elevado custo para aqueles que afinal têm dificuldade em pagar, em vez de euro obrigações a taxa única para todos. Todos eles sentem que novos mecanismos de acumulação primitiva estão assim a ser criados, tanto ao nível das classes sociais mais favorecidas e como ao nível dos países economicamente mais fortes, e que, por isso mesmo, todos os outros , como nós, sentem afinal, como Carlo Levi talvez, que o Cristo de todas as nossas culturas, de todas as nossas religiões, esse, em Eboli aterrado parou mas Eboli é afinal esta Europa sonhada e desejada por todos aqueles que a trabalhar realmente a construíram, e aí bloqueado ficou por estes mercados, por todos estes agentes financeiros, autorizados que foram pelos políticos que a politica parecem desprezar e que claramente consentem que esta Europa, por todos eles, em conjunto, esteja agora a ser arruinada, para não dizer mesmo, esmagada.”
De Janeiro até agora muita tinta já correu, muita água pelas pontes também já passou, muitos planos de austeridade esta Europa sacrificada já viveu e com isso tudo se degradou. Parafraseando as palavras de um jornalista italiano a propósito da queda de Berlusconi, que no nosso caso podia ser a queda de Sócrates podemos agora claramente afirmar: Mas a era do medo essa ainda não acabou, antes pelo contrário ainda mais se ampliou. O tempo das ameaças ainda não terminou, simplesmente aumentou . E mesmo agora, há ainda a acrescentar o tempo das lágrimas e do sangue que, inevitavelmente, devido à passividade daqueles que o precederam, o próximo executivo nos está já a reservar e a organizar. E o novo governo português esse mostrou que a tudo está disposto para continuar a política suicida desenhada em Bruxelas e imposta também pelas agências de rating e pelos mercados financeiros, mesmo que com isso Portugal de país se transforme em sítio em que tudo será posto aos desbarato no mercado global. Cristo não terá parado em Eboli, agora estará talvez às portas de Lisboa com estas portas bem fechadas pelos servidores do absurdo, o governo português, para que Ele não veja a extraordinária maldade dos homens que este país estão a desgovernar.”
De nada disto, João Machado e bem maldoso, eu não posso ser acusado.
E é tudo.
