VIAGEM COM PASQUALINI- 4 – por Sílvio Castro

 

 

(Continuação)

 

A viagem de ida é como o céu aberto numa estrada que corre sempre sempre na planura.

 

Pasqualini me disse

 

para que possamos usar e dizer a palavra conveniente à denúncia do abuso do poder político, no desejo de proteger os interesses populares, mesmo ao ponto de levar as instituições à desestabilização, temos de conhecer bem, e sempre mais, a natureza da linguagem política. Esta não corresponde necessariamente aos programas dos partidos a que pertencemos; nem mesmo está ligada em maneira absoluta aos princípios que guiam a nossa pessoal consciência política. Muitas vezes os programas perdem a atualidade de ação a que se propunham, e os princípios que ontem nos pareciam insubstituíveis, hoje carecem de participação com a justiça social. Então o político tem a obrigação moral e intelectual de criticar as antigas convicções; principalmente se deve passar da simples reflexão ao ato político de denúncia da própria crise. Ele não deve temer a sua crise, mas estimá-la.

 

A linguagem mais conveniente ao político conhecedor da crise e desejoso de usar a verdade como instrumento último de denúncia é aquela que nasce da consciente diminuição intesiva dos significantes para a total valorização dos significados. Os significantes então não serão os elementos principais da linguagem política, mas sim os significados, os problemas, as denúncias que suplantam os significantes vazios no discurso. Não existirão margens de ambiguidade na defesa da democracia e nem serão procuradas formas de enganos da vontade popular: para isso será abandonada toda ênfase dos significantes puramente retóricos, da demagogia. Existirá somente a denúncia na procura revolucionária das instituições restauradas. Pasqualini me disse caro amigo, muitas são as questões que impedem sempre a destruição do «deficit» de democracia em que continuamos a viver. São questões que interessam tanto à vida interna, quanto àquela externa do Brasil. Possivelmente é quase um sonho esperar de encontrar soluções para todas elas, porém, a uma conquista concreta desde logo se pode chegar: criar continuidade no empenho para a melhor ação política, seja no referente aos nossos problemas e interesses internos, assim como para com aqueles externos.

 

 

Pasqualini me disse

 

a história das relações entre capital e trabalho no Brasil, mais do que em qualquer outra parte do mundo, é uma quase não-história. Não só pelos fatores comuns a todas as economias ocidentais, mas porque entre nós os dois conceitos conviveram constantemente sob formas anacrônicas, seja porque árdua tem sido a formação do verdadeiro conceito de capital numa sociedade minada por heranças coloniais infrangíveis, seja porque o trabalho desde sempre – e mesmo ainda hoje – foi e é considerado tão somente como fator de conservação do capital; de um capital tendencialmente incapaz de solidariedade social. Precisamos reafirmar com convicção e clareza que, ainda hoje, antidemocraticamente a liberdade no e do trabalho continua sendo considerada um privilégio. porém, na história das relações entre trabalho e capital, apareceram diversas tentativas de compor uma conflitualidade que penalisa sempre o trabalho, paralelamente à oposição quanto a organização de uma política trabalhista moderna. Dentre essas tentativas, vejo sempre com simpatia aquelas que se propunham ou se propõem a novas formas de equilíbrio entre capital e trabalho, procurando novas dimensões para o território do trabalho subordinado. Certamente, na maior parte dessas experiências, chegou-se em geral a uma forma de alteração forçada do conceito mesmo de trabalho subordinado; isto se verificou tanto no caso em que a ação inovadora nasceu por iniciativa sindacal, por expontânea movimentação dos operários interessados ou por iniciativas das instituições, quanto igualmente se procurada diretamente pelo capital. de qualquer forma, mesmo diante do predominante insucesso desses tipos de operação, elas representaram, de certa forma, movimentos concretos para o abaixamento do «deficit» democrático típico de uma economia presa a um capitalismo anacronístico.

 

Pasqualini me disse

 

contra um mercado que vê em si mesmo a razão da existência dos homens, teremos sempre de procurar continuamente alternativas. Trata-se de uma das grandes lutas para a afirmação da liberdade civil; certamente não a única, mas de certo uma das mais importantes. a economia de mercado deve ser endereçada – e mesmo condicionada – à solidariedade, meta de liberdade a que nos aproximamos com projetos objetivos e concretos. a economia da solidariedade é o instrumento indispensável para a continuada luta pela diminuição do «deficit» de democracria em que vivemos desde sempre. Através dela pode-se chegar a um confronto concreto com o mercado tendente à imposição do consumo contra a liberdade que cada um deve ter em relação a esse mesmo consumo. Devemos chegar a impor ao mercado o direito dos brasileiros de estabelecer, cada um, os próprios graus de consumo. Sílvio, meu jovem amigo, a nossa luta também está aqui. Para isso creio que existam opções variadas para ações político-econômicas. Dentre essas, vejo uma particular eficácia democrática no incentivo às empresas sem finalidades de lucro. Me parece que elas são as que mais diretamente permitem ir além do mercado e de qualquer forma de hierarquia do sistema econômico predominante. Vejo nelas boas perspectivas para aquela que deve ser a meta constante da política pela liberdade do homem diante da competição provocada pelo capitalismo radical: «a sociedade civil de mercado». através de realidades operativas como as empresas sem finalidade de lucro poderemos compreender melhor se é possível um equilíbrio entre a afirmação do valor da solidariedade em confronto com o lucro, sem necessariamente cair no puro discurso ético. afirmar a atividade econômica sem lucro como economia civil, como economia de solidariedade, não é cair em abstrações.

 

Pasqualini me disse

 

Sílvio, tudo isso nos leva conduz sempre a um dos grandes ângulos do quadro das injustiças sociais própria da vida brasileira: o problema do direito ao trabalho justamente remunerado e, de consequência, àquele da desocupação ou o da sua máscara, a subocupação.

 

(Continua)

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