OS HOMENS DO REI – 90 – por José Brandão

 

D. MANUEL II (reinou de 1908 a 1910)

 

 

Cinco de Outubro de 1910. O último rei de Portugal caminha pesarosamente pelo areal de uma pequena praia da Ericeira. D. Manuel II, o Desventurado, está prestes a embarcar no iate real D. Amélia que o levará para longe da Pátria. Do seu pensamento não saem as imagens da grande tragédia que ele presenciara na véspera de subir ao trono em 1908. Nesse dia vê assassinarem-lhe o pai e o irmão mais velho.

 

No dia seguinte ao regicídio subia ao trono D. Manuel II, então com 18 anos. O jovem rei começa por adoptar algumas medidas para tentar conter o ambiente de agitação que tomou conta do país, nomeando imediatamente um novo ministério.

 

Após o assassinato de D. Carlos, em 1908, Portugal passou a viver um clima de pré-insurreição. D. Manuel II, embora desse o seu melhor para acalmar as tensões, nomear um governo credível e ultrapassar as dificuldades, não conseguiu evitar a derrocada do regime, que caiu num crescente descrédito. Os republicanos preparavam-se para o golpe, que ficou marcado para o dia 3 de Outubro. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a implantação da República esteve à beira do fracasso. Só a desorientação das forças leais ao regime e a ousadia e coragem de um punhado de revoltosos é que permitiu que o movimento triunfasse. Os 4470 soldados e os 3771 polícias controlados pelo estado-maior monárquico chegavam e sobravam para dar cabo das quatro centenas de carbonários civis e militares que estavam com Machado Santos no Parque.

 

Pouco faltava para a uma da manhã de dia 4. Do Centro Republicano de Santa Isabel, situado nas proximidades do quartel de Infantaria 16, em Campo de Ourique e onde combinara encontro com o grupo carbonário chefiado pelo civil Meireles, Machado Santos sai para cumprir a missão que lhe fora confiada. Apenas dispõem de catorze armas. Mesmo assim não hesitam, nem sequer esperam o quarto de hora que ainda falta para a hora combinada. Tomam Infantaria 16 onde os sargentos tinham sido já conquistados na totalidade por Machado Santos.

 

Entretanto, chega a informação do suicídio do Almirante Cândido dos Reis, carbonário e chefe militar da sublevação.

 

Seriam cerca de 7 horas da manhã do dia 4 quando a notícia da morte do almirante Cândido dos Reis chegou à Rotunda. O velho militar republicano e chefe carbonário aparecera morto, para os lados de Arroios. Suicidara-se ao julgar que a Revolução voltara a falhar.

 

No acampamento revolucionário a noticia causa grande abalo. Os oficiais presentes decidem reunir em conselho. Ao todo não chegam a ser uma dúzia. Na cocheira do palacete do conde de Saborosa reúnem duas vezes para avaliar a situação. Concluem que não há nada a fazer e votam por abandonar o local. Há apenas um voto contra: Machado Santos.

 

Os oficiais vestem-se à civil e partem cada para seu lado. Um é teimoso e fica: Machado Santos.

 

Agora sem oficiais, Machado Santos manda tocar a sargentos. Respondem nove. Estão para o que der e vier. São todos carbonários. Vão ficar na História: serão os comandantes dos menos de 200 militares que restam depois da saída dos oficiais. Alguns jovens cadetes da Escola de Guerra estão lá também. O reduto revolucionário dispõe de oito peças para sustentar a sua defesa pesada. As barricadas são aquilo que se pode arranjar: toscas, improvisadas, incapazes de resistir a um ataque a sério das forças monárquicas.

Ao meio-dia e meia hora começam a chover as primeiras granadas que anunciam a chegada de Paiv

a Couceiro à frente das baterias de Queluz. A pontaria não é de aprendiz de artilheiro. Caem em cheio sobre a primeira linha de fogo. O duelo de peças é feroz e intensa a fuzilaria que envolve por completo a Rotunda. No meio do combate, Machado Santos olha para o lado e vê, ainda vestido a paisana, um dos oficiais que tinha abandonado o acampamento revolucionário. Era o alferes Camacho Brandão, que regressava para se pôr ao lado dos que aquela hora já morriam pela República. De volta a Rotunda, é-lhe confiado comando das peças que vão conseguir suster o ataque de Paiva Couceiro. Durante toda a luta, dirigiu o tiro de artilharia com um tal convencimento que pôs as tropas monárquicas em completo desnorteio. Comandava o fogo das peças com «tanta serenidade e com um movimento de braços tão compassados como se estivesse dirigindo a orquestra de S. Carlos!»

 

Por volta das quatro da tarde, as baterias de Queluz entendem que o melhor é voltarem para as frescas bandas da Serra de Sintra e com este ânimo põem-se a caminho da respectiva unidade.

 

Ao romper da alvorada de dia 5 já a República podia ser dada como certa em Portugal. Finalmente a Marinha estava onde era ansiosamente esperada pelos resistentes do Parque.

 

O Palácio das Necessidades, residência oficial do Rei, foi bombardeado, pelo que o monarca terá sido aconselhado a dirigir-se ao Palácio Nacional de Mafra, onde sua mãe, a Rainha, e a avó, a Rainha-mãe D. Maria Pia de Sabóia viriam juntar-se a ele. Pouco depois, o rei D. Manuel II, acompanhado de sua mãe, D. Amélia e de sua avó, D. Maria Pia, embarcava numa praia da Ericeira no iate D. Amélia, rumo a Gibraltar. Daí seguiria para Inglaterra, para o exílio.

 

D. Manuel fixou residência nos arredores de Londres, local para onde seguiram os seus bens particulares, e onde já sua mãe havia nascido, também no exílio.

 

Apesar de deposto e exilado, D. Manuel teve sempre um elevado grau de patriotismo, o que o levou, em 1915, a declarar no seu testamento a intenção de legar os seus bens pessoais ao Estado Português, para a fundação de um Museu, manifestando também a sua vontade de ser sepultado em Portugal.

 

Desde 1911 que forças de monárquicos exilados se centram na Galiza, com o beneplácito do governo espanhol, para entrarem em Portugal e restaurarem o regime monárquico. Eram lideradas pelo carismático Henrique de Paiva Couceiro, veterano das campanhas de África e o único oficial que se havia batido com denodo pelo regime aquando do golpe de estado de 5 de Outubro.

 

D. Manuel apoiou como pôde estas incursões, embora os seus recursos financeiros, nos primeiros anos de exílio, fossem bastante limitados. Acresce o facto de que esta primeira incursão ter sido feita sob a bandeira azul e branca, mas sem a coroa.

 

Em 4 de Setembro de 1913, D. Manuel II casou com D. Augusta Vitória pelo civil e mais tarde pelo religioso, cerimónia essa que foi presidida pelo antigo cardeal-patriarca de Lisboa D. José Neto, exilado em Sevilha.

A 2 de Junho de 1932 D. Manuel II, o último rei de Portugal, morre em Londres devido a doença prolongada.

Aires de Ornelas e Paiva Couceiro foram homens do rei D. Manuel II.

 

 A seguir: Aires de Ornelas

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