COMEMORAÇÕES DA REPÚBLICA- Fantasmas do Centenário – 4 – por César Príncipe

 

PERÍODO SPINOLISTA

 

 

 

Filho de António Sebastião Spínola, chefe de gabinete de Salazar e de Maria Gabriela Alves, doméstica, genro de um comandante-geral da GNR, António Spínola seguiu a carreira castrense. Germanófilo, integrou, como observador, a Divisão Azul, corpo de tropas nazis que participou na invasão da URSS/cerco de Leninegrado, 1941. Como oficial da GNR, intercambiou modelos e experiências de actuação com a Guardia Civil franquista. Foi comandante na Guerra Colonial em Angola (1961-1963), governador e comandante-chefe na Guiné-Bissau (1968-1973). Apercebeu-se de que o problema africano não tinha solução militar. Procurou substituir Américo Tomás, presidente da República, movendo os cordelinhos de uma operação sem dor. Tentou a mudança mínima, sempre no quadro do regime. Montou, para o efeito, uma máquina de pressão-persuasão, utilizando canais político-militares e de comunicação social. Escreveu um livro de advertência, Portugal e o Futuro, 1974. Mas o núcleo mais impermeável do regime não acolheu as recomendações da via spinolista da evolução na continuidade. Foi destituído de vice-chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas. 

Com a Revolução dos Capitães, Spínola reentra, como actor principal, no palco do novo poder, a fim de o regular e controlar. O presidente do Conselho, Marcelo Caetano, refugiado no Quartel do Carmo, solicita a sua presença para o ritual de rendição. É-lhe confiada a presidência da Junta de Salvação Nacional. É nomeado presidente da República pela JSN. O general com guarda-roupa de generalíssimo procura liderar o processo, contendo a mudança nos limites de um golpe palaciano. Impõe igualmente reservas ao programa do MFA, censurando, entre outras expressões, os termos democracia efascismo. E postula que, em vez de democracia política, se escreva acção do governo. Faz força para poupar a PIDE/DGS, contraria a independência das colónias, defendendo a totalidade intercontinental, empresta a sua capa a grupos económicos beneficiários e servidores da ditadura. Logo no dia 29 de Abril, recebe, na Cova da Moura, José Manuel de Mello, Ricardo Espírito Santo e Miguel Quina, um triunvirato de capitães da indústria e da finança. Com a sociedade civil em dinâmica emancipadora, o cabo-de-guerra sente o tapete a fugir debaixo das botas e conspira. Sob a sua égide, é desencadeada a intentona da maioria silenciosa de 28 de Setembro de 1974.

 

Frustrado o levantamento, abandona o cargo de presidente da República, dois dias depois. Prossegue o reviralho na acção armada de 11 de Março de 1975. Falhado o putsch de Março, escapuliu-se para Espanha. Estende o mapa da conspiração, buscando suportes no Brasil, na Suíça, na Alemanha. É banido das Forças Armadas. Patrocina a criação do ELP/Exército de Libertação de Portugal, organização de cariz terrorista, chefiada por Barbieri Cardoso, subdirector da ex-PIDE/DGS. Tutela, de seguida, o MDLP/Movimento Democrático de Libertação de Portugal, com o mesmo programa. Ambas as organizações se treinam e acoitam na Espanha de Franco. Contam com cumplicidades militares, partidárias, empresariais, clericais. Mário Soares legendou a maquinação incendiária e sangrenta da extrema-direita como indignação genuína. Segundo revelação de Guenter Wallraff (Imprensa, Março de 2010), jornalista que o entrevistou, fazendo-se passar por traficante de armas, AS tencionava eliminar fisicamente os adversários. O saldo de terror aponta para mais de uma centena de atentados a instalações da Esquerda partidária, sindical, social, cultural, a residências e viaturas, bem como à embaixada de Cuba. Registaram-se quatro vítimas mortais (sindicalistas e funcionários diplomáticos). 

Após o golpe de 25 de Novembro de 1975, AS é reintegrado nas Forças Armadas; dignificado como chanceler das Antigas Ordens Militares, condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, elevado à dignidade de Marechal. Mais recentemente, a pretexto do centenário do nascimento, que coincide com o da República, a Câmara de Lisboa, presidida pelo socialista António Costa engalanou uma avenida com o seu nome. À cerimónia presidiu Cavaco Silva, que considerou a homenagem um acto de grande justiça , ele que, enquanto primeiro-ministro, não considerou um acto de simples justiça atribuir uma pensão à viúva de Salgueiro Maia.

 

Política de reabilitação de inimigos e infiltrados da Revolução e de ostracização de capitães e companheiros de Abril, na senda de Mário Soares, que também dá pela alcunha  de socialista, ele, compagnon do general de pingalim, a quem forneceu retórica e cobertura nas conspirações e nas reparações. Assim se reintegra mais um Grande Português na normalidade democrática. Ele que só falou em abertura política na fase terminal da ditadura. Ele que só levantou a voz para que ouvissem a sua voz. Ele que nunca se incomodou com a maior silenciosasubjugada pelo fascismo. Ele que só descobriu o Bom Povo Português depois da revolução de Abril haver despertado o Mau Povo Português. Bom seria se porventura despertasse para defender as forças acobertadas atrás do general que olhava o povo de monóculo, que mirava o povo de binóculo, que observava o povo de telescópio. 

 

A seguir – Período soarista

 

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