Ouça! Ouça!… Não deixe de ouvir até ao fim, pois assim terá oportunidade de exclamar: «É realmente incompreensível que pérolas deste quilate estejam excluídas da ‘playlist’ da Antena 1, o canal generalista da rádio estatal que tem a obrigação legal (formalmente estabelecida no contrato de concessão do serviço público de radiodifusão) de divulgar a melhor música portuguesa!!!»
Ao mesmo tempo que estas pérolas são votadas ao ostracismo, constata-se que a referida ‘playlist’ está atulhada de subprodutos (exógenos e endógenos), muitos dos quais promovidos ‘ad nauseam’.
O que se disse a respeito da Antena 1 aplica-se igualmente à Antena 3, outro canal do chamado “serviço público de rádio” que marginaliza, de forma perfeitamente criminosa, o nosso património musical mais valioso e qualificado.
Fica à reflexão dos pagantes da contribuição do audiovisual (que actualmente se cifra em €27,00 anuais + I.V.A.) e de quem tem nas suas mãos o poder para pôr cobro a tão aberrante anormalidade.
Poema da Malta das Naus
Poema: António Gedeão (in “Teatro do Mundo”, Coimbra, 1958; “Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor”, Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997)
Música: Manuel Freire
Intérprete: Manuel Freire* (in EP “Dulcineia”, Zip Zip, 1971; CD “Pedra Filosofal” (compilação), Strauss, 1993, CNM, 2004) [>> YouTube]
Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.
Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
* Arranjo – Thilo Krasmann:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Freire
http://www.oocities.com/vilardemouros1971/manuelfreire.htm
http://cantointervencao.blogspot.com/2009/07/manuel-freire.html
http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/antonio_gedeao/manuel_freire.html
http://deltagata4.blogs.sapo.pt/arquivo/1077446.html
http://deltacat02.com.sapo.pt/manuelfreire.html
http://deltacat02.com.sapo.pt/index.html
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/manuel_freire
http://cotonete.clix.pt/artistas/home.aspx?id=1635
http://www.lastfm.pt/music/Manuel+Freire

