Assistente social (conclusão)
O assistente social teve férias em Maio. Pude falar com uma colega, a quem fiz a narrativa completa, a minha mãe não conseguia comunicar, desinteressava-se da vida, precisava com urgência de terapia da fala, já esperara cinco meses e meio, quanto mais tempo passasse, menos ela viria a recuperar. A senhora prometeu informar-se, prometeu que me telefonava no dia seguinte. Como não telefonou, voltei ao hospital, onde ela voltou a prometer que se informava e me telefonava. Não telefonou. Volvi mais uma vez ao hospital. Passadas duas semanas neste ritmo, a senhora pretextou que, pelo que eu dizia, a minha mãe entretanto progredira, não se encontrava completamente acamada, convinha-lhe um centro adaptado às necessidades – escolhemos mais três; e prometeu que, o mais tardar, até Setembro, ela seria chamada. Em Agosto impus-me novamente. Então a minha mãe? Quando é chamada? O mais tardar não era Setembro? Estamos em Agosto, esperamos há oito meses, digam quando a chamam.
– Há aqui um pormenor…
Iam-se informar, telefonavam-me – o costume. Após mais uma semana de telefonemas, subidas ao hospital, esperas e insistência, confessaram enfim a verdade: tinham-se esquecido de enviar a candidatura da minha mãe dentro do prazo, por consequência ela jamais seria chamada para a Rede Nacional dos Cuidados Continuados Integrados. A candidatura deve obrigatoriamente ser enviada pelo hospital durante a hospitalização – e não o fora. Percebi então: durante oito meses haviam-nos entretido, esperando que eu desistisse, a minha mãe morresse e, de uma ou outra forma, o embuste perdurasse.
A triste consequência deste crime profissional é a minha mãe que, espero, viverá ainda muitos anos, ficar em cada dia do resto da sua vida incapaz de poder dizer o que quer, o que a preocupa, o que a incomoda ou simplesmente: de conversar.
Reclamei. Responderam-me que tinha razão. No entanto continuei a ver, uma ou outra vez, o assistente social que, sem dúvida, continua a repetir o esquecimento de outras tarefas com consequências definitivas na vida dos doentes. Assim vai a função pública.

