CARTAS DO MEU MAGREBE
O lançamento do livro “Cartas do Meu Magrebe”, no passado dia 28 de Setembro, de que aqui foi dada notícia, foi apresentado por Delfim Sardo (professor universitário doutorado pela Universidade Nova de Lisboa no Departamento de Comunicação e Linguagens, com dissertação sobre o conceito de espaço real e as conexões entre a exposição como dispositivo e o primado da tridimensionalidade na arte do século XX).
Falou sobre o livro realçando que a forma como Ernesto de Sousa observou o Magrebe é a de uma etnografia modernista. Partiu para ver a revolução e a independência na Argélia, da mesma forma que Sartre veia a Portugal “ver” a revolução de 1974. Considera que a sua escrita é a de um olhar crítico, com referências artísticas e com uma metodologia de olhar que vem da prática da crítica, analisando as relações humanas a partir da teatralidade. Definiu Ernesto de Sousa como uma “informação em ventoinha”, não hierarquizada.
O orador não conseguiu deixar de recordar o Ernesto de Sousa que realizou o filme “Dom Roberto”, filme protagonizado por Raul Solnado e Glicínia Quartim e que gerou grande polémica. Foi o apogeu do neo-realismo ou foi o início do”cinema novo”? Delfim Sardo considera este filme neo-realista por abordar questões de natureza social, caracterizando socialmente as suas personagens. Mas também considerou que a forma como elas são abordadas é já do “cinema novo”.
O tema central é a vida miserável de um vagabundo sonhador da cidade de Lisboa, João Barbelas, a quem os garotos deram a alcunha de “Dom Roberto” por o verem deambular com o seu teatro ambulante de fantoches pelas ruas da cidade.
O filme foi seleccionado para o Festival de Cannes, de 1963, onde recebeu a Menção Especial do Júri do Melhor Filme para a Juventude), mas Ernesto de Sousa foi impedido pela Pide de nele comparecer, tendo sido perseguido e preso. Foi estreado no cinema Império a 30 de Maio de 1962.
É um filme que se assume como “político” mas também um filme de vanguarda pela forma como a história é abordada e filmada, pelo tratamento cinematográfico a partir da improvisação. Sardo recordou que, certa vez, no Jornal de Letras e Artes, em 1962, perguntaram a Ernesto de Sousa se Dom Roberto era um filme populista, facto que o deixou furioso. Respondeu que não, e que, como qualquer filme tem tensões e contradições, mas não tinha qualquer tipo de paternalismo.




