VIAGEM COM PASQUALINI – 8 – por Sílvio Castro

(Continuação) 

 

 

Pasqualini me disse

 

a questão burocrática está muito ligada ao problema dos impostos e declaração de rendas.

meu caro amigo, não acaba nunca a nossa batalha pela justiça social. A distribuição da riqueza brasileira entre os brasileiros será sempre uma questão de lutas. A pobreza em que a maioria dos nossos vive não nos permite de calar a voz de protesto. Mais se adianta num processo de incentivo do capital no Brasil, invés de um equilíbrio maior, constata-se a presença de maiores margens de injustiças. Existe o perigo que em determinado futuro a maioria de nós nos encontremos na impotência de conquistar os mais simples bens de subsistência. Isto quando, já hoje, é absolutamente antidemocrático que exista uma minoria, porém vasta, que sofre de tais carências.

 

o direito à saúde, à habitação, à alimentação e a todos os outros meios básicos de existência não pode ser atormentado e negado pela violência da riqueza mal distribuída. Para isso, essencial é a afirmação reiterada do direito ao trabalho livre e à justa remuneração. E, como consequência direta disso, e como lei do Estado, o princípio de que o salário não é renda, e portanto não deve ser taxado de forma alguma. Enquanto isso não acontecer, não poderemos nem mesmo reclamar pela melhor justiça fiscal para as empresas.

faz-se indispensável caminhar na direção da destaxação mais ampla para as pessoas físicas. Com essa meta conquistada crescerá o mercado, integrado num justo conceito de consumo humanizado e, com ele, igualmente será renovada a atividade do capital produtivo.


 Enquanto retomo meus pensamentos como se tivesse caído num poço fundo e das sombras emergesse o medo, o trem corria na velocidade crescente. Na corrida recupero pouco a pouco as lembranças e essas me surgem como se nascessem de fora, da paisagem de Minas que passa imutável pelos meus olhos. No começo de tudo a paisagem é como silenciosa, encoberta pelo rememorar; depois, as imagens visíveis dos campos, das árvores, dos bois, cavalos, pássaros, muitos pássaros, superam as lembranças, e essas se movem como se se recolhessem num ângulo deixado livre pela visão da paisagem na corrida do trem.

 

O trem pára em Uberlândia e depoisem Uberaba. Jáagora o grande movimento de gente, passageiros novos que entram nos vagões e ocupam os lugares antes livres, me distrai dos pensamentos e me conduz para o contato direto com o mudo que se agita na viagem.

 

Finalmente eu também retomo a consciência da viagem. Estou viajando há muitas horas na procura de meu amigo, Antônio Pasqualini, ex-senador, que eu não sei aonde esteja, mas que sei viajante de um outro trem semelhante a este; num trem que neste momento percorre uma parte, que não é esta, do território brasileiro. Quero chegar até ele. Procuro conhecer todo o território que vou encontrando para, assim, melhor poder chegar até onde está o meu amigo. Quero chegar até ele, alcançá-lo, falar com ele. Mas, muitos quilômetros nos separam e mais ainda a triste certeza que tenho neste momento que esta viagem possa transformar-se numa busca impossível. Longas são as estradas do Brasil e muitas. Qual devo tomar? qual a verdadeira?

 

 

 

 

O trem chegou em Sete Lagoas. Voupara Belo Horizonte. Ali, tenho a certeza saberei muitas mais coisas sobre a viagem que meu amigo possa estar fazendo nesse momento.Em Belo Horizontedevo encontrar a linha que me conduzirá ao meu amigo. Quero confrontar-me com as muitas linhas de Belo horizonte; fixar intensamente os trilhos que saem de suas plataformas e partem em tantas direções. Quero tomar do botão-alavanca dos computadores da sala de controle do movimento e dirigir meu trem na direção da bitola estreita que se entreabriu ao meu gesto de liberação.

 

 O Senador passou quarta-feira por aqui. Depois tomou o noturno para Vitória. Eu o acompanhei até a sua cabine. Ele se aloujou, colocou a pequena mala que traz sempre consigo, ageitou as suas coisas diante do espelho do lavatório e me agradeceu, como sempre faz. Ele deve ter chegado em Vitória e dali viajado para o Estado do Rio, poi me falou que há muito não via Campos e as montanhas de Friburgo.

 

O chefe da estação Central de Belo Horizonte me falava do senador como de uma pessoa muito sua conhecida, quase um amigo. Queria me contar mais sobre ele, de como vivia nos trens, de como era sempre gentil e amável com todo o pessoal da Ferrovia. Mas eu não podia mais escutá-lo, porque queria partir para Vitória. Hoje é terça-feira. Ele esteve aqui que já passou quase uma semana. De repente tenho a sensação de que nunca mais o encontrarei, porque quanto mais me aproximo dele, mais ele se afasta de mim num trem mágico que não pára nunca e nunca pode ser alcançado.

 

(Continua)

 

 

Leave a Reply